domingo, 25 de novembro de 2012

DORES E DELÍCIAS


Lá vem ela de novo. Essa multimulher não para nem por um segundo, até seu sono é produtivo ( e ai dele se não for!). Mas como falar de dores e delícias sem falar da multimulher, o protótipo da ambiguidade.  No campo maternidade então, essa assertiva se realiza plenamente.

Ser mãe tem tudo a ver com a letra de Caetano Veloso que diz “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, até porque, com perdão do trocadilho, a maternidade tem seu dom de iludir, e também por isso é uma aventura maravilhosa.

A gestação, à parte a possibilidade dos enjôos, mal estar e repouso forçado para algumas, é uma ilusão fantástica. Está ali o pequenino ser no ventre, podendo ser levado a qualquer lugar, obediente e sob controle. A áurea sublime que cerca esse momento parece ser uma trégua providencial para o dia em que seu bebê vem ao mundo se seu peito racha, sua bexiga dói e seus olhos pesam. Até você, que nunca curtiu uma rave vai curtir a noitada e vai entrar em alfa ao trocar olhares com aquela pessoinha na madrugada. (Parênteses para alerta: depois das primeiras noites, já estabelecida a relação, opte por não estabelecer contato visual, não acenda luzes e faça o mínimo barulho possível; verá que é mais fácil fazer o rebento dormir novamente). Ainda assim, sentir-se realizada é a tônica.

Com crianças pequenas o trabalho braçal é enorme, muitas vezes parece se estar correndo num carrossel de hamster; não há como descer. E é mesmo um processo que se autoalimenta; acorda, dá comida, dá banho, brinca, se suja dá mais banho, mais comida, brinca, se suja... não sem um beijinho gostoso com a sinceridade que só criança tem, um abraço com aquela mão de chocolate e aquela exclusiva troca de olhar. E nas noites febris vem tanto aperto no coração (mesmo que você chega médica, e pediatra; esta ainda pior pela quantidade de possibilidades diagnósticas que lhe vem à cabeça), trocaria de lugar facilmente e faria qualquer coisa para devolver-lhe o bem-estar. Felizmente há a incrível capacidade de recuperação das crianças, e com ela o retorno da tranquilidade. Quem sempre foi cheia de nove horas para tudo, agora põe a mão em cocô, xixi e toda sorte de secreções sem cerimônia. E está tudo certo!
           
Para as mães dos maiores entra em cena mais uma tarefa, a de motorista. É um tal de leva para a escola, da escola para a natação, daí para o balé e depois ainda tem a aula de inglês, de robótica, de judô, e um sem número de coisas que esses pequenos executivos fazem nos dias de hoje. A multimulher supira cansada, a esta altura já não se culpa por querer dar uma parada de vez em quando, mas a cumplicidade continua, e se sente a alegria da missão sendo cumprida e ver que contribui para entregar ao mundo um ser humano valoroso.

A vida segue, e provavelmente algum dia a angústia do ninho vazio vai passar por aquela mulher, contudo a sua essência multi-interessada a fará ter outros focos para colocar sua energia, embora sempre exercendo a maternidade, ainda que posicionada de uma outra forma. Tudo porque aquela primeira troca de olhar simboliza um laço absolutamente insolúvel e faz parte das delícias da maternidade, que estão acima de todas as dores. 


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A MULTIMULHER, O CASAMENTO E A PANELA DE PRESSÃO



Com a correria do dia-a-dia é comum não encontrar tempo para se reunir com os amigos. Aquela saída divertida longe das preocupações domésticas é sempre bemvinda e saudável. Ela fortalece os laços de amizade, relaxa das tensões do cotidiano, além de servir para enriquecer as relações dos casais, uma vez que possibilita ter novidades para contar, manter-se vivo e interessante para o outro.

