domingo, 20 de janeiro de 2013

CARA LUCIDEZ


Cara Lucidez,

Prometemos um casamento eterno, que apenas a morte seria capaz de nos separar, mas como em todas as uniões, alguma das partes acaba por se retirar primeiro.

A vida inteira pensei que chegar à velhice só valeria à pena se guardasse minha lucidez. Costumava dizer que não queria dar trabalho a ninguém. Para o bem ou para o mal, ninguém prevê o que o futuro nos reserva.

Muito cedo precisei agarrar as rédeas de meu destino. A inocência de outrora deu lugar a uma maturidade precoce nascida da necessidade. Certamente por isso nunca tivesse tido medo de trabalho, acumulando jornadas por longo tempo. Imaginava que isso era bom uma vez que mantinha a mente em plena atividade.

Conheci muita gente boa pelo caminho, vivi intensamente alegrias e tristezas, viajei pelo mundo. Tanta coisa foi acontecendo e eu me sentindo cada vez mais dona da situação. Servi de exemplo para filhos e netos, tornei-me símbolo de longevidade.

Tudo isso também teve um preço. Assistir a partida de tantas pessoas queridas pesou muito a jornada. Essa é uma parte especialmente difícil; aqueles que compõem sua história vão sumindo e com eles uma parte de você.

Eu aguento tudo, firme, embora o corpo já não responda na velocidade que o pensamento corre. E quando imagino que a proximidade do fim não nos separará, eis que nos perdemos uma da outra.

Sem você, cara lucidez, passo a ser a sombra de quem um dia fui, vagando em alguma realidade paralela onde nem eu mesma me reconheço. O único consolo de estar distante de você é que em seu lugar surge uma inocência quase infantil e com ela eu sigo sem lamentações. 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

E A VIDA CONTINUA


Toda virada de ano é a mesma coisa; junta-se esperanças de que tudo poderá ser diferente, ainda que o último dia do ano jamais seja um ponto, mesmo que de continuação. Para o bem ou para o mal não há como apagar tudo e reescrever de onde parou. É preciso seguir lidando com velhas frustrações que aos poucos podem dar espaço a novas realizações, mas essa atmosfera de renovação é muito bem vinda, impulsiona sonhos e projetos, além de ser capaz de manter acesa a chama interior que faz todo ser humano ir em frente.

Confraternizar com a família e os amigos é um modo de alimentar essa energia boa de fim de ano. É um tempo de deixar transbordar o amor que une uns aos outros, mas é um tempo também de expurgar fantasmas e acertar as contas, com o presente e muitas vezes com o passado. É possível que esta catarse proporcione rupturas, as quais a longo prazo se mostram necessárias para um convívio mais verdadeiro entre as pessoas. Remexer no passado e tocar velhas feridas pode soar doloroso, algo para ser evitado a todo custo, contudo pode nascer daí a possibilidade de conhecer melhor a si e aos que te cercam. No final permanece a força dos laços indissolúveis que mantém as pessoas agarradas umas às outras.

É um tempo também de rever os rumos no âmbito profissional, se perguntar se está no caminho certo, se o que se tem é o que se quer. Questionamentos como esses podem abalar alicerces tidos como firmes, e isto mais uma vez pode ser a mola propulsora para uma guinada. Revirar esse baú pode ser o passo que faltava para uma transformação desejada e necessária.

Impossível não pensar no mundo como um todo, o que está sendo feito de nossa sociedade e quais as alternativas para manter os ideais de igualdade entre os povos. Pensar também nas alternativas de desenvolvimento sustentável e conservação dos patrimônios da humanidade para que nossa história continue sendo contada muito tempo adiante.

