segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

ASSIM CAMINHAM OS CONTOS DE FADAS



Não é incomum ouvir mulheres com discurso mais feminista citarem o desserviço prestado às meninas pelos contos de fadas. Costumam apontar que tais histórias remetem a um tempo em que a sociedade era absolutamente arcaica, com um poder exacerbado designado ao homem. Argumentam que criam ilusões inatingíveis, e o que é pior, alimentam a crença, ainda que subliminarmente, de que as mulheres são inferiores aos homens e nas mãos deles está sua salvação.

Mais comum ainda é ver pais que repercutem estas histórias incessantemente para suas crianças, valorizando sobretudo o lado lúdico que deve sim ser estimulado na infância. Entendem que o que predomina nestas histórias é de fato o amor e o encantamento. E persistem docemente fazendo parte dos sonhos de toda menina.

Radicalismos à parte, engana-se quem pensa que as historinhas são meramente inocentes. O psicanalista Bruno Bettelheim, autor do livro A Psicanálise dos Contos de Fadas, atesta que os contos de fadas guardam um significado importante, capaz de influenciar com êxito a vida interior da criança. Conclui que é uma mensagem múltipla a deixada por esse tipo de literatura; lutar contra as dificuldades na vida é inevitável, faz parte de toda existência, mas quando a pessoa não se intimida e enfrenta com firmeza os desafios, acaba alcançando a vitória. Conceitos de bem e mal, de morte e de justiça também são amplamente explorados nos contos de fadas.

Voltando à questão feminista, a retaliação reside no fato de as histórias mostrarem mulheres vulneráveis, que precisam de príncipes para se realizarem, e que por eles são salvas, além das reservas ao felizes para sempre. Mesmo deixando no inconsciente a idéia de que a felicidade está lá no fim do arco-íris, os contos de fada não são, com perdão do trocadilho, o bicho papão da formação feminina. Além disso eles vêm acompanhando as mudanças da sociedade, mostrando uma mulher cada vez mais atuante, segura e tomando seus destinos em suas mãos. A primeira princesa Disney, Branca de Neve, ingênua ao cair na armadilha da madrasta e só desperta após o beijo do príncipe. Aurora adormece por longos anos até ser depertada também pelo seu príncipe encantado. No conto da Cinderela a mocinha já aparece com mais atitude, mesmo no borralho não deixa de sonhar, é corajosa ao partir incógnita para o baile, ainda que necessite da interferência da fada madrinha e mais uma vez um príncipe defina seu destino. Provando que o tempo traz mudanças, a Bela é quem salva a Fera e lhe mostra a alegria de viver e o poder do amor; assim como a Ariel, que embora troque sua voz para se tornar humana e assim poder estar com o homem que ama, foi agente de sua história todo o tempo, longe da postura passiva de antes. A mais recente representante na evolução feminina nos contos de fadas é Tiana; mulher, negra, batalhadora, que passa a maior parte da história na forma de sapo, regenera o príncipe e mesmo ao se tornar princesa não abre mão de seu trabalho.

Assim caminham os contos de fadas; encantando milhares de crianças ao redor do mundo e de alguma forma retratando os caminhos da mulher na sociedade.


domingo, 9 de dezembro de 2012

ONDE ANDA VOCÊ


Existem coisas das quais apenas crianças são capazes. Sentir a vida com pureza e encarar tudo de uma forma singela é experiência genuinamente infantil e que em alguma proporção se leva para a vida adulta; uns mais e outros menos. Mergulhar nesse passado pode ser desafiador e muitas vezes frustrante, já que para a maioria dos adultos o distanciamento daquele ser que foi na infância é quase abissal.

Vários aspectos de sua vida foram planejados quando brincar era sua única obrigação. É comum, por exemplo, se falar no que vai seguir profissionalmente quando crescer. Obviamente muita coisa é surreal, absolutamente fora da realidade e por tanto não factível. Outras coisas até são possíveis, mas olhando um pouco mais friamente percebe-se estar aquém do que seria uma ambição mínima para o futuro. O restante, em menor número, fica para aqueles que desde pequeninho já apontava para o que seguiria e vai em frente, graças às circunstâncias, estilo de vida da família e apoio dos pais. Questões menos palpáveis que a profissão, porém não menos importantes também vão se perdendo no caminho. O amor incondicional pelos pais provavelmente sobreviveu, contudo quando foi que você deixou de dar o beijo mais melado e o abraço mais quente que podia existir? Deve ter sido na mesma época em que descobriu que sua mãe não era a única mulher no mundo e seu pai não era um super-herói de verdade. Aquele jeito que só na infância você resolvia os conflitos com os amiguinhos, com generosidade, sem interesses escusos, onde ficou? A crença indelével de que podia fazer diferença no mundo sumiu sem que ao menos se desse conta. Envolver-se com pessoas e situações de corpo e alma, sem reservas deixou de ser uma atitude usual? Sorrir francamente e nem saber o que são meias palavras há muito tempo passou a caso raro em sua correria diária.

Com tanta gente grande se identificando com perdas como essas é impossível não se imaginar que esse seja o caminho natural, próprio do amadurecimento.  Provavelmente muita mudança na forma de encarar a vida sejam de fato inevitáveis e mesmo necessárias; escolher a profissão com mais frieza, pesando gosto pessoal e retorno financeiro é uma estratégia apropriada para prover seu sustento, encarar que papai e mamãe não sabem tudo é um rito de passagem, ter uma certa malícia na hora de resolver conflitos é uma questão até de sobrevivência, envolver-se abertamente com tudo e com todos muitas vezes é uma maneira de se tornar vulnerável num mundo que lhe exige força e postura, e ponderar o que diz, dosar as palavras é importante em muitas situações e socialmente  requerido.

A maturidade vem, de um jeito ou de outro, porém crescer não pode significar perder sua essência, não significa que vá se perder o genuíno comprometimento com aquilo em que você acredita. Aninhar-se no colo dos pais sempre será um refúgio que traduz o poder e a importância desta relação que foi a primeira experimentada na vida. E de alguma maneira sua mãe é única e seu pai sempre tem uma porção herói. Mais que tudo, não perder de vista que ainda se pode mudar o mundo, sempre, com cada atitude no seu dia-a-dia e principalmente na maneira que apresenta a vida às novas gerações. Talvez perceba que precisa se reconciliar consigo mesmo, transformar o olhar para a criança que você foi num momento tranquilo, e isso sim é crescer.


domingo, 25 de novembro de 2012

DORES E DELÍCIAS


Lá vem ela de novo. Essa multimulher não para nem por um segundo, até seu sono é produtivo ( e ai dele se não for!). Mas como falar de dores e delícias sem falar da multimulher, o protótipo da ambiguidade.  No campo maternidade então, essa assertiva se realiza plenamente.

Ser mãe tem tudo a ver com a letra de Caetano Veloso que diz “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, até porque, com perdão do trocadilho, a maternidade tem seu dom de iludir, e também por isso é uma aventura maravilhosa.

A gestação, à parte a possibilidade dos enjôos, mal estar e repouso forçado para algumas, é uma ilusão fantástica. Está ali o pequenino ser no ventre, podendo ser levado a qualquer lugar, obediente e sob controle. A áurea sublime que cerca esse momento parece ser uma trégua providencial para o dia em que seu bebê vem ao mundo se seu peito racha, sua bexiga dói e seus olhos pesam. Até você, que nunca curtiu uma rave vai curtir a noitada e vai entrar em alfa ao trocar olhares com aquela pessoinha na madrugada. (Parênteses para alerta: depois das primeiras noites, já estabelecida a relação, opte por não estabelecer contato visual, não acenda luzes e faça o mínimo barulho possível; verá que é mais fácil fazer o rebento dormir novamente). Ainda assim, sentir-se realizada é a tônica.

