domingo, 28 de outubro de 2012

PAIXÃO OU RAZÃO




Esta não é apenas uma história de amor. Na verdade é uma história de paixão. É sobre o momento em que uma decisão importante está para ser tomada e talvez por isso não devesse se basear na paixão, mas se pronuncie quem for capaz de controlá-la. Na verdade é uma história de razão, mas o que dizer sobre as razões que a própria razão desconhece?

Sob a ótica da paixão as questões ganham dimensões muitas vezes distantes da realidade, tomam um cunho obviamente pessoal. Deixa-se de lado justificativas plausíveis, não precisa ter razão de ser, carece deliberadamente de fundamentação. Visto assim soa inconsequente, contudo escolhas decisivas são feitas assim todos os dias, e não necessariamente leva ao erro. Pode ser o que origina o passo mais acertado de sua vida, pode ser a fonte inspiradora para todas as suas conquistas, sua receita de sucesso. Hoje pode ser um desses dias.

Há, por outro lado, a racionalidade pura, a objetividade, que poderá lhe dar dados probabilísticos em direção ao acerto. Mesmo que não represente cem por cento de certeza, para alguns representa segurança. Estar embasado, fundamentado em fatos reais, buscando conhecer o modus operandi dos atores envolvidos em dada situação, sua trajetória trás a sensação de se estar tomando a decisão correta. Algumas situações certamente exigem tal estratégia. Hoje pode ser um desses dias.

O grande acerto num dia como esses, em que se degladiam paixão e razão, é ter sabedoria para distinguir se é hora de usar uma coisa ou outra. Mais ainda quando estamos um por todos e todos por um, com o gesto de um afetando a vida do outro. Não se espante; num dia como esses ambas podem ter seu lugar, e tudo pode se apresentar de forma suficientemente confusa a ponto de você sequer perceber. Então encare o momento de frente, tome as rédeas e decida o que só cabe a você. Ao final de tudo busque a serenidade, não apenas para aceitar os resultados, mas para ser agente de uma possível mudança se julgar necessário, de forma lúcida e coerente. Até porque outros dias como este chegam de tempos em tempos, e sem dúvida você vai querer fazer o melhor, com paixão ou com razão.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A MORTE DA DIALÉTICA



“Toda unanimidade é burra”. A frase atribuída a Nélson Rodrigues expressa o quanto a dialética é importante para o enriquecimento humano. Manter viva a discussão no sentido de  fazer refletir é fundamental para mover o pensamento adiante.

A presença da dialética supõe confronto de idéias, não necessariamente o conflito. Requer respeito e serenidade para que ter diante de si o outro lado da moeda suscite a busca pelo denominador comum, e não simplesmente dominar. Não por acaso, os opostos se atraem a fim de se complementarem. Discordar é bom e é saudável, desde que seja privilegiada a tolerância. Quando a dialética morre, o discurso se torna vazio, mera retórica, e que não leva a lugar algum.

Nos dias atuais o antagonismo das idéias muitas vezes parece pálido; criaram-se diversas ditaduras de comportamento e padrões a que todos devem seguir. Quem pensa fora da caixinha é tido como inadequado. Casos de bulimia e anorexia têm como origem a necessidade extremada de se encaixar em dado estereótipo. E as pessoas que vivem marginalizadas por terem um estilo de vida que se distancia de um status pré-determinado. Assim acontece no campo político, quando adversários limitam-se à agressão mútua e a apontar os erros do outro, esquecendo-se do foco da disputa. Pouco adianta levantar os problemas sem pensar para eles soluções e viabilizá-las. Aqui cabe perfeitamente aprender a ouvir e pensar na contribuição que cada um tem a dar.