À parte as mutações inevitáveis e estimadas, há toda uma gama de coisas que Jamais mudam, e com o tempo vai se acomodando à rotina diária e se adaptando à linha de montagem cotidiana. Ainda assim é crucial distinguir o que pode e deve ser mudado daquelas coisas que precisam permanecer como são, sem deixar-se abater e sem se entregar ao comodismo e à inércia. Durante os mais de trezentos e sessenta dias restantes é importante reavivar aquele sentimento de que tudo pode dar certo, manter a cabeça erguida e o coração cheio de boas energias para encarar o mundo sempre com esse olhar para fazer o ano verdadeiramente feliz e novo. Afinal a vida sempre continua. 


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

ASSIM CAMINHAM OS CONTOS DE FADAS



Não é incomum ouvir mulheres com discurso mais feminista citarem o desserviço prestado às meninas pelos contos de fadas. Costumam apontar que tais histórias remetem a um tempo em que a sociedade era absolutamente arcaica, com um poder exacerbado designado ao homem. Argumentam que criam ilusões inatingíveis, e o que é pior, alimentam a crença, ainda que subliminarmente, de que as mulheres são inferiores aos homens e nas mãos deles está sua salvação.

Mais comum ainda é ver pais que repercutem estas histórias incessantemente para suas crianças, valorizando sobretudo o lado lúdico que deve sim ser estimulado na infância. Entendem que o que predomina nestas histórias é de fato o amor e o encantamento. E persistem docemente fazendo parte dos sonhos de toda menina.

Radicalismos à parte, engana-se quem pensa que as historinhas são meramente inocentes. O psicanalista Bruno Bettelheim, autor do livro A Psicanálise dos Contos de Fadas, atesta que os contos de fadas guardam um significado importante, capaz de influenciar com êxito a vida interior da criança. Conclui que é uma mensagem múltipla a deixada por esse tipo de literatura; lutar contra as dificuldades na vida é inevitável, faz parte de toda existência, mas quando a pessoa não se intimida e enfrenta com firmeza os desafios, acaba alcançando a vitória. Conceitos de bem e mal, de morte e de justiça também são amplamente explorados nos contos de fadas.

Voltando à questão feminista, a retaliação reside no fato de as histórias mostrarem mulheres vulneráveis, que precisam de príncipes para se realizarem, e que por eles são salvas, além das reservas ao felizes para sempre. Mesmo deixando no inconsciente a idéia de que a felicidade está lá no fim do arco-íris, os contos de fada não são, com perdão do trocadilho, o bicho papão da formação feminina. Além disso eles vêm acompanhando as mudanças da sociedade, mostrando uma mulher cada vez mais atuante, segura e tomando seus destinos em suas mãos. A primeira princesa Disney, Branca de Neve, ingênua ao cair na armadilha da madrasta e só desperta após o beijo do príncipe. Aurora adormece por longos anos até ser depertada também pelo seu príncipe encantado. No conto da Cinderela a mocinha já aparece com mais atitude, mesmo no borralho não deixa de sonhar, é corajosa ao partir incógnita para o baile, ainda que necessite da interferência da fada madrinha e mais uma vez um príncipe defina seu destino. Provando que o tempo traz mudanças, a Bela é quem salva a Fera e lhe mostra a alegria de viver e o poder do amor; assim como a Ariel, que embora troque sua voz para se tornar humana e assim poder estar com o homem que ama, foi agente de sua história todo o tempo, longe da postura passiva de antes. A mais recente representante na evolução feminina nos contos de fadas é Tiana; mulher, negra, batalhadora, que passa a maior parte da história na forma de sapo, regenera o príncipe e mesmo ao se tornar princesa não abre mão de seu trabalho.

Assim caminham os contos de fadas; encantando milhares de crianças ao redor do mundo e de alguma forma retratando os caminhos da mulher na sociedade.


domingo, 9 de dezembro de 2012

ONDE ANDA VOCÊ


Existem coisas das quais apenas crianças são capazes. Sentir a vida com pureza e encarar tudo de uma forma singela é experiência genuinamente infantil e que em alguma proporção se leva para a vida adulta; uns mais e outros menos. Mergulhar nesse passado pode ser desafiador e muitas vezes frustrante, já que para a maioria dos adultos o distanciamento daquele ser que foi na infância é quase abissal.