A individualidade é fator importante no casamento. Por mais que se viva em completa harmonia, a simbiose não pode ser tal que anule os anseios e as percepções de cada um. Estar bem consigo mesmo, emitir suas próprias opiniões e manter seus próprios interesses é o que faz o ser humano sentir-se pleno. Um estudo sobre terapia familiar intitulado “O difícil convívio da individualidade com a conjugalidade”, da professora da PUC-RJ Terezinha Féres-Carneiro, aponta bem o que a questão envolve. O título já é bastante esclarecedor, mostrando que de fato a dualidade vivida pelos pares num casamento é delicada e alcançar uma harmonia não é fácil, até porque, à primeira vista parecem excludentes. A pesquisa afirma que na lógica do matrimônio um e um são três – dois sujeitos (duas percepções de mundo) geram uma identidade conjugal, um projeto de vida. Criar este modelo único pressupõe espaço para cada personalidade expressar o que sente. E é neste ponto com muitos relacionamentos engasgam, o que cedo ou tarde traz cobranças mútuas, arestas que se não forem aparadas determinaram o fim.

Manter vivo esse espaço de manifestação das personalidades num casal é um trabalho de formiguinha, uma construção diária que demanda atenção. Um dos pilares desta construção é estar com os amigos (os seus, os meus e os nossos), o que promove equilíbrio emocional para o casal. Ter privacidade com os amigos, falar bobagem, ser confidente de alguém e trocar experiências ajuda no crescimento pessoal e é muito importante, principalmente se imaginarmos que a maioria das amizades duram mais que os casamentos. Cultivar as amizades auxilia a quebrar a rotina e a falta de assunto que muitas vezes mina os relacionamentos. O casal que decide se fechar corre o risco de em algum momento implodir. É como uma panela de pressão; necessita de uma válvula de escape para respirar e ser aquela pessoa pela qual valeu a pena a conquista. As mulheres historicamente reconheceram esta necessidade mais tardiamente que os homens – o futebol com os amigos é um costumaz vilão nas batalhas domésticas. Toda multimulher, mesmo que no campo das idéias, trava um equivalente, mas sua característica primordial é se moldar à tal multiplicidade de papéis. Com o tempo ela foi conquistando um espaço na sociedade, e consequentemente no casamento, que propõe uma relação mais equânime, onde suas realizações pessoais e seu sucesso profissional também têm importância. Esta nova conformação ratifica que há vida fora do casamento e faz com que as pessoas fiquem juntas cada vez mais pelo prazer dessa troca. Ter seu “clube da Luluzinha” é ótimo, faz voltar para casa cheia de energia e disposição, te põe em movimento. No final é tão enriquecedor pessoalmente que reflete de forma positiva na qualidade e longevidade conjugal.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

REPONDO AS PENAS DO ANTIGO COCAR


Não se conta a história do Brasil sem que se fale dos índios que aqui já viviam antes de qualquer linha ser escrita. Diversas tribos que cultivavam seu alimento, passavam sua cultura de geração em geração e cultuavam seus deuses. A chegada de outros povos a esta terra rechaçou os índios, que não se adaptaram ao aculturamento promovido pelos europeus, e foram cada vez mais adentrando o continente. Com o tempo populações indígenas inteiras foram dizimadas na busca por terras de colonos, seguidos de garimpeiros e grileiros.

Oportuno lembrar a riqueza desta cultura, tantas línguas, hábitos e costumes diferentes do que conhecemos. São várias etnias, Carajás, Caiapós, Guaranis, Ianomamis e Tupis. Precisaram se adequar, de forma que grande parte deles acabou com as crenças esfaceladas e invadidas. Os que resistem passaram a ter que confrontar o cotidiano nas aldeias com a incersão social dos seus povos nas cidades com predomínio dos não-indígenas. Para esta resistência é fundamental preservar suas tradições, suas músicas e instrumentos musicais e seua rituais. Nestas aldeias o Pajé ainda é sábio e uma espécie de sacerdote, os alimentos são cultivados de forma artesanal e a relação com a natureza é mais harmônica. Tudo isso fica sob ameaça por interação com a sociedade em torno. Daquilo que foram há séculos, restam pouco mais de 220 sociedades indígenas pelo país.