Em suma, fazer pulsar a dialética é um exercício diário e significa sair da atitude defensiva, pressuposto para viver em harmonia, respeitando as diferenças.

domingo, 7 de outubro de 2012

O SACO DE BESTAGEM DE VANDEU

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Domingo é dia da meninada. A programação vai sendo adaptada ao gostinho dos pequenos e invariavelmente envolve saídas longas. Quem tem filho pequeno sabe que uma mochila é sempre bem vinda, onde se coloca coisas que possivelmente vão usar, mesmo para os maiores, é um lanche, uma água ou uma muda de roupa. Até aí tudo normal. O engraçado hoje foi a interferência das estrelinhas na arrumação da tal mochila (coisa que vem se tornando bastante comum) – é tanta buginganga que acham importante levar, inclusive todas com justificativas extensamente balisadas, seja a cabeça decepada de uma boneca velha ou uma toalhinha rasgada deixada de lado, passando por um bloquinho de papel e um lápis sob o disfarce de diário a título de se escrever as aventuras que acontecerem no passeio. E nessa hora algumas coisas vêm à mente: o peso da mochila, toda hora ter que abrir a mochila, por consequência ter que fechar a mochila, derrubar um monte de coisa no abre-fecha da mochila e torcer para não esquecer a bendita mochila. Fez lembrar  O SACO DE BESTAGEM DE VANDEU (assim mesmo com letras maiúsculas dada a entidade de que se tratava).

O tal saco (saco mesmo!) era emblemático, inseparável de seu dono e parecia ter vida própria. Parecia ser uma espécie de alterego e às vezes é possível que chegassem a dialogar entre si, dono e objeto. Simbiose como esta suscitava fantasias a cerca do que haveria dentro dele, ainda mais para quem, puxando agora da memória, nunca vira o conteúdo do saco. O episódio de hoje revirou-o e viu tanta coisa lá dentro, afinal que lógica pode ter a fantasia? E não é que viu que levava também seu caderninho para anotar as aventuras do dia, que não eram poucas,  e as tiradas impagáveis, contar do amor que tinha pela família, do quanto sabia curtir a vida, explicar a diferença entre pôde e podre, além de ensinar a encarar o mundo com o mais genuíno bom humor.

Sendo assim, deixa as pequenas colocarem o que quiserem na mochila, aliás cada uma com a sua, um território particular onde tudo é possível, criando seu próprio saco de bestagens onde poderá brotar livremente suas fantasias de criança e um dia poder ser uma deliciosa lembrança.

sábado, 29 de setembro de 2012

ANATOMIA DA PELE



Há oito anos conversava com uma pessoa muito querida, inteligente e bem informada sobre Ações Afirmativas. Fiquei espantada pois meu interlocutor nunca sequer ouvira sobre o assunto. Aquilo me deu a medida do quanto se precisava discutir sobre racismo em nosso país – alguém instruído, formador de opinião estava à margem daquela discussão. De lá para cá muita coisa mudou, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (criada em 2003) tomou corpo e hoje tem status de Ministério, atores negros protagonizando novelas não é mais novidade, História Afro-brasileira é realidade nas escolas e um indígena consegue espaço na TV falando seu próprio dialeto. Por outro lado não é difícil perceber que muito ainda há para fazer. Existe toda uma geração que de uma forma ou de outra traz encrustrado no subconsciente noções segregacionistas, e esta geração vem criando seus filhos com um discurso “politicamente correto”, porém chama o vizinho negro de macaco na primeira oportunidade, diz que fulano tem o cabelo ruim ou mesmo se diz moreno quando questionado sobre sua cor. Ainda hoje se dizima nações indígenas em total desrespeito à sua cultura. Estatísticas oficiais dão conta de que um bebê negro tem 25% mais chance de morrer no primeiro ano de vida comparada a um bebê branco, o que é ainda pior para uma criança indígena (50%). Se despir de tudo isso é mesmo difícil, ainda mais num pais que vende uma imagem mundo afora de ser multirracial e conviver bem. O mundo também vem trilhando esses novos caminhos, contudo há uma longa estrada pela frente. Concluo que o foco de atenção agora tem que ser nossas crianças – é preciso falar no assunto abertamente, colocar o dedo na ferida. Quanto mais se discute, quanto mais se divulga, mais se torna robusta a argumentação. E quando se trata de criação, seja qual for o assunto, permanece verdadeira a máxima de que um exemplo vale mais que palavras.