Com crianças pequenas o trabalho braçal é enorme, muitas vezes parece se estar correndo num carrossel de hamster; não há como descer. E é mesmo um processo que se autoalimenta; acorda, dá comida, dá banho, brinca, se suja dá mais banho, mais comida, brinca, se suja... não sem um beijinho gostoso com a sinceridade que só criança tem, um abraço com aquela mão de chocolate e aquela exclusiva troca de olhar. E nas noites febris vem tanto aperto no coração (mesmo que você chega médica, e pediatra; esta ainda pior pela quantidade de possibilidades diagnósticas que lhe vem à cabeça), trocaria de lugar facilmente e faria qualquer coisa para devolver-lhe o bem-estar. Felizmente há a incrível capacidade de recuperação das crianças, e com ela o retorno da tranquilidade. Quem sempre foi cheia de nove horas para tudo, agora põe a mão em cocô, xixi e toda sorte de secreções sem cerimônia. E está tudo certo!
           
Para as mães dos maiores entra em cena mais uma tarefa, a de motorista. É um tal de leva para a escola, da escola para a natação, daí para o balé e depois ainda tem a aula de inglês, de robótica, de judô, e um sem número de coisas que esses pequenos executivos fazem nos dias de hoje. A multimulher supira cansada, a esta altura já não se culpa por querer dar uma parada de vez em quando, mas a cumplicidade continua, e se sente a alegria da missão sendo cumprida e ver que contribui para entregar ao mundo um ser humano valoroso.

A vida segue, e provavelmente algum dia a angústia do ninho vazio vai passar por aquela mulher, contudo a sua essência multi-interessada a fará ter outros focos para colocar sua energia, embora sempre exercendo a maternidade, ainda que posicionada de uma outra forma. Tudo porque aquela primeira troca de olhar simboliza um laço absolutamente insolúvel e faz parte das delícias da maternidade, que estão acima de todas as dores. 


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A MULTIMULHER, O CASAMENTO E A PANELA DE PRESSÃO



Com a correria do dia-a-dia é comum não encontrar tempo para se reunir com os amigos. Aquela saída divertida longe das preocupações domésticas é sempre bemvinda e saudável. Ela fortalece os laços de amizade, relaxa das tensões do cotidiano, além de servir para enriquecer as relações dos casais, uma vez que possibilita ter novidades para contar, manter-se vivo e interessante para o outro.

A individualidade é fator importante no casamento. Por mais que se viva em completa harmonia, a simbiose não pode ser tal que anule os anseios e as percepções de cada um. Estar bem consigo mesmo, emitir suas próprias opiniões e manter seus próprios interesses é o que faz o ser humano sentir-se pleno. Um estudo sobre terapia familiar intitulado “O difícil convívio da individualidade com a conjugalidade”, da professora da PUC-RJ Terezinha Féres-Carneiro, aponta bem o que a questão envolve. O título já é bastante esclarecedor, mostrando que de fato a dualidade vivida pelos pares num casamento é delicada e alcançar uma harmonia não é fácil, até porque, à primeira vista parecem excludentes. A pesquisa afirma que na lógica do matrimônio um e um são três – dois sujeitos (duas percepções de mundo) geram uma identidade conjugal, um projeto de vida. Criar este modelo único pressupõe espaço para cada personalidade expressar o que sente. E é neste ponto com muitos relacionamentos engasgam, o que cedo ou tarde traz cobranças mútuas, arestas que se não forem aparadas determinaram o fim.

Manter vivo esse espaço de manifestação das personalidades num casal é um trabalho de formiguinha, uma construção diária que demanda atenção. Um dos pilares desta construção é estar com os amigos (os seus, os meus e os nossos), o que promove equilíbrio emocional para o casal. Ter privacidade com os amigos, falar bobagem, ser confidente de alguém e trocar experiências ajuda no crescimento pessoal e é muito importante, principalmente se imaginarmos que a maioria das amizades duram mais que os casamentos. Cultivar as amizades auxilia a quebrar a rotina e a falta de assunto que muitas vezes mina os relacionamentos. O casal que decide se fechar corre o risco de em algum momento implodir. É como uma panela de pressão; necessita de uma válvula de escape para respirar e ser aquela pessoa pela qual valeu a pena a conquista. As mulheres historicamente reconheceram esta necessidade mais tardiamente que os homens – o futebol com os amigos é um costumaz vilão nas batalhas domésticas. Toda multimulher, mesmo que no campo das idéias, trava um equivalente, mas sua característica primordial é se moldar à tal multiplicidade de papéis. Com o tempo ela foi conquistando um espaço na sociedade, e consequentemente no casamento, que propõe uma relação mais equânime, onde suas realizações pessoais e seu sucesso profissional também têm importância. Esta nova conformação ratifica que há vida fora do casamento e faz com que as pessoas fiquem juntas cada vez mais pelo prazer dessa troca. Ter seu “clube da Luluzinha” é ótimo, faz voltar para casa cheia de energia e disposição, te põe em movimento. No final é tão enriquecedor pessoalmente que reflete de forma positiva na qualidade e longevidade conjugal.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

REPONDO AS PENAS DO ANTIGO COCAR


Não se conta a história do Brasil sem que se fale dos índios que aqui já viviam antes de qualquer linha ser escrita. Diversas tribos que cultivavam seu alimento, passavam sua cultura de geração em geração e cultuavam seus deuses. A chegada de outros povos a esta terra rechaçou os índios, que não se adaptaram ao aculturamento promovido pelos europeus, e foram cada vez mais adentrando o continente. Com o tempo populações indígenas inteiras foram dizimadas na busca por terras de colonos, seguidos de garimpeiros e grileiros.

Oportuno lembrar a riqueza desta cultura, tantas línguas, hábitos e costumes diferentes do que conhecemos. São várias etnias, Carajás, Caiapós, Guaranis, Ianomamis e Tupis. Precisaram se adequar, de forma que grande parte deles acabou com as crenças esfaceladas e invadidas. Os que resistem passaram a ter que confrontar o cotidiano nas aldeias com a incersão social dos seus povos nas cidades com predomínio dos não-indígenas. Para esta resistência é fundamental preservar suas tradições, suas músicas e instrumentos musicais e seua rituais. Nestas aldeias o Pajé ainda é sábio e uma espécie de sacerdote, os alimentos são cultivados de forma artesanal e a relação com a natureza é mais harmônica. Tudo isso fica sob ameaça por interação com a sociedade em torno. Daquilo que foram há séculos, restam pouco mais de 220 sociedades indígenas pelo país.

Apesar desta realidade ser absolutamente pública, de séculos mais tarde existir uma unificação da miscigenada população brasileira e da Constituição datada de 1988 reconhecer direitos específicos dos povos indígenas, ainda se vê cenário semelhante. Ao longo do tempo tais terras, predominantemente nos estados do Amazonas e Mato Grosso do Sul, transformaram-se em grandes latifúndios, nas mãos de agricultores produtivos, o que é considerado importante para o desenvolvimento dessas regiões. O reconhecimento da propriedade ancestral destas terras se esbarra num conflito de difícil solução. Ir de encontro aos que detém o poder econômico não tem sido a tônica dos sucessivos governos, e enquanto não houver este enfrentamento os conflitos continuarão, cada vez mais sangrentos, com a derrota óbvia dos mais desprotegidos. E com uma derrota mais sutil, a do povo brasileiro por perder mais um pedaço de sua identidade.

Episódios recentes deram nova força à vozes indígenas, com a decisão da Justiça Federal em que os índios Guarani-kaiowá poderão permanecer na área ocupada pela Fazenda Cambará, no Mato Grosso do Sul. Reacendeu-se a discussão após apelo de grupos indígenas que diziam preferir ser mortos do que sair da terra tradicionalmente ocupada por seu povo, até porque a decisão da justiça é temporária, mantendo-os em apenas um hectare de terra, metade do que ocupavam anteriormente, enquanto não se define a legalidade da ocupação do local.  Não deixa de ser um tipo de preconceito racial sim imaginar que a cultura indígena deva ser esquecida pelos índios em nome de adotar um estilo de vida mais cosmopolita. Este tipo de pensamento já foi chamado de etnocídio, e o que é pior, feito de forma absurdamente compulsória. A luta é antiga e ganha novo fôlego em direção à necessidade de demarcação das terras com brevidade. Como envolve muitos interesses e de grandes produtores, é preciso um pacto da sociedade, como disse a atual presidente da Funai. Não basta vir uma decisão vertical, é necessário mobilizar dinheiro para retomar propriedades, é preciso que as partes tenham um entendimento de que são sacrifícios em prol da reparação e resgate desta parte de nossa história. É como pintar a cara e partir para a luta, repor as penas de um antigo cocar.

domingo, 28 de outubro de 2012

PAIXÃO OU RAZÃO




Esta não é apenas uma história de amor. Na verdade é uma história de paixão. É sobre o momento em que uma decisão importante está para ser tomada e talvez por isso não devesse se basear na paixão, mas se pronuncie quem for capaz de controlá-la. Na verdade é uma história de razão, mas o que dizer sobre as razões que a própria razão desconhece?