Apesar desta realidade ser absolutamente pública, de séculos mais tarde existir uma unificação da miscigenada população brasileira e da Constituição datada de 1988 reconhecer direitos específicos dos povos indígenas, ainda se vê cenário semelhante. Ao longo do tempo tais terras, predominantemente nos estados do Amazonas e Mato Grosso do Sul, transformaram-se em grandes latifúndios, nas mãos de agricultores produtivos, o que é considerado importante para o desenvolvimento dessas regiões. O reconhecimento da propriedade ancestral destas terras se esbarra num conflito de difícil solução. Ir de encontro aos que detém o poder econômico não tem sido a tônica dos sucessivos governos, e enquanto não houver este enfrentamento os conflitos continuarão, cada vez mais sangrentos, com a derrota óbvia dos mais desprotegidos. E com uma derrota mais sutil, a do povo brasileiro por perder mais um pedaço de sua identidade.

Episódios recentes deram nova força à vozes indígenas, com a decisão da Justiça Federal em que os índios Guarani-kaiowá poderão permanecer na área ocupada pela Fazenda Cambará, no Mato Grosso do Sul. Reacendeu-se a discussão após apelo de grupos indígenas que diziam preferir ser mortos do que sair da terra tradicionalmente ocupada por seu povo, até porque a decisão da justiça é temporária, mantendo-os em apenas um hectare de terra, metade do que ocupavam anteriormente, enquanto não se define a legalidade da ocupação do local.  Não deixa de ser um tipo de preconceito racial sim imaginar que a cultura indígena deva ser esquecida pelos índios em nome de adotar um estilo de vida mais cosmopolita. Este tipo de pensamento já foi chamado de etnocídio, e o que é pior, feito de forma absurdamente compulsória. A luta é antiga e ganha novo fôlego em direção à necessidade de demarcação das terras com brevidade. Como envolve muitos interesses e de grandes produtores, é preciso um pacto da sociedade, como disse a atual presidente da Funai. Não basta vir uma decisão vertical, é necessário mobilizar dinheiro para retomar propriedades, é preciso que as partes tenham um entendimento de que são sacrifícios em prol da reparação e resgate desta parte de nossa história. É como pintar a cara e partir para a luta, repor as penas de um antigo cocar.

domingo, 28 de outubro de 2012

PAIXÃO OU RAZÃO




Esta não é apenas uma história de amor. Na verdade é uma história de paixão. É sobre o momento em que uma decisão importante está para ser tomada e talvez por isso não devesse se basear na paixão, mas se pronuncie quem for capaz de controlá-la. Na verdade é uma história de razão, mas o que dizer sobre as razões que a própria razão desconhece?

Sob a ótica da paixão as questões ganham dimensões muitas vezes distantes da realidade, tomam um cunho obviamente pessoal. Deixa-se de lado justificativas plausíveis, não precisa ter razão de ser, carece deliberadamente de fundamentação. Visto assim soa inconsequente, contudo escolhas decisivas são feitas assim todos os dias, e não necessariamente leva ao erro. Pode ser o que origina o passo mais acertado de sua vida, pode ser a fonte inspiradora para todas as suas conquistas, sua receita de sucesso. Hoje pode ser um desses dias.

Há, por outro lado, a racionalidade pura, a objetividade, que poderá lhe dar dados probabilísticos em direção ao acerto. Mesmo que não represente cem por cento de certeza, para alguns representa segurança. Estar embasado, fundamentado em fatos reais, buscando conhecer o modus operandi dos atores envolvidos em dada situação, sua trajetória trás a sensação de se estar tomando a decisão correta. Algumas situações certamente exigem tal estratégia. Hoje pode ser um desses dias.