Com este pensamento, o UNICEF vem divulgando uma campanha intitulada “Por uma infância sem racismo”, que visa alertar a sociedade sobre os impactos do racismo na infância e na adolescência e da necessidade de uma mobilização social para assegurar o respeito desde a infância. Existem várias peças da campanha vinculadas na mídia, algumas já receberam prêmios pela iniciativa. Um conteúdo que é bem esclarecedor está sob o tópico “Dez maneiras de contribuir para uma infância sem racismo”, que reproduzo a seguir (fonte:  http://www.unicef.org/brazil/pt/multimedia_19297.htm):

1.Eduque as crianças para o respeito à diferença. Ela está nos tipos de brinquedos, nas línguas faladas, nos vários costumes entre os amigos e pessoas de diferentes culturas, raças e etnias. As diferenças enriquecem nosso conhecimento.

2.Textos, histórias, olhares, piadas e expressões podem ser estigmatizantes com outras crianças, culturas e tradições. Indigne-se e esteja alerta se isso acontecer – contextualize e sensibilize!

3.Não classifique o outro pela cor da pele; o essencial você ainda não viu. Lembre-se: racismo é crime.

4.Se seu filho ou filha foi discriminado, abrace-o, apoie-o. Mostre-lhe que a diferença entre as pessoas é legal e que cada um pode usufruir de seus direitos igualmente. Toda criança tem o direito de crescer sem ser discriminada.

5.Não deixe de denunciar. Em todos os casos de discriminação, você deve buscar defesa no conselho tutelar, nas ouvidorias dos serviços públicos, na OAB e nas delegacias de proteção à infância e adolescência. A discriminação é uma violação de direitos.

6.Proporcione e estimule a convivência de crianças de diferentes raças e etnias nas brincadeiras, nas salas de aula, em casa ou em qualquer outro lugar.

7.Valorize e incentive o comportamento respeitoso e sem preconceito em relação à diversidade étnico-racial.

8.Muitas empresas estão revendo sua política de seleção e de pessoal com base na multiculturalidade e na igualdade racial. Procure saber se o local onde você trabalha participa também dessa agenda. Se não, fale disso com seus colegas e supervisores.

9.Órgãos públicos de saúde e de assistência social estão trabalhando com rotinas de atendimento sem discriminação para famílias indígenas e negras. Você pode cobrar essa postura dos serviços de saúde e sociais da sua cidade. Valorize as iniciativas nesse sentido.

10.As escolas são grandes espaços de aprendizagem. Em muitas, as crianças e os adolescentes estão aprendendo sobre a história e a cultura dos povos indígenas e da população negra; e como enfrentar o racismo. Ajude a escola de seus filhos a também adotar essa postura.

Mesmo sendo um problema invisível para muitos, como disse o ator Lázaro Ramos em sua mensagem para a campanha, é muito real para quem sofre literalmente na pele. Se o ponto de vista filosófico não for suficiente, encare a questão do ponto de vista biológico - a pele das pessoas é igual, uma mesma anatomia e até mesmo igual quantidade de melanócitos (diferença de cor se dá pela quantidade de melanina produzida por eles). No final a questão é um problema de todos, e pondo em prática pequenas ações será fomentada uma nova ordem em que as diferenças serão tratadas com respeito.








sábado, 22 de setembro de 2012

PAUSA PARA LAMBER A CRIA




Costuma-se dizer que quando nasce uma criança, nasce uma mãe. No primeiro filho esta é uma verdade acachapante, com todas as coisas absolutamente novas a se aprender, sensações jamais vividas antes e uma gama enorme de situações cotidianas que precisam ser administradas. Para os filhos que vêm depois também se muda muito, se é uma nova mãe, lidando por um lado com situações já conhecidas, mas por outro experimentando novos desafios. O nascimento de um filho representa uma maravilhosa onda de emoções que mais se assemelha a um tsunami. E é em meio a tudo isto que decisões importantes precisam ser tomadas.

Nos dias atuais as mulheres conquistaram a possibilidade de optar por ter ou não sua prole, quando e como. Multimulheres que são, encaixam no seu vasto rol de tarefas aquela que certamente é a maior de todas: a maternidade. E por ironia do destino, ou equívoco ingênuo, essa mulher multiinteressada é tomada pelo papel capaz de consumir todos os outros, literalmente, e o que era mais uma função, passa a ser a paixão preponderante. É natural não querer se afastar da cria, sendo comum a sensação de que o período de afastamento do trabalho é insuficiente. Por conta disto muitas mulheres decidem parar de trabalhar quando decidem ser mãe. Tomar esta importante decisão requer planejamento exaustivo e extrema convicção do que se quer.