Sob a ótica da paixão as questões ganham dimensões muitas vezes distantes da realidade, tomam um cunho obviamente pessoal. Deixa-se de lado justificativas plausíveis, não precisa ter razão de ser, carece deliberadamente de fundamentação. Visto assim soa inconsequente, contudo escolhas decisivas são feitas assim todos os dias, e não necessariamente leva ao erro. Pode ser o que origina o passo mais acertado de sua vida, pode ser a fonte inspiradora para todas as suas conquistas, sua receita de sucesso. Hoje pode ser um desses dias.

Há, por outro lado, a racionalidade pura, a objetividade, que poderá lhe dar dados probabilísticos em direção ao acerto. Mesmo que não represente cem por cento de certeza, para alguns representa segurança. Estar embasado, fundamentado em fatos reais, buscando conhecer o modus operandi dos atores envolvidos em dada situação, sua trajetória trás a sensação de se estar tomando a decisão correta. Algumas situações certamente exigem tal estratégia. Hoje pode ser um desses dias.

O grande acerto num dia como esses, em que se degladiam paixão e razão, é ter sabedoria para distinguir se é hora de usar uma coisa ou outra. Mais ainda quando estamos um por todos e todos por um, com o gesto de um afetando a vida do outro. Não se espante; num dia como esses ambas podem ter seu lugar, e tudo pode se apresentar de forma suficientemente confusa a ponto de você sequer perceber. Então encare o momento de frente, tome as rédeas e decida o que só cabe a você. Ao final de tudo busque a serenidade, não apenas para aceitar os resultados, mas para ser agente de uma possível mudança se julgar necessário, de forma lúcida e coerente. Até porque outros dias como este chegam de tempos em tempos, e sem dúvida você vai querer fazer o melhor, com paixão ou com razão.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A MORTE DA DIALÉTICA



“Toda unanimidade é burra”. A frase atribuída a Nélson Rodrigues expressa o quanto a dialética é importante para o enriquecimento humano. Manter viva a discussão no sentido de  fazer refletir é fundamental para mover o pensamento adiante.

A presença da dialética supõe confronto de idéias, não necessariamente o conflito. Requer respeito e serenidade para que ter diante de si o outro lado da moeda suscite a busca pelo denominador comum, e não simplesmente dominar. Não por acaso, os opostos se atraem a fim de se complementarem. Discordar é bom e é saudável, desde que seja privilegiada a tolerância. Quando a dialética morre, o discurso se torna vazio, mera retórica, e que não leva a lugar algum.

Nos dias atuais o antagonismo das idéias muitas vezes parece pálido; criaram-se diversas ditaduras de comportamento e padrões a que todos devem seguir. Quem pensa fora da caixinha é tido como inadequado. Casos de bulimia e anorexia têm como origem a necessidade extremada de se encaixar em dado estereótipo. E as pessoas que vivem marginalizadas por terem um estilo de vida que se distancia de um status pré-determinado. Assim acontece no campo político, quando adversários limitam-se à agressão mútua e a apontar os erros do outro, esquecendo-se do foco da disputa. Pouco adianta levantar os problemas sem pensar para eles soluções e viabilizá-las. Aqui cabe perfeitamente aprender a ouvir e pensar na contribuição que cada um tem a dar.

Em suma, fazer pulsar a dialética é um exercício diário e significa sair da atitude defensiva, pressuposto para viver em harmonia, respeitando as diferenças.

domingo, 7 de outubro de 2012

O SACO DE BESTAGEM DE VANDEU

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Domingo é dia da meninada. A programação vai sendo adaptada ao gostinho dos pequenos e invariavelmente envolve saídas longas. Quem tem filho pequeno sabe que uma mochila é sempre bem vinda, onde se coloca coisas que possivelmente vão usar, mesmo para os maiores, é um lanche, uma água ou uma muda de roupa. Até aí tudo normal. O engraçado hoje foi a interferência das estrelinhas na arrumação da tal mochila (coisa que vem se tornando bastante comum) – é tanta buginganga que acham importante levar, inclusive todas com justificativas extensamente balisadas, seja a cabeça decepada de uma boneca velha ou uma toalhinha rasgada deixada de lado, passando por um bloquinho de papel e um lápis sob o disfarce de diário a título de se escrever as aventuras que acontecerem no passeio. E nessa hora algumas coisas vêm à mente: o peso da mochila, toda hora ter que abrir a mochila, por consequência ter que fechar a mochila, derrubar um monte de coisa no abre-fecha da mochila e torcer para não esquecer a bendita mochila. Fez lembrar  O SACO DE BESTAGEM DE VANDEU (assim mesmo com letras maiúsculas dada a entidade de que se tratava).

O tal saco (saco mesmo!) era emblemático, inseparável de seu dono e parecia ter vida própria. Parecia ser uma espécie de alterego e às vezes é possível que chegassem a dialogar entre si, dono e objeto. Simbiose como esta suscitava fantasias a cerca do que haveria dentro dele, ainda mais para quem, puxando agora da memória, nunca vira o conteúdo do saco. O episódio de hoje revirou-o e viu tanta coisa lá dentro, afinal que lógica pode ter a fantasia? E não é que viu que levava também seu caderninho para anotar as aventuras do dia, que não eram poucas,  e as tiradas impagáveis, contar do amor que tinha pela família, do quanto sabia curtir a vida, explicar a diferença entre pôde e podre, além de ensinar a encarar o mundo com o mais genuíno bom humor.

Sendo assim, deixa as pequenas colocarem o que quiserem na mochila, aliás cada uma com a sua, um território particular onde tudo é possível, criando seu próprio saco de bestagens onde poderá brotar livremente suas fantasias de criança e um dia poder ser uma deliciosa lembrança.

sábado, 29 de setembro de 2012

ANATOMIA DA PELE



Há oito anos conversava com uma pessoa muito querida, inteligente e bem informada sobre Ações Afirmativas. Fiquei espantada pois meu interlocutor nunca sequer ouvira sobre o assunto. Aquilo me deu a medida do quanto se precisava discutir sobre racismo em nosso país – alguém instruído, formador de opinião estava à margem daquela discussão. De lá para cá muita coisa mudou, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (criada em 2003) tomou corpo e hoje tem status de Ministério, atores negros protagonizando novelas não é mais novidade, História Afro-brasileira é realidade nas escolas e um indígena consegue espaço na TV falando seu próprio dialeto. Por outro lado não é difícil perceber que muito ainda há para fazer. Existe toda uma geração que de uma forma ou de outra traz encrustrado no subconsciente noções segregacionistas, e esta geração vem criando seus filhos com um discurso “politicamente correto”, porém chama o vizinho negro de macaco na primeira oportunidade, diz que fulano tem o cabelo ruim ou mesmo se diz moreno quando questionado sobre sua cor. Ainda hoje se dizima nações indígenas em total desrespeito à sua cultura. Estatísticas oficiais dão conta de que um bebê negro tem 25% mais chance de morrer no primeiro ano de vida comparada a um bebê branco, o que é ainda pior para uma criança indígena (50%). Se despir de tudo isso é mesmo difícil, ainda mais num pais que vende uma imagem mundo afora de ser multirracial e conviver bem. O mundo também vem trilhando esses novos caminhos, contudo há uma longa estrada pela frente. Concluo que o foco de atenção agora tem que ser nossas crianças – é preciso falar no assunto abertamente, colocar o dedo na ferida. Quanto mais se discute, quanto mais se divulga, mais se torna robusta a argumentação. E quando se trata de criação, seja qual for o assunto, permanece verdadeira a máxima de que um exemplo vale mais que palavras.