O grande acerto num dia como esses, em que se degladiam paixão e razão, é ter sabedoria para distinguir se é hora de usar uma coisa ou outra. Mais ainda quando estamos um por todos e todos por um, com o gesto de um afetando a vida do outro. Não se espante; num dia como esses ambas podem ter seu lugar, e tudo pode se apresentar de forma suficientemente confusa a ponto de você sequer perceber. Então encare o momento de frente, tome as rédeas e decida o que só cabe a você. Ao final de tudo busque a serenidade, não apenas para aceitar os resultados, mas para ser agente de uma possível mudança se julgar necessário, de forma lúcida e coerente. Até porque outros dias como este chegam de tempos em tempos, e sem dúvida você vai querer fazer o melhor, com paixão ou com razão.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A MORTE DA DIALÉTICA



“Toda unanimidade é burra”. A frase atribuída a Nélson Rodrigues expressa o quanto a dialética é importante para o enriquecimento humano. Manter viva a discussão no sentido de  fazer refletir é fundamental para mover o pensamento adiante.

A presença da dialética supõe confronto de idéias, não necessariamente o conflito. Requer respeito e serenidade para que ter diante de si o outro lado da moeda suscite a busca pelo denominador comum, e não simplesmente dominar. Não por acaso, os opostos se atraem a fim de se complementarem. Discordar é bom e é saudável, desde que seja privilegiada a tolerância. Quando a dialética morre, o discurso se torna vazio, mera retórica, e que não leva a lugar algum.

Nos dias atuais o antagonismo das idéias muitas vezes parece pálido; criaram-se diversas ditaduras de comportamento e padrões a que todos devem seguir. Quem pensa fora da caixinha é tido como inadequado. Casos de bulimia e anorexia têm como origem a necessidade extremada de se encaixar em dado estereótipo. E as pessoas que vivem marginalizadas por terem um estilo de vida que se distancia de um status pré-determinado. Assim acontece no campo político, quando adversários limitam-se à agressão mútua e a apontar os erros do outro, esquecendo-se do foco da disputa. Pouco adianta levantar os problemas sem pensar para eles soluções e viabilizá-las. Aqui cabe perfeitamente aprender a ouvir e pensar na contribuição que cada um tem a dar.

Em suma, fazer pulsar a dialética é um exercício diário e significa sair da atitude defensiva, pressuposto para viver em harmonia, respeitando as diferenças.

domingo, 7 de outubro de 2012

O SACO DE BESTAGEM DE VANDEU

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Domingo é dia da meninada. A programação vai sendo adaptada ao gostinho dos pequenos e invariavelmente envolve saídas longas. Quem tem filho pequeno sabe que uma mochila é sempre bem vinda, onde se coloca coisas que possivelmente vão usar, mesmo para os maiores, é um lanche, uma água ou uma muda de roupa. Até aí tudo normal. O engraçado hoje foi a interferência das estrelinhas na arrumação da tal mochila (coisa que vem se tornando bastante comum) – é tanta buginganga que acham importante levar, inclusive todas com justificativas extensamente balisadas, seja a cabeça decepada de uma boneca velha ou uma toalhinha rasgada deixada de lado, passando por um bloquinho de papel e um lápis sob o disfarce de diário a título de se escrever as aventuras que acontecerem no passeio. E nessa hora algumas coisas vêm à mente: o peso da mochila, toda hora ter que abrir a mochila, por consequência ter que fechar a mochila, derrubar um monte de coisa no abre-fecha da mochila e torcer para não esquecer a bendita mochila. Fez lembrar  O SACO DE BESTAGEM DE VANDEU (assim mesmo com letras maiúsculas dada a entidade de que se tratava).

O tal saco (saco mesmo!) era emblemático, inseparável de seu dono e parecia ter vida própria. Parecia ser uma espécie de alterego e às vezes é possível que chegassem a dialogar entre si, dono e objeto. Simbiose como esta suscitava fantasias a cerca do que haveria dentro dele, ainda mais para quem, puxando agora da memória, nunca vira o conteúdo do saco. O episódio de hoje revirou-o e viu tanta coisa lá dentro, afinal que lógica pode ter a fantasia? E não é que viu que levava também seu caderninho para anotar as aventuras do dia, que não eram poucas,  e as tiradas impagáveis, contar do amor que tinha pela família, do quanto sabia curtir a vida, explicar a diferença entre pôde e podre, além de ensinar a encarar o mundo com o mais genuíno bom humor.