A dedicação exclusiva aos filhos é muito recompensadora e  indubitavelmente gera uma sensação de dever cumprido, além de facilitar o fortalecimento dos laços familiares. Do ponto de vista prático também é interessante, pois com esse tempo é possível conhecer e interferir mais na rotina das crianças. Mães que optam por este período de afastamento também vivenciam melhor as transformações físicas do puerpério. Aproveitar a parada para ter mais filhos pode ser uma opção, e só retomar as atividades depois de um tempo maior. Mulheres que seguem nesta direção podem se considerar privilegiadas, e verdade seja dita, poucas têm condições financeiras para tal, sem falar que o trabalho em si pode lhe fazer falta.

Em geral essa saída do mercado de trabalho é programada para ser temporária, contudo por vezes este período se estende além do que se imaginou inicialmente, quer por dificuldade de saber a hora certa, quer por percalços na reinserção funcional. De qualquer modo, voltar a trabalhar depois de alguns anos pode ser bastante difícil, e este caminho íngreme precisa ser trilhado com muita consciência. Se aquele planejamento lá atrás tiver sido bem dimensionado, o afastamento poderá ser o ideal para cada uma e o retorno ao trabalho mais facilitado. Mulheres que perdem o tempo de retorno frequentemente se deparam com uma questão até cruel; descobrem-se defasadas para a função que costumava ocupar. Afastamentos mais curtos, por um a dois anos, tendem a ser mais seguros em relação a isto. Dar uma pausa na carreira até os filhos crescerem pode ser mais complicado no que diz respeito ao retorno. É importante pensar no futuro, lembrar de que os filhos crescerão e essa mãe exclusivamente dedicada à família poderá experimentar uma sensação de vazio muito grande. O casamento, por sua vez, fica vulnerável em certa medida e é imprescindível contar com o apoio do parceiro nesta empreitada.

Seja qual for a decisão tomada, depende de cada uma, das expectativas que tenha em relação à vida e ao trabalho, das questões econômicas, enfim, do modus operandi de cada arranjo familiar. Não há regras. O fundamental é estar bem consigo mesma.


domingo, 9 de setembro de 2012

FINITA PAIXÃO?



Tentando definir o que é paixão. Um sentimento que se alimenta de fogo, velocidade e adrenalina; aquela loucura e vontade de estar junto, aquele friozinho na barriga que antecede cada encontro; um nó na garganta, a dúvida, o sobressalto quando o telefone toca; sensação de jovialidade, mas que isso, de que se está vivo. Pena que a ciência já bateu o martelo: a paixão acaba. Postulam inclusive que ela dura em média dois anos. Se fôssemos escolher ela duraria para sempre, mesmo sabendo que para tanto se despende uma enorme quantidade de energia e que custa atenção que é sonegada a várias outras áreas de sua vida; pouco importa, quem mergulha nesta aventura o faz feliz.

Uma criatura apaixonada é capaz de quase tudo, vive no verdadeiro éden, rindo à toa. O mundo ganha um colorido diferente e a sensação de bem estar se espalha de maneira avassaladora. Algo assim, tão insidioso, soa tão fantástico que é sempre alvo de diversos ensaios, sejam artísticos ou científicos. Na arte a paixão se espalha por toda parte; músicas de corações dilacerados, filmes arrebatadores e crônicas acachapantes. Aliás toda paixão é embalada por uma bela e envolvente canção. Aos cientistas, desde a neurociências até a psicologia, coube, como vício de função, justificá-la (ainda que no capítulo destinado à conclusão só lhes reste estabelecer que não é preciso justificar a paixão). Neste campo uma característica da paixão já foi destacada – seu poder analgésico. Isso mesmo! Um estudo americano revela que as experiências de dor física são minimizadas pela paixão, aparentemente por ativar neuroreceptores idênticos aos ativados pelos fármacos.