Com este pensamento, o UNICEF vem divulgando uma campanha intitulada “Por uma infância sem racismo”, que visa alertar a sociedade sobre os impactos do racismo na infância e na adolescência e da necessidade de uma mobilização social para assegurar o respeito desde a infância. Existem várias peças da campanha vinculadas na mídia, algumas já receberam prêmios pela iniciativa. Um conteúdo que é bem esclarecedor está sob o tópico “Dez maneiras de contribuir para uma infância sem racismo”, que reproduzo a seguir (fonte:  http://www.unicef.org/brazil/pt/multimedia_19297.htm):

1.Eduque as crianças para o respeito à diferença. Ela está nos tipos de brinquedos, nas línguas faladas, nos vários costumes entre os amigos e pessoas de diferentes culturas, raças e etnias. As diferenças enriquecem nosso conhecimento.

2.Textos, histórias, olhares, piadas e expressões podem ser estigmatizantes com outras crianças, culturas e tradições. Indigne-se e esteja alerta se isso acontecer – contextualize e sensibilize!

3.Não classifique o outro pela cor da pele; o essencial você ainda não viu. Lembre-se: racismo é crime.

4.Se seu filho ou filha foi discriminado, abrace-o, apoie-o. Mostre-lhe que a diferença entre as pessoas é legal e que cada um pode usufruir de seus direitos igualmente. Toda criança tem o direito de crescer sem ser discriminada.

5.Não deixe de denunciar. Em todos os casos de discriminação, você deve buscar defesa no conselho tutelar, nas ouvidorias dos serviços públicos, na OAB e nas delegacias de proteção à infância e adolescência. A discriminação é uma violação de direitos.

6.Proporcione e estimule a convivência de crianças de diferentes raças e etnias nas brincadeiras, nas salas de aula, em casa ou em qualquer outro lugar.

7.Valorize e incentive o comportamento respeitoso e sem preconceito em relação à diversidade étnico-racial.

8.Muitas empresas estão revendo sua política de seleção e de pessoal com base na multiculturalidade e na igualdade racial. Procure saber se o local onde você trabalha participa também dessa agenda. Se não, fale disso com seus colegas e supervisores.

9.Órgãos públicos de saúde e de assistência social estão trabalhando com rotinas de atendimento sem discriminação para famílias indígenas e negras. Você pode cobrar essa postura dos serviços de saúde e sociais da sua cidade. Valorize as iniciativas nesse sentido.

10.As escolas são grandes espaços de aprendizagem. Em muitas, as crianças e os adolescentes estão aprendendo sobre a história e a cultura dos povos indígenas e da população negra; e como enfrentar o racismo. Ajude a escola de seus filhos a também adotar essa postura.

Mesmo sendo um problema invisível para muitos, como disse o ator Lázaro Ramos em sua mensagem para a campanha, é muito real para quem sofre literalmente na pele. Se o ponto de vista filosófico não for suficiente, encare a questão do ponto de vista biológico - a pele das pessoas é igual, uma mesma anatomia e até mesmo igual quantidade de melanócitos (diferença de cor se dá pela quantidade de melanina produzida por eles). No final a questão é um problema de todos, e pondo em prática pequenas ações será fomentada uma nova ordem em que as diferenças serão tratadas com respeito.








sábado, 22 de setembro de 2012

PAUSA PARA LAMBER A CRIA




Costuma-se dizer que quando nasce uma criança, nasce uma mãe. No primeiro filho esta é uma verdade acachapante, com todas as coisas absolutamente novas a se aprender, sensações jamais vividas antes e uma gama enorme de situações cotidianas que precisam ser administradas. Para os filhos que vêm depois também se muda muito, se é uma nova mãe, lidando por um lado com situações já conhecidas, mas por outro experimentando novos desafios. O nascimento de um filho representa uma maravilhosa onda de emoções que mais se assemelha a um tsunami. E é em meio a tudo isto que decisões importantes precisam ser tomadas.

Nos dias atuais as mulheres conquistaram a possibilidade de optar por ter ou não sua prole, quando e como. Multimulheres que são, encaixam no seu vasto rol de tarefas aquela que certamente é a maior de todas: a maternidade. E por ironia do destino, ou equívoco ingênuo, essa mulher multiinteressada é tomada pelo papel capaz de consumir todos os outros, literalmente, e o que era mais uma função, passa a ser a paixão preponderante. É natural não querer se afastar da cria, sendo comum a sensação de que o período de afastamento do trabalho é insuficiente. Por conta disto muitas mulheres decidem parar de trabalhar quando decidem ser mãe. Tomar esta importante decisão requer planejamento exaustivo e extrema convicção do que se quer.

A dedicação exclusiva aos filhos é muito recompensadora e  indubitavelmente gera uma sensação de dever cumprido, além de facilitar o fortalecimento dos laços familiares. Do ponto de vista prático também é interessante, pois com esse tempo é possível conhecer e interferir mais na rotina das crianças. Mães que optam por este período de afastamento também vivenciam melhor as transformações físicas do puerpério. Aproveitar a parada para ter mais filhos pode ser uma opção, e só retomar as atividades depois de um tempo maior. Mulheres que seguem nesta direção podem se considerar privilegiadas, e verdade seja dita, poucas têm condições financeiras para tal, sem falar que o trabalho em si pode lhe fazer falta.

Em geral essa saída do mercado de trabalho é programada para ser temporária, contudo por vezes este período se estende além do que se imaginou inicialmente, quer por dificuldade de saber a hora certa, quer por percalços na reinserção funcional. De qualquer modo, voltar a trabalhar depois de alguns anos pode ser bastante difícil, e este caminho íngreme precisa ser trilhado com muita consciência. Se aquele planejamento lá atrás tiver sido bem dimensionado, o afastamento poderá ser o ideal para cada uma e o retorno ao trabalho mais facilitado. Mulheres que perdem o tempo de retorno frequentemente se deparam com uma questão até cruel; descobrem-se defasadas para a função que costumava ocupar. Afastamentos mais curtos, por um a dois anos, tendem a ser mais seguros em relação a isto. Dar uma pausa na carreira até os filhos crescerem pode ser mais complicado no que diz respeito ao retorno. É importante pensar no futuro, lembrar de que os filhos crescerão e essa mãe exclusivamente dedicada à família poderá experimentar uma sensação de vazio muito grande. O casamento, por sua vez, fica vulnerável em certa medida e é imprescindível contar com o apoio do parceiro nesta empreitada.

Seja qual for a decisão tomada, depende de cada uma, das expectativas que tenha em relação à vida e ao trabalho, das questões econômicas, enfim, do modus operandi de cada arranjo familiar. Não há regras. O fundamental é estar bem consigo mesma.


domingo, 9 de setembro de 2012

FINITA PAIXÃO?



Tentando definir o que é paixão. Um sentimento que se alimenta de fogo, velocidade e adrenalina; aquela loucura e vontade de estar junto, aquele friozinho na barriga que antecede cada encontro; um nó na garganta, a dúvida, o sobressalto quando o telefone toca; sensação de jovialidade, mas que isso, de que se está vivo. Pena que a ciência já bateu o martelo: a paixão acaba. Postulam inclusive que ela dura em média dois anos. Se fôssemos escolher ela duraria para sempre, mesmo sabendo que para tanto se despende uma enorme quantidade de energia e que custa atenção que é sonegada a várias outras áreas de sua vida; pouco importa, quem mergulha nesta aventura o faz feliz.

Uma criatura apaixonada é capaz de quase tudo, vive no verdadeiro éden, rindo à toa. O mundo ganha um colorido diferente e a sensação de bem estar se espalha de maneira avassaladora. Algo assim, tão insidioso, soa tão fantástico que é sempre alvo de diversos ensaios, sejam artísticos ou científicos. Na arte a paixão se espalha por toda parte; músicas de corações dilacerados, filmes arrebatadores e crônicas acachapantes. Aliás toda paixão é embalada por uma bela e envolvente canção. Aos cientistas, desde a neurociências até a psicologia, coube, como vício de função, justificá-la (ainda que no capítulo destinado à conclusão só lhes reste estabelecer que não é preciso justificar a paixão). Neste campo uma característica da paixão já foi destacada – seu poder analgésico. Isso mesmo! Um estudo americano revela que as experiências de dor física são minimizadas pela paixão, aparentemente por ativar neuroreceptores idênticos aos ativados pelos fármacos.

