domingo, 2 de setembro de 2012

TEMPO, TEMPO, TEMPO, TEMPO!

Alice no País das Maravilhas


A frase atribuída a Einstein diz que “falta de tempo é desculpa dos que perdem tempo por falta de método”. Para a esmagadora maioria das pessoas isto é uma verdade impossível de se reverter uma vez que esta desculpa se repete milhares de vezes. E a sensação que se tem é que se trata de um mal dos dias atuais, que se reflete principalmente nas relações interpessoais. É um tipo de delírio que não raro se tenta manter para não ter que abalar o comodismo e sair do status quo vigente. A busca por sair deste ciclo que se retroalimenta passa por reconhecer a falta de método e a primeira atitude para chegar lá é parar de dizer que não tem tempo (se de fato não resolve, já é uma assertiva que subliminarmente começa a promover a mudança).

Uma coisa que frequentemente escapa aos olhos é a existência de verdadeiros ladrões de horas. São aquelas coisas que vão tomando tempo, em geral desapercebidamente justamente por parecerem rápidas. Exemplo disto é o tempo que se desperdiça navegando a esmo pela internet ou refazendo coisas que se fez sem concentração. São todas tarefas infrutíferas que se impõem pela falta de objetividade e foco, pois a mesma tecnologia que ora se mostra vilã, se utilizada de maneira criteriosa é extremamente benéfica. Para manter a objetividade no cotidiano é preciso planejamento, o que não significa criar uma rotina engessada (até porque, imprevistos acontecem). Pelo contrário, é uma forma de encaixar todas as coisas que se deseja realizar, priorizando interesses dos mais diversos, desde aquele telefonema que se quer dar a uma amiga com quem há muito não se fala. Fazer uma agenda é um caminho. Com ela é possível programar-se com antecedência, inclusive para ter um tempo livre.

E por falar em tempo livre, este muitas vezes pode ser responsável por uma culpa imensa. Não é raro encontrar pessoas que quando não estão fazendo nada sentem-se meio estranhas. Este tipo de culpa tem que ser jogada pela janela, mesmo pelo mais ferrenho workaholic. Ter o tempo para o ócio é, ao contrário do que possa insinuar, é altamente produtivo. Sem contar que descanso e lazer são indispensáveis para o bem estar de qualquer pessoa. Ignorar estas necessidades chega a ser uma espécie de auto-sabotagem; ter momentos dedicados a si mesmo faz uma diferença brutal no equilíbrio das tensões.

Não saber gerenciar seu próprio tempo reflete de forma desastrosa na qualidade de vida do indivíduo. No livro “Comportamento Organizacional: Criando Vantagem Competitiva”, os autores discutem o fator tempo como algo  decisivo na vida moderna e categorizam seu uso de maneira interessante que vale para reflexão – “o tempo apressado e a vida saturada”, “o tempo fragmentado e a vida superficial”, “o tempo sincronizado e a vida amarrada”, “o tempo repartido e avida quebrada” e “o tempo, o consumo e a vida vazia”. Ou seja, dependendo de como se lida com o tempo em sua vida, esta sofrerá determinado tipo de consequência. Tornar-se vítima do tempo, sem respeito às suas prioridades e ao que verdadeiramente importa, lhe fará viver no automático e de modo superficial, em rota diametralmente oposta a uma vida plena e feliz.

Por tudo isso, vê-se que o tempo é um bem precioso e como tal precisa ser cuidado. Não se deve permitir que ele seja um opressor; pelo contrário deve trabalhar a favor, tendo sempre em mente sua completa relatividade.


domingo, 19 de agosto de 2012

A QUESTÃO DA PROGÊNIE


A medicina veterinária, em seu ramo da reprodução animal, trabalha com touros, grandes doadores de sêmen do gado de elite e fêmeas receptoras. São muitas as variáveis para se designar um animal como bom reprodutor e em geral isto só é sabido quando ele já está mais velho e as gerações de seus descendentes já foram avaliadas. Se este tipo de análise fosse extrapolado para a medicina humana seria ainda maior o número de variáveis estudadas e muito mais tempo para se ter gerações completas. Devaneios à parte, tentando fugir de um “admirável mundo novo”, transmitir características para a prole é certo tanto para homens quanto para touros. O que define o bom reprodutor? Para a reprodução animal é aquele que transmite para os filhos suas melhores características. Mesmo os estudos de melhoramento animal se valem da genética quantitativa, em que o fenótipo é resultado do seu genótipo expresso de acordo com o ambiente em que o indivíduo é exposto. Para humanos, transmitir qualidades psíquicas e físicas é recompensador, se ver num gesto ou numa atitude é motivo de alegria, mas constituir a prole vai além da reprodução, passa principalmente por criá-la.