Muito já se falou sobre a diferença entre paixão e amor, a primeira tachada como efêmera e inconsequente, turbulenta como uma montanha russa; já o amor significa navegar em águas calmas e longevas. Tais adjetivos soam por vezes pejorativos, contudo fato é que todo mundo quer viver uma paixão. E olhando com intimidade a questão, paixão e amor estão mais para metades indivisíveis de um único sentimento do que opositores ferozes. Mais provável que sejam espectro de um mesmo estado patológico do qual não se deseja curar jamais.

Para felicidade geral (e quem sabe até consolo), aquela sentença de finitude da paixão já foi contestada – cientistas da Universidade Stony Brooks em Nova York analisaram a atividade cerebral de casais que estão juntos há muito tempo e descobriram que 10% deles mantém as mesmas reações químicas que casais em início de romance. Não se sabe que fatores influenciam nisto, mas as descobertas indicam que alguns “elementos da paixão amadurecem, permitindo que alguns casais consigam desfrutá-los por longo tempo”. Cabe a cada um tecer os meios de manter a chama sempre acesa, e aqui permitam mais uma vez citar o poetinha: “que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. Seja qual for o embasamento, científico ou não, é bastante saber que em se tratando do coração (e da mente) tudo é possível.

domingo, 2 de setembro de 2012

TEMPO, TEMPO, TEMPO, TEMPO!

Alice no País das Maravilhas


A frase atribuída a Einstein diz que “falta de tempo é desculpa dos que perdem tempo por falta de método”. Para a esmagadora maioria das pessoas isto é uma verdade impossível de se reverter uma vez que esta desculpa se repete milhares de vezes. E a sensação que se tem é que se trata de um mal dos dias atuais, que se reflete principalmente nas relações interpessoais. É um tipo de delírio que não raro se tenta manter para não ter que abalar o comodismo e sair do status quo vigente. A busca por sair deste ciclo que se retroalimenta passa por reconhecer a falta de método e a primeira atitude para chegar lá é parar de dizer que não tem tempo (se de fato não resolve, já é uma assertiva que subliminarmente começa a promover a mudança).

Uma coisa que frequentemente escapa aos olhos é a existência de verdadeiros ladrões de horas. São aquelas coisas que vão tomando tempo, em geral desapercebidamente justamente por parecerem rápidas. Exemplo disto é o tempo que se desperdiça navegando a esmo pela internet ou refazendo coisas que se fez sem concentração. São todas tarefas infrutíferas que se impõem pela falta de objetividade e foco, pois a mesma tecnologia que ora se mostra vilã, se utilizada de maneira criteriosa é extremamente benéfica. Para manter a objetividade no cotidiano é preciso planejamento, o que não significa criar uma rotina engessada (até porque, imprevistos acontecem). Pelo contrário, é uma forma de encaixar todas as coisas que se deseja realizar, priorizando interesses dos mais diversos, desde aquele telefonema que se quer dar a uma amiga com quem há muito não se fala. Fazer uma agenda é um caminho. Com ela é possível programar-se com antecedência, inclusive para ter um tempo livre.

E por falar em tempo livre, este muitas vezes pode ser responsável por uma culpa imensa. Não é raro encontrar pessoas que quando não estão fazendo nada sentem-se meio estranhas. Este tipo de culpa tem que ser jogada pela janela, mesmo pelo mais ferrenho workaholic. Ter o tempo para o ócio é, ao contrário do que possa insinuar, é altamente produtivo. Sem contar que descanso e lazer são indispensáveis para o bem estar de qualquer pessoa. Ignorar estas necessidades chega a ser uma espécie de auto-sabotagem; ter momentos dedicados a si mesmo faz uma diferença brutal no equilíbrio das tensões.