Sendo assim, deixa as pequenas colocarem o que quiserem na mochila, aliás cada uma com a sua, um território particular onde tudo é possível, criando seu próprio saco de bestagens onde poderá brotar livremente suas fantasias de criança e um dia poder ser uma deliciosa lembrança.

sábado, 29 de setembro de 2012

ANATOMIA DA PELE



Há oito anos conversava com uma pessoa muito querida, inteligente e bem informada sobre Ações Afirmativas. Fiquei espantada pois meu interlocutor nunca sequer ouvira sobre o assunto. Aquilo me deu a medida do quanto se precisava discutir sobre racismo em nosso país – alguém instruído, formador de opinião estava à margem daquela discussão. De lá para cá muita coisa mudou, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (criada em 2003) tomou corpo e hoje tem status de Ministério, atores negros protagonizando novelas não é mais novidade, História Afro-brasileira é realidade nas escolas e um indígena consegue espaço na TV falando seu próprio dialeto. Por outro lado não é difícil perceber que muito ainda há para fazer. Existe toda uma geração que de uma forma ou de outra traz encrustrado no subconsciente noções segregacionistas, e esta geração vem criando seus filhos com um discurso “politicamente correto”, porém chama o vizinho negro de macaco na primeira oportunidade, diz que fulano tem o cabelo ruim ou mesmo se diz moreno quando questionado sobre sua cor. Ainda hoje se dizima nações indígenas em total desrespeito à sua cultura. Estatísticas oficiais dão conta de que um bebê negro tem 25% mais chance de morrer no primeiro ano de vida comparada a um bebê branco, o que é ainda pior para uma criança indígena (50%). Se despir de tudo isso é mesmo difícil, ainda mais num pais que vende uma imagem mundo afora de ser multirracial e conviver bem. O mundo também vem trilhando esses novos caminhos, contudo há uma longa estrada pela frente. Concluo que o foco de atenção agora tem que ser nossas crianças – é preciso falar no assunto abertamente, colocar o dedo na ferida. Quanto mais se discute, quanto mais se divulga, mais se torna robusta a argumentação. E quando se trata de criação, seja qual for o assunto, permanece verdadeira a máxima de que um exemplo vale mais que palavras.

Com este pensamento, o UNICEF vem divulgando uma campanha intitulada “Por uma infância sem racismo”, que visa alertar a sociedade sobre os impactos do racismo na infância e na adolescência e da necessidade de uma mobilização social para assegurar o respeito desde a infância. Existem várias peças da campanha vinculadas na mídia, algumas já receberam prêmios pela iniciativa. Um conteúdo que é bem esclarecedor está sob o tópico “Dez maneiras de contribuir para uma infância sem racismo”, que reproduzo a seguir (fonte:  http://www.unicef.org/brazil/pt/multimedia_19297.htm):

1.Eduque as crianças para o respeito à diferença. Ela está nos tipos de brinquedos, nas línguas faladas, nos vários costumes entre os amigos e pessoas de diferentes culturas, raças e etnias. As diferenças enriquecem nosso conhecimento.

2.Textos, histórias, olhares, piadas e expressões podem ser estigmatizantes com outras crianças, culturas e tradições. Indigne-se e esteja alerta se isso acontecer – contextualize e sensibilize!

3.Não classifique o outro pela cor da pele; o essencial você ainda não viu. Lembre-se: racismo é crime.

4.Se seu filho ou filha foi discriminado, abrace-o, apoie-o. Mostre-lhe que a diferença entre as pessoas é legal e que cada um pode usufruir de seus direitos igualmente. Toda criança tem o direito de crescer sem ser discriminada.