Vários aspectos de sua vida foram planejados quando brincar era sua única obrigação. É comum, por exemplo, se falar no que vai seguir profissionalmente quando crescer. Obviamente muita coisa é surreal, absolutamente fora da realidade e por tanto não factível. Outras coisas até são possíveis, mas olhando um pouco mais friamente percebe-se estar aquém do que seria uma ambição mínima para o futuro. O restante, em menor número, fica para aqueles que desde pequeninho já apontava para o que seguiria e vai em frente, graças às circunstâncias, estilo de vida da família e apoio dos pais. Questões menos palpáveis que a profissão, porém não menos importantes também vão se perdendo no caminho. O amor incondicional pelos pais provavelmente sobreviveu, contudo quando foi que você deixou de dar o beijo mais melado e o abraço mais quente que podia existir? Deve ter sido na mesma época em que descobriu que sua mãe não era a única mulher no mundo e seu pai não era um super-herói de verdade. Aquele jeito que só na infância você resolvia os conflitos com os amiguinhos, com generosidade, sem interesses escusos, onde ficou? A crença indelével de que podia fazer diferença no mundo sumiu sem que ao menos se desse conta. Envolver-se com pessoas e situações de corpo e alma, sem reservas deixou de ser uma atitude usual? Sorrir francamente e nem saber o que são meias palavras há muito tempo passou a caso raro em sua correria diária.

Com tanta gente grande se identificando com perdas como essas é impossível não se imaginar que esse seja o caminho natural, próprio do amadurecimento.  Provavelmente muita mudança na forma de encarar a vida sejam de fato inevitáveis e mesmo necessárias; escolher a profissão com mais frieza, pesando gosto pessoal e retorno financeiro é uma estratégia apropriada para prover seu sustento, encarar que papai e mamãe não sabem tudo é um rito de passagem, ter uma certa malícia na hora de resolver conflitos é uma questão até de sobrevivência, envolver-se abertamente com tudo e com todos muitas vezes é uma maneira de se tornar vulnerável num mundo que lhe exige força e postura, e ponderar o que diz, dosar as palavras é importante em muitas situações e socialmente  requerido.

A maturidade vem, de um jeito ou de outro, porém crescer não pode significar perder sua essência, não significa que vá se perder o genuíno comprometimento com aquilo em que você acredita. Aninhar-se no colo dos pais sempre será um refúgio que traduz o poder e a importância desta relação que foi a primeira experimentada na vida. E de alguma maneira sua mãe é única e seu pai sempre tem uma porção herói. Mais que tudo, não perder de vista que ainda se pode mudar o mundo, sempre, com cada atitude no seu dia-a-dia e principalmente na maneira que apresenta a vida às novas gerações. Talvez perceba que precisa se reconciliar consigo mesmo, transformar o olhar para a criança que você foi num momento tranquilo, e isso sim é crescer.


domingo, 25 de novembro de 2012

DORES E DELÍCIAS


Lá vem ela de novo. Essa multimulher não para nem por um segundo, até seu sono é produtivo ( e ai dele se não for!). Mas como falar de dores e delícias sem falar da multimulher, o protótipo da ambiguidade.  No campo maternidade então, essa assertiva se realiza plenamente.

Ser mãe tem tudo a ver com a letra de Caetano Veloso que diz “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, até porque, com perdão do trocadilho, a maternidade tem seu dom de iludir, e também por isso é uma aventura maravilhosa.

A gestação, à parte a possibilidade dos enjôos, mal estar e repouso forçado para algumas, é uma ilusão fantástica. Está ali o pequenino ser no ventre, podendo ser levado a qualquer lugar, obediente e sob controle. A áurea sublime que cerca esse momento parece ser uma trégua providencial para o dia em que seu bebê vem ao mundo se seu peito racha, sua bexiga dói e seus olhos pesam. Até você, que nunca curtiu uma rave vai curtir a noitada e vai entrar em alfa ao trocar olhares com aquela pessoinha na madrugada. (Parênteses para alerta: depois das primeiras noites, já estabelecida a relação, opte por não estabelecer contato visual, não acenda luzes e faça o mínimo barulho possível; verá que é mais fácil fazer o rebento dormir novamente). Ainda assim, sentir-se realizada é a tônica.