Não saber gerenciar seu próprio tempo reflete de forma desastrosa na qualidade de vida do indivíduo. No livro “Comportamento Organizacional: Criando Vantagem Competitiva”, os autores discutem o fator tempo como algo  decisivo na vida moderna e categorizam seu uso de maneira interessante que vale para reflexão – “o tempo apressado e a vida saturada”, “o tempo fragmentado e a vida superficial”, “o tempo sincronizado e a vida amarrada”, “o tempo repartido e avida quebrada” e “o tempo, o consumo e a vida vazia”. Ou seja, dependendo de como se lida com o tempo em sua vida, esta sofrerá determinado tipo de consequência. Tornar-se vítima do tempo, sem respeito às suas prioridades e ao que verdadeiramente importa, lhe fará viver no automático e de modo superficial, em rota diametralmente oposta a uma vida plena e feliz.

Por tudo isso, vê-se que o tempo é um bem precioso e como tal precisa ser cuidado. Não se deve permitir que ele seja um opressor; pelo contrário deve trabalhar a favor, tendo sempre em mente sua completa relatividade.


domingo, 19 de agosto de 2012

A QUESTÃO DA PROGÊNIE


A medicina veterinária, em seu ramo da reprodução animal, trabalha com touros, grandes doadores de sêmen do gado de elite e fêmeas receptoras. São muitas as variáveis para se designar um animal como bom reprodutor e em geral isto só é sabido quando ele já está mais velho e as gerações de seus descendentes já foram avaliadas. Se este tipo de análise fosse extrapolado para a medicina humana seria ainda maior o número de variáveis estudadas e muito mais tempo para se ter gerações completas. Devaneios à parte, tentando fugir de um “admirável mundo novo”, transmitir características para a prole é certo tanto para homens quanto para touros. O que define o bom reprodutor? Para a reprodução animal é aquele que transmite para os filhos suas melhores características. Mesmo os estudos de melhoramento animal se valem da genética quantitativa, em que o fenótipo é resultado do seu genótipo expresso de acordo com o ambiente em que o indivíduo é exposto. Para humanos, transmitir qualidades psíquicas e físicas é recompensador, se ver num gesto ou numa atitude é motivo de alegria, mas constituir a prole vai além da reprodução, passa principalmente por criá-la.

Existe aquilo que parece ser da natureza da pessoa, o que às vezes se diz ter “puxado” de um dos genitores. Pode-se herdar um talento do pai ou uma habilidade da mãe que vai brotar de forma inata. Tipo de cabelo, cor da pele ou olhos, tudo que acaba por distinguir uma família da outra é importante no reconhecimento do eu, e é relevante retratar estes laços. Nada disso deve ser menosprezado pois tem sua influência no produto final, seja para touros ou para os homens.

Quando se trata de pessoas, aquilo a cerca de valores que é passado é uma preocupação, principalmente porque muita coisa se passa de forma subliminar, com exemplos e com o que sequer foi dito. Apesar de não existirem fórmulas, sempre há o senso comum a nortear nossas condutas. Nesta seara muita coisa ganha peso e é uma responsabilidade gigantesca para qualquer pai. Diferentemente de um touro prestamos conta ao futuro pelo que foi ensinado aos nossos filhos. E parece haver incessantemente uma linha tênue entre o bom e o ruim quando se trata de criar filhos; estimular a autoestima versus superestimar as qualidades, cuidado versus superproteção ou interferência excessiva nos conflitos versus ensinar a se defender. Tudo isso num mundo que continua girando e com isso gerando novos desafios a serem transpostos e novas questões a serem respondidas. As diversas disposições familiares vistas hoje, orientações sexuais mais abertamente seguidas, violência, drogas e sustentabilidade são temas obrigatoriamente presentes no cotidiano atual. Fica a sensação de que educar não é mais tão intuitivo quanto um dia pode ter sido. É preciso basear-se em conceitos nos quais de fato se acredita para poder responder aos inevitáveis questionamentos com coerência. E com o agravante de que não há espaço para experimentações inconsequentes; cada passo tem um resultado. Voltando à analogia com os touros, que bom seria se maior parte disso fosse um natural transmissão de genes, mas neste caso seríamos meramente reprodutores.

Muito do que somos é determinado pela herança genética, contudo o homem permanece produto do seu meio e este ponto nos difere dos ruminantes uma vez que temos a possibilidade de transformar o meio em que vivemos.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

AS FACES DE JORGE

Uol entretenimento


Acho que era sonho. Estava vivendo num mundo fantástico onde tudo parecia possível.