5.Não deixe de denunciar. Em todos os casos de discriminação, você deve buscar defesa no conselho tutelar, nas ouvidorias dos serviços públicos, na OAB e nas delegacias de proteção à infância e adolescência. A discriminação é uma violação de direitos.

6.Proporcione e estimule a convivência de crianças de diferentes raças e etnias nas brincadeiras, nas salas de aula, em casa ou em qualquer outro lugar.

7.Valorize e incentive o comportamento respeitoso e sem preconceito em relação à diversidade étnico-racial.

8.Muitas empresas estão revendo sua política de seleção e de pessoal com base na multiculturalidade e na igualdade racial. Procure saber se o local onde você trabalha participa também dessa agenda. Se não, fale disso com seus colegas e supervisores.

9.Órgãos públicos de saúde e de assistência social estão trabalhando com rotinas de atendimento sem discriminação para famílias indígenas e negras. Você pode cobrar essa postura dos serviços de saúde e sociais da sua cidade. Valorize as iniciativas nesse sentido.

10.As escolas são grandes espaços de aprendizagem. Em muitas, as crianças e os adolescentes estão aprendendo sobre a história e a cultura dos povos indígenas e da população negra; e como enfrentar o racismo. Ajude a escola de seus filhos a também adotar essa postura.

Mesmo sendo um problema invisível para muitos, como disse o ator Lázaro Ramos em sua mensagem para a campanha, é muito real para quem sofre literalmente na pele. Se o ponto de vista filosófico não for suficiente, encare a questão do ponto de vista biológico - a pele das pessoas é igual, uma mesma anatomia e até mesmo igual quantidade de melanócitos (diferença de cor se dá pela quantidade de melanina produzida por eles). No final a questão é um problema de todos, e pondo em prática pequenas ações será fomentada uma nova ordem em que as diferenças serão tratadas com respeito.








sábado, 22 de setembro de 2012

PAUSA PARA LAMBER A CRIA




Costuma-se dizer que quando nasce uma criança, nasce uma mãe. No primeiro filho esta é uma verdade acachapante, com todas as coisas absolutamente novas a se aprender, sensações jamais vividas antes e uma gama enorme de situações cotidianas que precisam ser administradas. Para os filhos que vêm depois também se muda muito, se é uma nova mãe, lidando por um lado com situações já conhecidas, mas por outro experimentando novos desafios. O nascimento de um filho representa uma maravilhosa onda de emoções que mais se assemelha a um tsunami. E é em meio a tudo isto que decisões importantes precisam ser tomadas.

Nos dias atuais as mulheres conquistaram a possibilidade de optar por ter ou não sua prole, quando e como. Multimulheres que são, encaixam no seu vasto rol de tarefas aquela que certamente é a maior de todas: a maternidade. E por ironia do destino, ou equívoco ingênuo, essa mulher multiinteressada é tomada pelo papel capaz de consumir todos os outros, literalmente, e o que era mais uma função, passa a ser a paixão preponderante. É natural não querer se afastar da cria, sendo comum a sensação de que o período de afastamento do trabalho é insuficiente. Por conta disto muitas mulheres decidem parar de trabalhar quando decidem ser mãe. Tomar esta importante decisão requer planejamento exaustivo e extrema convicção do que se quer.

A dedicação exclusiva aos filhos é muito recompensadora e  indubitavelmente gera uma sensação de dever cumprido, além de facilitar o fortalecimento dos laços familiares. Do ponto de vista prático também é interessante, pois com esse tempo é possível conhecer e interferir mais na rotina das crianças. Mães que optam por este período de afastamento também vivenciam melhor as transformações físicas do puerpério. Aproveitar a parada para ter mais filhos pode ser uma opção, e só retomar as atividades depois de um tempo maior. Mulheres que seguem nesta direção podem se considerar privilegiadas, e verdade seja dita, poucas têm condições financeiras para tal, sem falar que o trabalho em si pode lhe fazer falta.