Com crianças pequenas o trabalho braçal é enorme, muitas vezes parece se estar correndo num carrossel de hamster; não há como descer. E é mesmo um processo que se autoalimenta; acorda, dá comida, dá banho, brinca, se suja dá mais banho, mais comida, brinca, se suja... não sem um beijinho gostoso com a sinceridade que só criança tem, um abraço com aquela mão de chocolate e aquela exclusiva troca de olhar. E nas noites febris vem tanto aperto no coração (mesmo que você chega médica, e pediatra; esta ainda pior pela quantidade de possibilidades diagnósticas que lhe vem à cabeça), trocaria de lugar facilmente e faria qualquer coisa para devolver-lhe o bem-estar. Felizmente há a incrível capacidade de recuperação das crianças, e com ela o retorno da tranquilidade. Quem sempre foi cheia de nove horas para tudo, agora põe a mão em cocô, xixi e toda sorte de secreções sem cerimônia. E está tudo certo!
           
Para as mães dos maiores entra em cena mais uma tarefa, a de motorista. É um tal de leva para a escola, da escola para a natação, daí para o balé e depois ainda tem a aula de inglês, de robótica, de judô, e um sem número de coisas que esses pequenos executivos fazem nos dias de hoje. A multimulher supira cansada, a esta altura já não se culpa por querer dar uma parada de vez em quando, mas a cumplicidade continua, e se sente a alegria da missão sendo cumprida e ver que contribui para entregar ao mundo um ser humano valoroso.

A vida segue, e provavelmente algum dia a angústia do ninho vazio vai passar por aquela mulher, contudo a sua essência multi-interessada a fará ter outros focos para colocar sua energia, embora sempre exercendo a maternidade, ainda que posicionada de uma outra forma. Tudo porque aquela primeira troca de olhar simboliza um laço absolutamente insolúvel e faz parte das delícias da maternidade, que estão acima de todas as dores. 


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A MULTIMULHER, O CASAMENTO E A PANELA DE PRESSÃO



Com a correria do dia-a-dia é comum não encontrar tempo para se reunir com os amigos. Aquela saída divertida longe das preocupações domésticas é sempre bemvinda e saudável. Ela fortalece os laços de amizade, relaxa das tensões do cotidiano, além de servir para enriquecer as relações dos casais, uma vez que possibilita ter novidades para contar, manter-se vivo e interessante para o outro.

A individualidade é fator importante no casamento. Por mais que se viva em completa harmonia, a simbiose não pode ser tal que anule os anseios e as percepções de cada um. Estar bem consigo mesmo, emitir suas próprias opiniões e manter seus próprios interesses é o que faz o ser humano sentir-se pleno. Um estudo sobre terapia familiar intitulado “O difícil convívio da individualidade com a conjugalidade”, da professora da PUC-RJ Terezinha Féres-Carneiro, aponta bem o que a questão envolve. O título já é bastante esclarecedor, mostrando que de fato a dualidade vivida pelos pares num casamento é delicada e alcançar uma harmonia não é fácil, até porque, à primeira vista parecem excludentes. A pesquisa afirma que na lógica do matrimônio um e um são três – dois sujeitos (duas percepções de mundo) geram uma identidade conjugal, um projeto de vida. Criar este modelo único pressupõe espaço para cada personalidade expressar o que sente. E é neste ponto com muitos relacionamentos engasgam, o que cedo ou tarde traz cobranças mútuas, arestas que se não forem aparadas determinaram o fim.