Muito já se falou sobre a diferença entre paixão e amor, a primeira tachada como efêmera e inconsequente, turbulenta como uma montanha russa; já o amor significa navegar em águas calmas e longevas. Tais adjetivos soam por vezes pejorativos, contudo fato é que todo mundo quer viver uma paixão. E olhando com intimidade a questão, paixão e amor estão mais para metades indivisíveis de um único sentimento do que opositores ferozes. Mais provável que sejam espectro de um mesmo estado patológico do qual não se deseja curar jamais.

Para felicidade geral (e quem sabe até consolo), aquela sentença de finitude da paixão já foi contestada – cientistas da Universidade Stony Brooks em Nova York analisaram a atividade cerebral de casais que estão juntos há muito tempo e descobriram que 10% deles mantém as mesmas reações químicas que casais em início de romance. Não se sabe que fatores influenciam nisto, mas as descobertas indicam que alguns “elementos da paixão amadurecem, permitindo que alguns casais consigam desfrutá-los por longo tempo”. Cabe a cada um tecer os meios de manter a chama sempre acesa, e aqui permitam mais uma vez citar o poetinha: “que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. Seja qual for o embasamento, científico ou não, é bastante saber que em se tratando do coração (e da mente) tudo é possível.

domingo, 2 de setembro de 2012

TEMPO, TEMPO, TEMPO, TEMPO!

Alice no País das Maravilhas


A frase atribuída a Einstein diz que “falta de tempo é desculpa dos que perdem tempo por falta de método”. Para a esmagadora maioria das pessoas isto é uma verdade impossível de se reverter uma vez que esta desculpa se repete milhares de vezes. E a sensação que se tem é que se trata de um mal dos dias atuais, que se reflete principalmente nas relações interpessoais. É um tipo de delírio que não raro se tenta manter para não ter que abalar o comodismo e sair do status quo vigente. A busca por sair deste ciclo que se retroalimenta passa por reconhecer a falta de método e a primeira atitude para chegar lá é parar de dizer que não tem tempo (se de fato não resolve, já é uma assertiva que subliminarmente começa a promover a mudança).

Uma coisa que frequentemente escapa aos olhos é a existência de verdadeiros ladrões de horas. São aquelas coisas que vão tomando tempo, em geral desapercebidamente justamente por parecerem rápidas. Exemplo disto é o tempo que se desperdiça navegando a esmo pela internet ou refazendo coisas que se fez sem concentração. São todas tarefas infrutíferas que se impõem pela falta de objetividade e foco, pois a mesma tecnologia que ora se mostra vilã, se utilizada de maneira criteriosa é extremamente benéfica. Para manter a objetividade no cotidiano é preciso planejamento, o que não significa criar uma rotina engessada (até porque, imprevistos acontecem). Pelo contrário, é uma forma de encaixar todas as coisas que se deseja realizar, priorizando interesses dos mais diversos, desde aquele telefonema que se quer dar a uma amiga com quem há muito não se fala. Fazer uma agenda é um caminho. Com ela é possível programar-se com antecedência, inclusive para ter um tempo livre.

E por falar em tempo livre, este muitas vezes pode ser responsável por uma culpa imensa. Não é raro encontrar pessoas que quando não estão fazendo nada sentem-se meio estranhas. Este tipo de culpa tem que ser jogada pela janela, mesmo pelo mais ferrenho workaholic. Ter o tempo para o ócio é, ao contrário do que possa insinuar, é altamente produtivo. Sem contar que descanso e lazer são indispensáveis para o bem estar de qualquer pessoa. Ignorar estas necessidades chega a ser uma espécie de auto-sabotagem; ter momentos dedicados a si mesmo faz uma diferença brutal no equilíbrio das tensões.

Não saber gerenciar seu próprio tempo reflete de forma desastrosa na qualidade de vida do indivíduo. No livro “Comportamento Organizacional: Criando Vantagem Competitiva”, os autores discutem o fator tempo como algo  decisivo na vida moderna e categorizam seu uso de maneira interessante que vale para reflexão – “o tempo apressado e a vida saturada”, “o tempo fragmentado e a vida superficial”, “o tempo sincronizado e a vida amarrada”, “o tempo repartido e avida quebrada” e “o tempo, o consumo e a vida vazia”. Ou seja, dependendo de como se lida com o tempo em sua vida, esta sofrerá determinado tipo de consequência. Tornar-se vítima do tempo, sem respeito às suas prioridades e ao que verdadeiramente importa, lhe fará viver no automático e de modo superficial, em rota diametralmente oposta a uma vida plena e feliz.

Por tudo isso, vê-se que o tempo é um bem precioso e como tal precisa ser cuidado. Não se deve permitir que ele seja um opressor; pelo contrário deve trabalhar a favor, tendo sempre em mente sua completa relatividade.


domingo, 19 de agosto de 2012

A QUESTÃO DA PROGÊNIE


A medicina veterinária, em seu ramo da reprodução animal, trabalha com touros, grandes doadores de sêmen do gado de elite e fêmeas receptoras. São muitas as variáveis para se designar um animal como bom reprodutor e em geral isto só é sabido quando ele já está mais velho e as gerações de seus descendentes já foram avaliadas. Se este tipo de análise fosse extrapolado para a medicina humana seria ainda maior o número de variáveis estudadas e muito mais tempo para se ter gerações completas. Devaneios à parte, tentando fugir de um “admirável mundo novo”, transmitir características para a prole é certo tanto para homens quanto para touros. O que define o bom reprodutor? Para a reprodução animal é aquele que transmite para os filhos suas melhores características. Mesmo os estudos de melhoramento animal se valem da genética quantitativa, em que o fenótipo é resultado do seu genótipo expresso de acordo com o ambiente em que o indivíduo é exposto. Para humanos, transmitir qualidades psíquicas e físicas é recompensador, se ver num gesto ou numa atitude é motivo de alegria, mas constituir a prole vai além da reprodução, passa principalmente por criá-la.

Existe aquilo que parece ser da natureza da pessoa, o que às vezes se diz ter “puxado” de um dos genitores. Pode-se herdar um talento do pai ou uma habilidade da mãe que vai brotar de forma inata. Tipo de cabelo, cor da pele ou olhos, tudo que acaba por distinguir uma família da outra é importante no reconhecimento do eu, e é relevante retratar estes laços. Nada disso deve ser menosprezado pois tem sua influência no produto final, seja para touros ou para os homens.

Quando se trata de pessoas, aquilo a cerca de valores que é passado é uma preocupação, principalmente porque muita coisa se passa de forma subliminar, com exemplos e com o que sequer foi dito. Apesar de não existirem fórmulas, sempre há o senso comum a nortear nossas condutas. Nesta seara muita coisa ganha peso e é uma responsabilidade gigantesca para qualquer pai. Diferentemente de um touro prestamos conta ao futuro pelo que foi ensinado aos nossos filhos. E parece haver incessantemente uma linha tênue entre o bom e o ruim quando se trata de criar filhos; estimular a autoestima versus superestimar as qualidades, cuidado versus superproteção ou interferência excessiva nos conflitos versus ensinar a se defender. Tudo isso num mundo que continua girando e com isso gerando novos desafios a serem transpostos e novas questões a serem respondidas. As diversas disposições familiares vistas hoje, orientações sexuais mais abertamente seguidas, violência, drogas e sustentabilidade são temas obrigatoriamente presentes no cotidiano atual. Fica a sensação de que educar não é mais tão intuitivo quanto um dia pode ter sido. É preciso basear-se em conceitos nos quais de fato se acredita para poder responder aos inevitáveis questionamentos com coerência. E com o agravante de que não há espaço para experimentações inconsequentes; cada passo tem um resultado. Voltando à analogia com os touros, que bom seria se maior parte disso fosse um natural transmissão de genes, mas neste caso seríamos meramente reprodutores.