Em geral essa saída do mercado de trabalho é programada para ser temporária, contudo por vezes este período se estende além do que se imaginou inicialmente, quer por dificuldade de saber a hora certa, quer por percalços na reinserção funcional. De qualquer modo, voltar a trabalhar depois de alguns anos pode ser bastante difícil, e este caminho íngreme precisa ser trilhado com muita consciência. Se aquele planejamento lá atrás tiver sido bem dimensionado, o afastamento poderá ser o ideal para cada uma e o retorno ao trabalho mais facilitado. Mulheres que perdem o tempo de retorno frequentemente se deparam com uma questão até cruel; descobrem-se defasadas para a função que costumava ocupar. Afastamentos mais curtos, por um a dois anos, tendem a ser mais seguros em relação a isto. Dar uma pausa na carreira até os filhos crescerem pode ser mais complicado no que diz respeito ao retorno. É importante pensar no futuro, lembrar de que os filhos crescerão e essa mãe exclusivamente dedicada à família poderá experimentar uma sensação de vazio muito grande. O casamento, por sua vez, fica vulnerável em certa medida e é imprescindível contar com o apoio do parceiro nesta empreitada.

Seja qual for a decisão tomada, depende de cada uma, das expectativas que tenha em relação à vida e ao trabalho, das questões econômicas, enfim, do modus operandi de cada arranjo familiar. Não há regras. O fundamental é estar bem consigo mesma.


domingo, 9 de setembro de 2012

FINITA PAIXÃO?



Tentando definir o que é paixão. Um sentimento que se alimenta de fogo, velocidade e adrenalina; aquela loucura e vontade de estar junto, aquele friozinho na barriga que antecede cada encontro; um nó na garganta, a dúvida, o sobressalto quando o telefone toca; sensação de jovialidade, mas que isso, de que se está vivo. Pena que a ciência já bateu o martelo: a paixão acaba. Postulam inclusive que ela dura em média dois anos. Se fôssemos escolher ela duraria para sempre, mesmo sabendo que para tanto se despende uma enorme quantidade de energia e que custa atenção que é sonegada a várias outras áreas de sua vida; pouco importa, quem mergulha nesta aventura o faz feliz.

Uma criatura apaixonada é capaz de quase tudo, vive no verdadeiro éden, rindo à toa. O mundo ganha um colorido diferente e a sensação de bem estar se espalha de maneira avassaladora. Algo assim, tão insidioso, soa tão fantástico que é sempre alvo de diversos ensaios, sejam artísticos ou científicos. Na arte a paixão se espalha por toda parte; músicas de corações dilacerados, filmes arrebatadores e crônicas acachapantes. Aliás toda paixão é embalada por uma bela e envolvente canção. Aos cientistas, desde a neurociências até a psicologia, coube, como vício de função, justificá-la (ainda que no capítulo destinado à conclusão só lhes reste estabelecer que não é preciso justificar a paixão). Neste campo uma característica da paixão já foi destacada – seu poder analgésico. Isso mesmo! Um estudo americano revela que as experiências de dor física são minimizadas pela paixão, aparentemente por ativar neuroreceptores idênticos aos ativados pelos fármacos.

Muito já se falou sobre a diferença entre paixão e amor, a primeira tachada como efêmera e inconsequente, turbulenta como uma montanha russa; já o amor significa navegar em águas calmas e longevas. Tais adjetivos soam por vezes pejorativos, contudo fato é que todo mundo quer viver uma paixão. E olhando com intimidade a questão, paixão e amor estão mais para metades indivisíveis de um único sentimento do que opositores ferozes. Mais provável que sejam espectro de um mesmo estado patológico do qual não se deseja curar jamais.