Manter vivo esse espaço de manifestação das personalidades num casal é um trabalho de formiguinha, uma construção diária que demanda atenção. Um dos pilares desta construção é estar com os amigos (os seus, os meus e os nossos), o que promove equilíbrio emocional para o casal. Ter privacidade com os amigos, falar bobagem, ser confidente de alguém e trocar experiências ajuda no crescimento pessoal e é muito importante, principalmente se imaginarmos que a maioria das amizades duram mais que os casamentos. Cultivar as amizades auxilia a quebrar a rotina e a falta de assunto que muitas vezes mina os relacionamentos. O casal que decide se fechar corre o risco de em algum momento implodir. É como uma panela de pressão; necessita de uma válvula de escape para respirar e ser aquela pessoa pela qual valeu a pena a conquista. As mulheres historicamente reconheceram esta necessidade mais tardiamente que os homens – o futebol com os amigos é um costumaz vilão nas batalhas domésticas. Toda multimulher, mesmo que no campo das idéias, trava um equivalente, mas sua característica primordial é se moldar à tal multiplicidade de papéis. Com o tempo ela foi conquistando um espaço na sociedade, e consequentemente no casamento, que propõe uma relação mais equânime, onde suas realizações pessoais e seu sucesso profissional também têm importância. Esta nova conformação ratifica que há vida fora do casamento e faz com que as pessoas fiquem juntas cada vez mais pelo prazer dessa troca. Ter seu “clube da Luluzinha” é ótimo, faz voltar para casa cheia de energia e disposição, te põe em movimento. No final é tão enriquecedor pessoalmente que reflete de forma positiva na qualidade e longevidade conjugal.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

REPONDO AS PENAS DO ANTIGO COCAR


Não se conta a história do Brasil sem que se fale dos índios que aqui já viviam antes de qualquer linha ser escrita. Diversas tribos que cultivavam seu alimento, passavam sua cultura de geração em geração e cultuavam seus deuses. A chegada de outros povos a esta terra rechaçou os índios, que não se adaptaram ao aculturamento promovido pelos europeus, e foram cada vez mais adentrando o continente. Com o tempo populações indígenas inteiras foram dizimadas na busca por terras de colonos, seguidos de garimpeiros e grileiros.

Oportuno lembrar a riqueza desta cultura, tantas línguas, hábitos e costumes diferentes do que conhecemos. São várias etnias, Carajás, Caiapós, Guaranis, Ianomamis e Tupis. Precisaram se adequar, de forma que grande parte deles acabou com as crenças esfaceladas e invadidas. Os que resistem passaram a ter que confrontar o cotidiano nas aldeias com a incersão social dos seus povos nas cidades com predomínio dos não-indígenas. Para esta resistência é fundamental preservar suas tradições, suas músicas e instrumentos musicais e seua rituais. Nestas aldeias o Pajé ainda é sábio e uma espécie de sacerdote, os alimentos são cultivados de forma artesanal e a relação com a natureza é mais harmônica. Tudo isso fica sob ameaça por interação com a sociedade em torno. Daquilo que foram há séculos, restam pouco mais de 220 sociedades indígenas pelo país.

Apesar desta realidade ser absolutamente pública, de séculos mais tarde existir uma unificação da miscigenada população brasileira e da Constituição datada de 1988 reconhecer direitos específicos dos povos indígenas, ainda se vê cenário semelhante. Ao longo do tempo tais terras, predominantemente nos estados do Amazonas e Mato Grosso do Sul, transformaram-se em grandes latifúndios, nas mãos de agricultores produtivos, o que é considerado importante para o desenvolvimento dessas regiões. O reconhecimento da propriedade ancestral destas terras se esbarra num conflito de difícil solução. Ir de encontro aos que detém o poder econômico não tem sido a tônica dos sucessivos governos, e enquanto não houver este enfrentamento os conflitos continuarão, cada vez mais sangrentos, com a derrota óbvia dos mais desprotegidos. E com uma derrota mais sutil, a do povo brasileiro por perder mais um pedaço de sua identidade.