Muito do que somos é determinado pela herança genética, contudo o homem permanece produto do seu meio e este ponto nos difere dos ruminantes uma vez que temos a possibilidade de transformar o meio em que vivemos.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

AS FACES DE JORGE

Uol entretenimento


Acho que era sonho. Estava vivendo num mundo fantástico onde tudo parecia possível.

De repente me vi cercada por meninos de rua. Estranhamente não sentia medo – apesar daquele jeito um tanto aterrorizante do grupo, conseguia enxergar algo de inocente e humano naquelas figuras – afinal eram crianças. Pedro Bala, Pirulito, João Grande e Dora aos poucos foram se desvendando à minha frente. Eram fruto de uma sociedade que não sabia o que fazer com seus marginalizados e se tornaram de certa forma heróis a la Robin Hood. No reformatório aprenderam toda sorte de crueldade, mas também aprenderam a cuidar uns dos outros e talvez fosse isso que tornasse possível vê-los como meninos. Através deles pude enxergar o que ia além das paredes do meu apartamento, do quartinho das minhas filhas, da proteção do meu condomínio e dos vidros fechados do meu carro. A desigualdade social era mãe daqueles garotos, e a falta de oportunidades marcou definitivamente seus destinos. Por sorte iriam crescer e cada um tomar seu rumo, bom ou ruim, só o tempo iria dizer.

Continuei como que flutuando, mas tinha certeza que estava na Bahia e eram tempos de cacau quando ouvi pronunciar o nome de um tal Coronel Boaventura. Quem o chamava era um tal Capitão Natário, que vinha chegando com dona Zilda, Bernarda e as crianças. Aquilo me chocou um pouco, mas para os padrões da época e para a região era normal. Ali era comum se amasiar, já que não tinha Igreja nem padre, e esses arranjos de família apareciam aos bocados. Encantador mesmo eram os romances que surgiam em meio a tanta disputa de terra e lei de jagunço. Apesar das inúmeras desgraças que se abateram sobre aquelas terras; enchente, peste e invasão, a força do sertanejo sempre se fazia presente.  

E por falar em força precisei de muita para não cair naquela fofoca. Era domingo de carnaval e morrera um tal Vadinho, rebelde, irreverente e impulsivo, conhecida figura da boemia de Salvador. Dizia-se a boca pequena que sua esposa, Dona Flor, cozinheira de mão cheia, dividiria o velório do defunto com mais um sem número de amantes. A viúva oficial guardou longo luto e aos poucos voltou a se abrir para o mundo. Aí que entra Teodoro, o farmacêutico, exata antítese de Vadinho. Ainda assim contraíram matrimônio, Teodoro e Flor, pouco tempo depois de um casto  noivado. Não há como saber ao certo, mas fato é que Dona Flor passou a ver seu falecido marido e tê-lo no seu leito com Teodoro. No princípio tentou negar e reprimir, mas a coisa tornou-se tão real e irresistível que passaram a manter um casamento a três em perfeito equilíbrio (com a ressalva de que Teodoro nada sabia). Esse sim é um grande exemplo de como as diferenças podem conviver em harmonia, equilibradas por uma mulher.

Aliás, mulher é um bicho esquisito mesmo. De passagem pelo Vesúvio, ouvi por aquelas bandas a história de uma chamada Gabriela. Conta o povo que ela moça simplória e com dotes culinários invejáveis agarrou pelo coração e pelo estômago o sírio (e não turco) Nacib. O problema é que parece que não arrebatou apenas ele, e sim encheu de desejos vários senhores da cidade. O rebuliço que se seguiu na cidade de Ilhéus ressoa até hoje. Ainda mais numa terra em que a honra era lavada com sangue, como se pôde ver nas mortes dos amantes Osmundo e Sinhazinha pelas mãos do Coronel Jesuíno. Terra de mulheres fortes como a impetuosa Malvina ou a voluptuosa Maria Machadão. Terra também de disputas políticas acirradas como as que rivalizavam Ramiro Bastos e Mundinho Falcão. Tudo isso para dizer que mulher é um bicho esquisito mesmo, ou por outra, Gabriela não era mulher de se adaptar a uma vida regrada de mulher casada daquela época. Mesmo cortejada e desposada por Nacib, sucumbiu a sua natureza nos braços de Tonico Bastos. Prova de que não é de hoje que a mulher não toma cabresto.

E outra mulher avessa aos cabrestos apareceu diante de mim. Seu nome era Tieta. Vivera aventuras amorosas na juventude que escandalizaram a pequena Santana do Agreste. Acabou expulsa da cidade por seu pai, Zé Esteves, depois de ser denunciada pela irmã mais velha, a rancorosa Perpétua. Agora voltava para as areias do seu passado, rica e poderosa, causando mais uma vez rebuliço em sua cidade natal. A rotina da cidade foi transformada pela presença de sua ilustre filha, que se tornou benfeitora por sua grande generosidade. Por outro lado voltou a chocar com sua tórrida paixão por Cardo, o sobrinho seminarista. A força do feminino se revela mais uma vez, pois apesar de ser obrigada a deixar a cidade mais uma vez inesperadamente após o segredo de sua vida ser revelado, Santana do agreste jamais seria a mesma.

Eram tantas pessoas de personalidade surpreendente, criaturas com a alma tão rica e tantas histórias para contar; Quincas Berro d’água, Tereza Batista, Pedro Arcanjo, Corró, Paulo Rigger, Pedro Ticiano e tantos tipos que retratam com fidelidade, ainda nos dias de hoje, as várias faces desse nosso Brasil, da miscigenação, do cincretismo religioso, das injustiças sociais e lutas políticas. Então não era um sonho, era na verdade uma viagem na imaginação; estava lendo Jorge Amado, sempre atual, mesmo 100 anos depois de seu nascimento.

domingo, 5 de agosto de 2012

CHÁ DE SOSSEGA LEÃO COM QUIETA O FACHO



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As crianças parecem ter uma energia sem fim. Isto até que é tranquilizador, pois enquanto permanecem em ação imagina-se quer estão bem, afinal qual se não este o motivo para os pediatras sempre perguntarem – ele está ativo? Para acompanhar o ritmo delas é preciso certo esforço físico e invariavelmente se chega ao pico antes mesmo que o pequeno esboce a mínima intenção de parar.  E sempre há aquele dia em que você está a fim de dar uma relaxada, beber um vinhozinho e assistir um bom filme. Quando esse dia começa você, cônscio de seu papel, dedica um tempo às crianças, engendra toda sorte de brincadeiras, corre feito louco, até que aquele dia se transforma numa noite e a galerinha não dá nem um bocejo. E o seu vinho lá te olhando, os queijinhos exalando um delicioso aroma e o tal do filme já na metade. Não! Os “embalos de sábado à noite” não podem se acabar assim!

Começa o cerco. Primeiro a sutileza – pergunta se não quer tirar um soninho, dá um jeito de vestir o pijama e oferece aquele leitinho quente. Nada! É preciso mais ênfase. Amanhã todo mundo que ir à praia? Para tanto vão ter que acordar cedo o que equivale a dizer que terão que dormir cedo, mais precisamente agora! Que hora mais imprópria para o noticiário apresentar a previsão do tempo – fortes pancadas de chuva. E criança se apega a cada detalhe! Hora de mudar a estratégia. Chega, já está na hora de dormir, para o banheiro escovar os dentes e cama!

Depois dessa canseira quem aguenta vinho, queijo ou filminho? A noite relaxante transformou-se numa noite de sono. Pena que ainda não se pode dormir. As crianças foram para a cama, mas não dormiram – é um tal de quero fazer xixi, mais um pouquinho de leite, vamos ler uma história.  Está na hora de ser rígido, não antes daquela vozinha pedir: “dorme comigo?” Ah, pedindo assim, quem aguenta? Deita na mini-cama, se espreme bem, encolhe bastante as pernas e decide que ficar imóvel é a melhor maneira delas finalmente se entregarem aos braços de Morfeu. Apenas não contava com o rolar na cama sem conciliar o sono. Criança sofre de insônia? Who knows?