Para felicidade geral (e quem sabe até consolo), aquela sentença de finitude da paixão já foi contestada – cientistas da Universidade Stony Brooks em Nova York analisaram a atividade cerebral de casais que estão juntos há muito tempo e descobriram que 10% deles mantém as mesmas reações químicas que casais em início de romance. Não se sabe que fatores influenciam nisto, mas as descobertas indicam que alguns “elementos da paixão amadurecem, permitindo que alguns casais consigam desfrutá-los por longo tempo”. Cabe a cada um tecer os meios de manter a chama sempre acesa, e aqui permitam mais uma vez citar o poetinha: “que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. Seja qual for o embasamento, científico ou não, é bastante saber que em se tratando do coração (e da mente) tudo é possível.

domingo, 2 de setembro de 2012

TEMPO, TEMPO, TEMPO, TEMPO!

Alice no País das Maravilhas


A frase atribuída a Einstein diz que “falta de tempo é desculpa dos que perdem tempo por falta de método”. Para a esmagadora maioria das pessoas isto é uma verdade impossível de se reverter uma vez que esta desculpa se repete milhares de vezes. E a sensação que se tem é que se trata de um mal dos dias atuais, que se reflete principalmente nas relações interpessoais. É um tipo de delírio que não raro se tenta manter para não ter que abalar o comodismo e sair do status quo vigente. A busca por sair deste ciclo que se retroalimenta passa por reconhecer a falta de método e a primeira atitude para chegar lá é parar de dizer que não tem tempo (se de fato não resolve, já é uma assertiva que subliminarmente começa a promover a mudança).

Uma coisa que frequentemente escapa aos olhos é a existência de verdadeiros ladrões de horas. São aquelas coisas que vão tomando tempo, em geral desapercebidamente justamente por parecerem rápidas. Exemplo disto é o tempo que se desperdiça navegando a esmo pela internet ou refazendo coisas que se fez sem concentração. São todas tarefas infrutíferas que se impõem pela falta de objetividade e foco, pois a mesma tecnologia que ora se mostra vilã, se utilizada de maneira criteriosa é extremamente benéfica. Para manter a objetividade no cotidiano é preciso planejamento, o que não significa criar uma rotina engessada (até porque, imprevistos acontecem). Pelo contrário, é uma forma de encaixar todas as coisas que se deseja realizar, priorizando interesses dos mais diversos, desde aquele telefonema que se quer dar a uma amiga com quem há muito não se fala. Fazer uma agenda é um caminho. Com ela é possível programar-se com antecedência, inclusive para ter um tempo livre.

E por falar em tempo livre, este muitas vezes pode ser responsável por uma culpa imensa. Não é raro encontrar pessoas que quando não estão fazendo nada sentem-se meio estranhas. Este tipo de culpa tem que ser jogada pela janela, mesmo pelo mais ferrenho workaholic. Ter o tempo para o ócio é, ao contrário do que possa insinuar, é altamente produtivo. Sem contar que descanso e lazer são indispensáveis para o bem estar de qualquer pessoa. Ignorar estas necessidades chega a ser uma espécie de auto-sabotagem; ter momentos dedicados a si mesmo faz uma diferença brutal no equilíbrio das tensões.

Não saber gerenciar seu próprio tempo reflete de forma desastrosa na qualidade de vida do indivíduo. No livro “Comportamento Organizacional: Criando Vantagem Competitiva”, os autores discutem o fator tempo como algo  decisivo na vida moderna e categorizam seu uso de maneira interessante que vale para reflexão – “o tempo apressado e a vida saturada”, “o tempo fragmentado e a vida superficial”, “o tempo sincronizado e a vida amarrada”, “o tempo repartido e avida quebrada” e “o tempo, o consumo e a vida vazia”. Ou seja, dependendo de como se lida com o tempo em sua vida, esta sofrerá determinado tipo de consequência. Tornar-se vítima do tempo, sem respeito às suas prioridades e ao que verdadeiramente importa, lhe fará viver no automático e de modo superficial, em rota diametralmente oposta a uma vida plena e feliz.

Por tudo isso, vê-se que o tempo é um bem precioso e como tal precisa ser cuidado. Não se deve permitir que ele seja um opressor; pelo contrário deve trabalhar a favor, tendo sempre em mente sua completa relatividade.