Episódios recentes deram nova força à vozes indígenas, com a decisão da Justiça Federal em que os índios Guarani-kaiowá poderão permanecer na área ocupada pela Fazenda Cambará, no Mato Grosso do Sul. Reacendeu-se a discussão após apelo de grupos indígenas que diziam preferir ser mortos do que sair da terra tradicionalmente ocupada por seu povo, até porque a decisão da justiça é temporária, mantendo-os em apenas um hectare de terra, metade do que ocupavam anteriormente, enquanto não se define a legalidade da ocupação do local.  Não deixa de ser um tipo de preconceito racial sim imaginar que a cultura indígena deva ser esquecida pelos índios em nome de adotar um estilo de vida mais cosmopolita. Este tipo de pensamento já foi chamado de etnocídio, e o que é pior, feito de forma absurdamente compulsória. A luta é antiga e ganha novo fôlego em direção à necessidade de demarcação das terras com brevidade. Como envolve muitos interesses e de grandes produtores, é preciso um pacto da sociedade, como disse a atual presidente da Funai. Não basta vir uma decisão vertical, é necessário mobilizar dinheiro para retomar propriedades, é preciso que as partes tenham um entendimento de que são sacrifícios em prol da reparação e resgate desta parte de nossa história. É como pintar a cara e partir para a luta, repor as penas de um antigo cocar.

domingo, 28 de outubro de 2012

PAIXÃO OU RAZÃO




Esta não é apenas uma história de amor. Na verdade é uma história de paixão. É sobre o momento em que uma decisão importante está para ser tomada e talvez por isso não devesse se basear na paixão, mas se pronuncie quem for capaz de controlá-la. Na verdade é uma história de razão, mas o que dizer sobre as razões que a própria razão desconhece?

Sob a ótica da paixão as questões ganham dimensões muitas vezes distantes da realidade, tomam um cunho obviamente pessoal. Deixa-se de lado justificativas plausíveis, não precisa ter razão de ser, carece deliberadamente de fundamentação. Visto assim soa inconsequente, contudo escolhas decisivas são feitas assim todos os dias, e não necessariamente leva ao erro. Pode ser o que origina o passo mais acertado de sua vida, pode ser a fonte inspiradora para todas as suas conquistas, sua receita de sucesso. Hoje pode ser um desses dias.

Há, por outro lado, a racionalidade pura, a objetividade, que poderá lhe dar dados probabilísticos em direção ao acerto. Mesmo que não represente cem por cento de certeza, para alguns representa segurança. Estar embasado, fundamentado em fatos reais, buscando conhecer o modus operandi dos atores envolvidos em dada situação, sua trajetória trás a sensação de se estar tomando a decisão correta. Algumas situações certamente exigem tal estratégia. Hoje pode ser um desses dias.

O grande acerto num dia como esses, em que se degladiam paixão e razão, é ter sabedoria para distinguir se é hora de usar uma coisa ou outra. Mais ainda quando estamos um por todos e todos por um, com o gesto de um afetando a vida do outro. Não se espante; num dia como esses ambas podem ter seu lugar, e tudo pode se apresentar de forma suficientemente confusa a ponto de você sequer perceber. Então encare o momento de frente, tome as rédeas e decida o que só cabe a você. Ao final de tudo busque a serenidade, não apenas para aceitar os resultados, mas para ser agente de uma possível mudança se julgar necessário, de forma lúcida e coerente. Até porque outros dias como este chegam de tempos em tempos, e sem dúvida você vai querer fazer o melhor, com paixão ou com razão.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A MORTE DA DIALÉTICA



“Toda unanimidade é burra”. A frase atribuída a Nélson Rodrigues expressa o quanto a dialética é importante para o enriquecimento humano. Manter viva a discussão no sentido de  fazer refletir é fundamental para mover o pensamento adiante.