De repente me vi cercada por meninos de rua. Estranhamente não sentia medo – apesar daquele jeito um tanto aterrorizante do grupo, conseguia enxergar algo de inocente e humano naquelas figuras – afinal eram crianças. Pedro Bala, Pirulito, João Grande e Dora aos poucos foram se desvendando à minha frente. Eram fruto de uma sociedade que não sabia o que fazer com seus marginalizados e se tornaram de certa forma heróis a la Robin Hood. No reformatório aprenderam toda sorte de crueldade, mas também aprenderam a cuidar uns dos outros e talvez fosse isso que tornasse possível vê-los como meninos. Através deles pude enxergar o que ia além das paredes do meu apartamento, do quartinho das minhas filhas, da proteção do meu condomínio e dos vidros fechados do meu carro. A desigualdade social era mãe daqueles garotos, e a falta de oportunidades marcou definitivamente seus destinos. Por sorte iriam crescer e cada um tomar seu rumo, bom ou ruim, só o tempo iria dizer.

Continuei como que flutuando, mas tinha certeza que estava na Bahia e eram tempos de cacau quando ouvi pronunciar o nome de um tal Coronel Boaventura. Quem o chamava era um tal Capitão Natário, que vinha chegando com dona Zilda, Bernarda e as crianças. Aquilo me chocou um pouco, mas para os padrões da época e para a região era normal. Ali era comum se amasiar, já que não tinha Igreja nem padre, e esses arranjos de família apareciam aos bocados. Encantador mesmo eram os romances que surgiam em meio a tanta disputa de terra e lei de jagunço. Apesar das inúmeras desgraças que se abateram sobre aquelas terras; enchente, peste e invasão, a força do sertanejo sempre se fazia presente.  

E por falar em força precisei de muita para não cair naquela fofoca. Era domingo de carnaval e morrera um tal Vadinho, rebelde, irreverente e impulsivo, conhecida figura da boemia de Salvador. Dizia-se a boca pequena que sua esposa, Dona Flor, cozinheira de mão cheia, dividiria o velório do defunto com mais um sem número de amantes. A viúva oficial guardou longo luto e aos poucos voltou a se abrir para o mundo. Aí que entra Teodoro, o farmacêutico, exata antítese de Vadinho. Ainda assim contraíram matrimônio, Teodoro e Flor, pouco tempo depois de um casto  noivado. Não há como saber ao certo, mas fato é que Dona Flor passou a ver seu falecido marido e tê-lo no seu leito com Teodoro. No princípio tentou negar e reprimir, mas a coisa tornou-se tão real e irresistível que passaram a manter um casamento a três em perfeito equilíbrio (com a ressalva de que Teodoro nada sabia). Esse sim é um grande exemplo de como as diferenças podem conviver em harmonia, equilibradas por uma mulher.

Aliás, mulher é um bicho esquisito mesmo. De passagem pelo Vesúvio, ouvi por aquelas bandas a história de uma chamada Gabriela. Conta o povo que ela moça simplória e com dotes culinários invejáveis agarrou pelo coração e pelo estômago o sírio (e não turco) Nacib. O problema é que parece que não arrebatou apenas ele, e sim encheu de desejos vários senhores da cidade. O rebuliço que se seguiu na cidade de Ilhéus ressoa até hoje. Ainda mais numa terra em que a honra era lavada com sangue, como se pôde ver nas mortes dos amantes Osmundo e Sinhazinha pelas mãos do Coronel Jesuíno. Terra de mulheres fortes como a impetuosa Malvina ou a voluptuosa Maria Machadão. Terra também de disputas políticas acirradas como as que rivalizavam Ramiro Bastos e Mundinho Falcão. Tudo isso para dizer que mulher é um bicho esquisito mesmo, ou por outra, Gabriela não era mulher de se adaptar a uma vida regrada de mulher casada daquela época. Mesmo cortejada e desposada por Nacib, sucumbiu a sua natureza nos braços de Tonico Bastos. Prova de que não é de hoje que a mulher não toma cabresto.