Agora só restava a arma secreta - inventei um remedinho poderoso - o chá de sossega leão com quieta o facho. Se existisse seria bastante útil, mas a simples menção desse nome tão estranho e tão sugestivo apavorou a pequena audiência. Diante da mínima possibilidade de ter que beber tal iguaria o corre-corre foi grande. Dormir tornou-se excelente refúgio. Também, a aquela altura da madrugada!



quinta-feira, 26 de julho de 2012

A DITADURA DA FELICIDADE



Vinha pensando neste assunto esta semana e fiquei ainda mais interessada quando Pedro Bial anunciou o tema do seu programa (sempre o tive na conta de repórter inteligente, ainda que tenha visto como desvio seu enveredar pelos caminhos do Big Brother). A tal ditadura da felicidade parece de fato existir (um pequena olhada nas redes sociais, por exemplo, cria a ilusão de um mundo perfeito, de pessoas que têm apenas coisas boas a dizer) e me pergunto se ela não é necessária. A angustia, às vezes patológica, que as pessoas desenvolvem ao se verem obrigados a encarar suas tristezas me parece natural. A única questão é que momentos ruins fazem parte da vida e não dá para simplesmente fingir que não existem; muitas vezes representam um rito de passagem e precisam ser vividos em sua plenitude como se numa catarse.

Ditadura significa poder absoluto, despotismo. Qualquer coisa que passe pela tirania já tem motivo para ser rechaçada, portanto levar as pessoas a sufocarem suas tristezas para não as trazerem a público é inaceitável. É preciso ficar o tempo inteiro mostrando uma felicidade como se numa eterna propaganda de margarina? As emoções tidas como negativas também impulsionam o homem - sentir raiva e rebelar-se diante de injustiças já fez grandes revoluõçes.Tem que haver espaço sim para a vida de verdade, para as pessoas de carne e osso. Não bastasse a necessidade visceral de expor algumas feridas, o ser humano ainda é capaz de ter momentos profundamente inspirados quando estão entregues a suas melancolias.

E tem mais – é possível definir o que é felicidade? Como se pode ditar regra sobre algo tão impalpável e relativo? Cada um tem sua própria noção de felicidade e constrói a sua história a seu modo. Aqui não cabem fórmulas ou receitas prontas; é totalmente sem script. Ser feliz pode ser ebulição ou calmaria, euforia ou sossego, agitação ou ócio. Pode estar em realizações pessoais ou profissionais. Pode vir suavemente ou ser fruto de grandes batalhas. Eis o seu elo com a tristeza, como face de uma mesma moeda. Afinal quem poderá dizer reconhecer o paraíso se não faz idéia do que seja o contrário.

Se é para ditar ordens, vamos exercitar a tolerância. Se é para seguir um roteiro, vamos ser mais verdadeiros. No final vale a máxima “viva e deixe viver”... e seja feliz! 

quinta-feira, 19 de julho de 2012


Vinte e cinco anos de idade, mas olhar sincero e o sorriso ingênuo revelam uma criança. De longe fita com cuidado, se a empatia for verdadeira se aproxima, caso contrário repele com fervor desconcertante. Estaria aqui ou em um lugar distante, como que sonhando acordada? Será que enxerga mais do que os simples mortais? Definitivamente há algo de enigmático por trás daquela face por vezes inexpressiva, contudo a poucos é dada a possibilidade de desvendá-lo.


De repente o passado se insinua como se fosse um filme. É possível ver aquela pessoa ao nascer, sua mãe talvez não estivesse preparada, afinal com seu bebê ia ser tudo diferente. Muniu-se da única arma possível; o amor. E juntos percorreram um caminho de muitos obstáculos e desafios, mas também de um aprendizado incomparável. O mundo lhe dizia todo o tempo que aquela pessoa pela qual se desdobrava era diferente. Diferente de quem? Quem é a perfeição de referência? Em princípio até que comprou esta história, mas com o passar dos dias percebeu que sua criança tudo podia dependendo do estímulo que lhe era dado. Tinha seu próprio ritmo, é verdade, mas alcançava seus objetivos a seu modo. Daí em diante nada segurou a dupla. É óbvio que a trajetória vai muito além da dedicação financeira para bancar terapias específicas, muitas vezes tratamentos médicos, exige um comprometimento verdadeiro, mas pensando bem, qual o pai ou mãe não precisa desta intensidade? E foi encarando a situação com naturalidade que toda a família se envolveu na criação daquele membro tão valoroso quanto os outros. Aos que insistem em rotulá-los de diferentes, esta é mais uma família que comprova: pensando bem são diferentes mesmo – diferentes na capacidade de amar sem pedir nada em troca, diferentes na sinceridade em tudo que fazem, diferentes no impacto positivo que geram em seus lares.


Alguns se referem a esta condição como o cromossomo do amor, tamanho o sentimento que aflora de seus portadores e pessoas ao seu redor. A trissomia do cromossomo 21, também conhecida como Síndrome de Down, não escolhe credo, raça ou classe social. Com ela nascem vários níveis de comprometimento físico e mental, os quais com frequência requerem tratamentos específicos. O dia-a-dia da criança portadora é certamente trabalhoso, não muito distinto das outras. Não é fácil de ser encarada, porém é um desafio recompensado diuturnamente. E eles estão por aí crescendo, adolescentes e adultos que vivem como os demais, com dilemas e incertezas. Passados vinte e cinco anos, vê-se o quanto a sociedade mudou, o quanto as questões relacionadas à inclusão são discutidas e de fato se consegue ter uma vida plena nos dias de hoje. Por outro lado vê-se que ainda há muito o que melhorar e o principal está numa mudança genuína de comportamento. Aqueles que têm filhos não portadores da síndrome tem importância enorme nesta questão à medida que ensinam o respeito às diferenças e apoiam estas iniciativas. Ganha todo mundo, pois a convivência com estas crianças abre um mundo de possibilidades. As políticas públicas para o enfrentamento da questão também precisam ser exigidas. Quando de fato abrirem-se os corações e o acolhimento for natural o enigma estará desvendado.

domingo, 8 de julho de 2012

ENQUANTO VOCÊ CRESCIA



Sabe aquilo que todo mundo repete quando se tem filhos pequenos? “Pena que crescem tão rápido!” Ouço muito isto.  Para dizer a verdade o tempo inteiro, e de tanto ouvir, introspectei desde cedo que ia aproveitar cada minutinho com as minhas crias. Esta vem sendo a prioridade número 1; na corrida do trabalho, da vida cotidiana, das incursões artísticas, dos estudos ou do lazer, o foco é nelas. Ainda assim, numa pestanejada rápida abri os olhos e me dei conta do quanto elas cresceram.


Naquela fração de segundo pensei em algo para lhe falar. Precisava desesperadamente lhe contar o que andei fazendo enquanto você crescia. Durante esses anos tentei com afinco lhe mostrar o valor da verdadeira amizade. Esforcei-me para lhe fazer discernir entre o certo e o errado. Trouxe para você a companhia dos livros pensando em lhe abrir os horizontes, e com eles a importância dos estudos para conseguir de fato ser livre. Exercitamos o poder do afago e da gentileza. Constantemente borbulha no meu peito aquelas angústias –“será que estou fazendo certo?”, “será que o resultado vai ser bom?” Na verdade o que queria mesmo era ficar grudada em você o tempo inteiro, mas a razão me impele a lhe dar as ferramentas para um caminho de autonomia e autoconfiança. Queria lhe dizer que em todos os momentos, desde aquele primeiro instante em que trocamos um olhar, desejei sempre, como toda mãe, que você fosse muito feliz. Imaginei formas de fazer isso acontecer, como se estivesse em minhas mãos. Talvez hoje já me sinta bem insegura quanto a possibilidade de tomar as rédeas do seu futuro, mas nunca descerei desse vôo cego de ave-mãe semeando flores em seu caminho. Como se a felicidade fosse um destino de viagem, pus-me a arrumar suas malas. Coloquei nela vários nãos que lhe disse ao longo do tempo para que aprendesse a ter limites; muito sim também porque a vida tem que lhe sorrir; um tanto de fé em Deus para você ter certeza de que nada lhe faltará; retidão de caráter para seguir em frente com integridade; bons exemplos para ter sempre uma referência; respeito ao próximo para buscar viver em harmonia; e claro, enchi todos os cantinhos com o mais genuíno amor que lhe declaro todos os dias. Com isso, apesar de não garantir uma viagem sem turbulências, sei que vai ser capaz de enfrentar qualquer desafio, principalmente o de construir o que você queira chamar felicidade.