A presença da dialética supõe confronto de idéias, não necessariamente o conflito. Requer respeito e serenidade para que ter diante de si o outro lado da moeda suscite a busca pelo denominador comum, e não simplesmente dominar. Não por acaso, os opostos se atraem a fim de se complementarem. Discordar é bom e é saudável, desde que seja privilegiada a tolerância. Quando a dialética morre, o discurso se torna vazio, mera retórica, e que não leva a lugar algum.

Nos dias atuais o antagonismo das idéias muitas vezes parece pálido; criaram-se diversas ditaduras de comportamento e padrões a que todos devem seguir. Quem pensa fora da caixinha é tido como inadequado. Casos de bulimia e anorexia têm como origem a necessidade extremada de se encaixar em dado estereótipo. E as pessoas que vivem marginalizadas por terem um estilo de vida que se distancia de um status pré-determinado. Assim acontece no campo político, quando adversários limitam-se à agressão mútua e a apontar os erros do outro, esquecendo-se do foco da disputa. Pouco adianta levantar os problemas sem pensar para eles soluções e viabilizá-las. Aqui cabe perfeitamente aprender a ouvir e pensar na contribuição que cada um tem a dar.

Em suma, fazer pulsar a dialética é um exercício diário e significa sair da atitude defensiva, pressuposto para viver em harmonia, respeitando as diferenças.

domingo, 7 de outubro de 2012

O SACO DE BESTAGEM DE VANDEU

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjQByw_h3PbCr2tvXNjXFlGV2_DzkfeYfG9Fv-1WiO2IF9DEk3VwWHGx6Ww-pe4n6cmXxRqq_njtv7Xn7FzZ0WIc9nWDm6YsCm0OUIYEePeDLyhGnYT5XYPteKUaKrtktAL_P7bJoLq3NE/s400/Contos_do_Brasil_b1.jpg


Domingo é dia da meninada. A programação vai sendo adaptada ao gostinho dos pequenos e invariavelmente envolve saídas longas. Quem tem filho pequeno sabe que uma mochila é sempre bem vinda, onde se coloca coisas que possivelmente vão usar, mesmo para os maiores, é um lanche, uma água ou uma muda de roupa. Até aí tudo normal. O engraçado hoje foi a interferência das estrelinhas na arrumação da tal mochila (coisa que vem se tornando bastante comum) – é tanta buginganga que acham importante levar, inclusive todas com justificativas extensamente balisadas, seja a cabeça decepada de uma boneca velha ou uma toalhinha rasgada deixada de lado, passando por um bloquinho de papel e um lápis sob o disfarce de diário a título de se escrever as aventuras que acontecerem no passeio. E nessa hora algumas coisas vêm à mente: o peso da mochila, toda hora ter que abrir a mochila, por consequência ter que fechar a mochila, derrubar um monte de coisa no abre-fecha da mochila e torcer para não esquecer a bendita mochila. Fez lembrar  O SACO DE BESTAGEM DE VANDEU (assim mesmo com letras maiúsculas dada a entidade de que se tratava).

O tal saco (saco mesmo!) era emblemático, inseparável de seu dono e parecia ter vida própria. Parecia ser uma espécie de alterego e às vezes é possível que chegassem a dialogar entre si, dono e objeto. Simbiose como esta suscitava fantasias a cerca do que haveria dentro dele, ainda mais para quem, puxando agora da memória, nunca vira o conteúdo do saco. O episódio de hoje revirou-o e viu tanta coisa lá dentro, afinal que lógica pode ter a fantasia? E não é que viu que levava também seu caderninho para anotar as aventuras do dia, que não eram poucas,  e as tiradas impagáveis, contar do amor que tinha pela família, do quanto sabia curtir a vida, explicar a diferença entre pôde e podre, além de ensinar a encarar o mundo com o mais genuíno bom humor.

Sendo assim, deixa as pequenas colocarem o que quiserem na mochila, aliás cada uma com a sua, um território particular onde tudo é possível, criando seu próprio saco de bestagens onde poderá brotar livremente suas fantasias de criança e um dia poder ser uma deliciosa lembrança.