E outra mulher avessa aos cabrestos apareceu diante de mim. Seu nome era Tieta. Vivera aventuras amorosas na juventude que escandalizaram a pequena Santana do Agreste. Acabou expulsa da cidade por seu pai, Zé Esteves, depois de ser denunciada pela irmã mais velha, a rancorosa Perpétua. Agora voltava para as areias do seu passado, rica e poderosa, causando mais uma vez rebuliço em sua cidade natal. A rotina da cidade foi transformada pela presença de sua ilustre filha, que se tornou benfeitora por sua grande generosidade. Por outro lado voltou a chocar com sua tórrida paixão por Cardo, o sobrinho seminarista. A força do feminino se revela mais uma vez, pois apesar de ser obrigada a deixar a cidade mais uma vez inesperadamente após o segredo de sua vida ser revelado, Santana do agreste jamais seria a mesma.

Eram tantas pessoas de personalidade surpreendente, criaturas com a alma tão rica e tantas histórias para contar; Quincas Berro d’água, Tereza Batista, Pedro Arcanjo, Corró, Paulo Rigger, Pedro Ticiano e tantos tipos que retratam com fidelidade, ainda nos dias de hoje, as várias faces desse nosso Brasil, da miscigenação, do cincretismo religioso, das injustiças sociais e lutas políticas. Então não era um sonho, era na verdade uma viagem na imaginação; estava lendo Jorge Amado, sempre atual, mesmo 100 anos depois de seu nascimento.

domingo, 5 de agosto de 2012

CHÁ DE SOSSEGA LEÃO COM QUIETA O FACHO



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As crianças parecem ter uma energia sem fim. Isto até que é tranquilizador, pois enquanto permanecem em ação imagina-se quer estão bem, afinal qual se não este o motivo para os pediatras sempre perguntarem – ele está ativo? Para acompanhar o ritmo delas é preciso certo esforço físico e invariavelmente se chega ao pico antes mesmo que o pequeno esboce a mínima intenção de parar.  E sempre há aquele dia em que você está a fim de dar uma relaxada, beber um vinhozinho e assistir um bom filme. Quando esse dia começa você, cônscio de seu papel, dedica um tempo às crianças, engendra toda sorte de brincadeiras, corre feito louco, até que aquele dia se transforma numa noite e a galerinha não dá nem um bocejo. E o seu vinho lá te olhando, os queijinhos exalando um delicioso aroma e o tal do filme já na metade. Não! Os “embalos de sábado à noite” não podem se acabar assim!

Começa o cerco. Primeiro a sutileza – pergunta se não quer tirar um soninho, dá um jeito de vestir o pijama e oferece aquele leitinho quente. Nada! É preciso mais ênfase. Amanhã todo mundo que ir à praia? Para tanto vão ter que acordar cedo o que equivale a dizer que terão que dormir cedo, mais precisamente agora! Que hora mais imprópria para o noticiário apresentar a previsão do tempo – fortes pancadas de chuva. E criança se apega a cada detalhe! Hora de mudar a estratégia. Chega, já está na hora de dormir, para o banheiro escovar os dentes e cama!

Depois dessa canseira quem aguenta vinho, queijo ou filminho? A noite relaxante transformou-se numa noite de sono. Pena que ainda não se pode dormir. As crianças foram para a cama, mas não dormiram – é um tal de quero fazer xixi, mais um pouquinho de leite, vamos ler uma história.  Está na hora de ser rígido, não antes daquela vozinha pedir: “dorme comigo?” Ah, pedindo assim, quem aguenta? Deita na mini-cama, se espreme bem, encolhe bastante as pernas e decide que ficar imóvel é a melhor maneira delas finalmente se entregarem aos braços de Morfeu. Apenas não contava com o rolar na cama sem conciliar o sono. Criança sofre de insônia? Who knows?

Agora só restava a arma secreta - inventei um remedinho poderoso - o chá de sossega leão com quieta o facho. Se existisse seria bastante útil, mas a simples menção desse nome tão estranho e tão sugestivo apavorou a pequena audiência. Diante da mínima possibilidade de ter que beber tal iguaria o corre-corre foi grande. Dormir tornou-se excelente refúgio. Também, a aquela altura da madrugada!