E por falar em felicidade, para a minha própria, constato que vi bem o tempo passar, acompanhando de perto cada progresso na vida destas que me são tão caras, fitando com toda força o reloginho da vida na vã esperança de fazê-lo andar mais devagar. Luta inglória, esta! Já que você tem que crescer, quero assistir, não de camarote, pois mãe que é mãe cai na pista.

terça-feira, 26 de junho de 2012

HABILIDADES MANUAIS



Já pensou em fazer algo você mesmo? Colocar as mãos na massa como se diz por aí? Pois é, muita gente diz não possuir habilidades manuais, mas tenho pensado que tudo depende do estímulo.

A psicomotricidade é estudada há muito tempo. Sabe-se que durante o desenvolvimento da criança as habilidades vão sendo adquiridas aos poucos e que a qualidade e velocidade deste aprendizado estão diretamente relacionados aos estímulos externos. No contexto da educação infantil isto está atrelado a oferecer diversidade de experimentações, sejam elas sonoras, táteis ou visuais. Já na escolha do quarto do bebê se pode promover um ambiente enriquecedor, seguindo-se para a escolha dos brinquedos e utensílios. É através da motricidade que a criança descobre o mundo. Alguns autores postulam que a educação psicomotora condiciona o processo de alfabetização pois leva a criança a tomar consciência do seu corpo, da lateralidade, a situar-se no espaço, dominar seu tempo e adquirir coordenação dos seus gestos e movimentos. Para a alfabetização a educação psicomotora é muito importante uma vez que ajuda na concentração e na distinção entre letras e sílabas (Molinari e Sens, 2002).

Ao chegar na vida adulta a maioria de nós desenvolveu o básico, ficando aqueles premiados criativos com uma habilidade manual incrível, capazes de transformar coisas às vezes simples e sem graça em pequenas obras de arte. Estes aí estão no topo da pirâmide, têm o que se costuma chamar de jeito para as coisas. Aos demais não resta apenas o desespero – é possível, com estímulo certo, fazer coisas bacanas. A necessidade também costuma ser um incentivo forte. As mulheres, em especial conseguem adquirir estas habilidades mesmo quando não lhe são inatas, talvez por um pouco mais de paciência e detalhismo do que a maioria dos homens. Outro dia uma amiga disse: "deixa eu ter um filho que vocês vão ver se eu não fao um monte de coisinhas!" Engraçado é que a maternidade é mesmo muito estimulante. São quartinhos decorados com primor, roupinhas originais e toda sorte de badulaques. se for mãe de menina, aí a imaginação corre solta.  Daí a sair inventando convites de aniversário, decorando mesas de guloseimas e criando as mais criativas lembrancinhas é um pulo.

Tudo isso para dizer que não existe ninguém incapaz de realizar. E produzir algo fruto de sua capacidade de criar é uma sensação maravilhosa. Então, mãos à obra! 

domingo, 17 de junho de 2012

SUSTENTABILIDADE – O QUE VOCÊ TEM COM ISSO?


Nesta semana em que ocorre a Rio+20, conferência mundial sobre o meio ambiente, que leva esse nome por seguir o racional da conferência intitulada Eco92 (ocorrida também no Rio de Janeiro há 20 anos), borbulham discussões sobre as questões ambientais e temas correlacionados. Dentre estes, o tema sustentabilidade é sempre recorrente, às vezes parecendo algo bem distante, conversa de ecochato ou ecoxiita, ou até mesmo palavrório governamental sem conteúdo. Deste ponto a questionar o que de fato cada indivíduo tem com isso é um pulo. Talvez esse seja o ponto crucial para toda e qualquer mudança: conhecimento. E o questionamento é de onde se origina todo conhecimento.

O termo sustentabilidade foi alcunhado pela primeira vez em 1987 pela norueguesa Gro Brundtland, e é descrito como “suprir as necessidades do presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprirem as próprias necessidades.” Equivale a dizer que o uso dos recursos naturais para a satisfação de necessidades do presente não pode comprometer as gerações futuras, por isso, mais do que nunca, pensar em sustentabilidade é pensar nos filhos e netos, pois o aumento da população mundial e com ela o consumo exagerado, faz com que efeitos deste mal uso de recursos naturais chega cada vez mais precocemente. E não há como apostar que se trata de falácia. Aos olhos de todos está a escassez de água, os racionamentos de energia elétrica e as mudanças climáticas. A sustentabilidade se faz com três pilares; o social, o ambiental e o econômico, e portanto não adianta pender radicalmente para um deles; é preciso que os três convivam em harmonia e lucrem com as ações para que estas sejam consideradas sustentáveis. Conclui-se então que não se trata de uma guerra entre os setores citados, querer barrar o desenvolvimento das economias mundiais, e sim planejar-se para fazê-lo de maneira a manter o equilíbrio entre as partes.

Vinte anos se passaram e muita coisa não saiu do papel, muito ficou apenas no campo das idéias, mas a mentalidade das pessoas com certeza mudou, e hoje mais e mais cidadãos comuns se preocupam com as questões do meio ambiente em sua vida cotidiana. Ações concretas podem não ter acontecido no volume e velocidade desejados, contudo percebe-se um movimento francamente positivo, a exemplo do Código Florestal brasileiro, que a parte as controvérsias e polêmicas, além do jogo de interesses, revela uma mudança genuína de pensamento. Houve recente campanha que ficou conhecida como “Veta , Dilma!”, para tentar sensibilizar o poder público a vetar questões que foram modificadas na câmara, o que para os militantes ambientalistas viria a favorecer enormemente os latifundiários. Depois de passar pelo gabinete da Presidência da República algumas coisas foram de fato vetadas, não se alcançou a satisfação de todos os segmentos, mas enfim é um documento. Firma compromisso com um tema urgente. O site g1.com.br publicou recentemente diagrama a seguir, bastante esclarecedor do que representa este código florestal e do que foi vetado pela Presidência da República.







Quando se fala no uso dos recursos naturais com responsabilidade refere-se a preservar a biodiversidade e os ecossistemas naturais. Segundo o engenheiro escocês Michael Shaw, “o pico do uso do petróleo está nos levando a uma cultura de sustentabilidade, na energia, na produção de comida, nos transportes e na forma com lidamos com nossos resíduos”. Esta cultura, se introspectada, fará cada indivíduo mudar seu modo de agir, desde dentro dos lares até o consumo consciente, passando por exigir de seus legisladores e governantes tal tipo de compromisso. Atitudes como fechar as torneiras enquanto escova os dentes ou se ensaboa, apagar as luzes dos cômodos que não estão sendo usados, trocar lâmpadas incandescentes por fluorescentes (são um pouco mais caras, mas têm maior durabilidade e economizam até 60 % de energia), verificar o consumo o baixo de energia dos eletrodomésticos, dá destino correto ao lixo, pilhas e baterias de celulares, verificar a procedência daquilo que compra (usar papel reciclado e objetos de madeira de reflorestamento são formas de diminuir a necessidade de extração de recursos naturais) e racionalizar o seu transporte são formas de dar uma contribuição individual ao processo.

Além desse manejo do uso direto dos recursos naturais através da racionalização dos mesmos, há um ponto delicado nos dias de hoje, de consumo desenfreado; o consumo consciente. O Instituto Arayara, que mantém um portal com sugestões para se pensar a sustentabilidade (http://www.sustentabilidade.org.br), destaca importante trecho sobre este tópico -  “a sustentabilidade está relacionada aos modelos dos sistemas de produção e de mercado, que respondem livremente às demandas da sociedade. Havendo procura, haverá oferta. Portanto, as escolhas do consumidor podem definir um caminho na direção de um modelo que devasta o meio ambiente e gera desigualdade social ou de um modelo mais harmônico com as leis da vida. Poucos se dão conta desta relação sistêmica e de sua responsabilidade individual na hora de escolher um produto qualquer”. 

Está respondido o que você tem com isso?