Existe aquilo que parece ser da natureza da pessoa, o que às vezes se diz ter “puxado” de um dos genitores. Pode-se herdar um talento do pai ou uma habilidade da mãe que vai brotar de forma inata. Tipo de cabelo, cor da pele ou olhos, tudo que acaba por distinguir uma família da outra é importante no reconhecimento do eu, e é relevante retratar estes laços. Nada disso deve ser menosprezado pois tem sua influência no produto final, seja para touros ou para os homens.

Quando se trata de pessoas, aquilo a cerca de valores que é passado é uma preocupação, principalmente porque muita coisa se passa de forma subliminar, com exemplos e com o que sequer foi dito. Apesar de não existirem fórmulas, sempre há o senso comum a nortear nossas condutas. Nesta seara muita coisa ganha peso e é uma responsabilidade gigantesca para qualquer pai. Diferentemente de um touro prestamos conta ao futuro pelo que foi ensinado aos nossos filhos. E parece haver incessantemente uma linha tênue entre o bom e o ruim quando se trata de criar filhos; estimular a autoestima versus superestimar as qualidades, cuidado versus superproteção ou interferência excessiva nos conflitos versus ensinar a se defender. Tudo isso num mundo que continua girando e com isso gerando novos desafios a serem transpostos e novas questões a serem respondidas. As diversas disposições familiares vistas hoje, orientações sexuais mais abertamente seguidas, violência, drogas e sustentabilidade são temas obrigatoriamente presentes no cotidiano atual. Fica a sensação de que educar não é mais tão intuitivo quanto um dia pode ter sido. É preciso basear-se em conceitos nos quais de fato se acredita para poder responder aos inevitáveis questionamentos com coerência. E com o agravante de que não há espaço para experimentações inconsequentes; cada passo tem um resultado. Voltando à analogia com os touros, que bom seria se maior parte disso fosse um natural transmissão de genes, mas neste caso seríamos meramente reprodutores.

Muito do que somos é determinado pela herança genética, contudo o homem permanece produto do seu meio e este ponto nos difere dos ruminantes uma vez que temos a possibilidade de transformar o meio em que vivemos.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

AS FACES DE JORGE

Uol entretenimento


Acho que era sonho. Estava vivendo num mundo fantástico onde tudo parecia possível.

De repente me vi cercada por meninos de rua. Estranhamente não sentia medo – apesar daquele jeito um tanto aterrorizante do grupo, conseguia enxergar algo de inocente e humano naquelas figuras – afinal eram crianças. Pedro Bala, Pirulito, João Grande e Dora aos poucos foram se desvendando à minha frente. Eram fruto de uma sociedade que não sabia o que fazer com seus marginalizados e se tornaram de certa forma heróis a la Robin Hood. No reformatório aprenderam toda sorte de crueldade, mas também aprenderam a cuidar uns dos outros e talvez fosse isso que tornasse possível vê-los como meninos. Através deles pude enxergar o que ia além das paredes do meu apartamento, do quartinho das minhas filhas, da proteção do meu condomínio e dos vidros fechados do meu carro. A desigualdade social era mãe daqueles garotos, e a falta de oportunidades marcou definitivamente seus destinos. Por sorte iriam crescer e cada um tomar seu rumo, bom ou ruim, só o tempo iria dizer.

Continuei como que flutuando, mas tinha certeza que estava na Bahia e eram tempos de cacau quando ouvi pronunciar o nome de um tal Coronel Boaventura. Quem o chamava era um tal Capitão Natário, que vinha chegando com dona Zilda, Bernarda e as crianças. Aquilo me chocou um pouco, mas para os padrões da época e para a região era normal. Ali era comum se amasiar, já que não tinha Igreja nem padre, e esses arranjos de família apareciam aos bocados. Encantador mesmo eram os romances que surgiam em meio a tanta disputa de terra e lei de jagunço. Apesar das inúmeras desgraças que se abateram sobre aquelas terras; enchente, peste e invasão, a força do sertanejo sempre se fazia presente.  

E por falar em força precisei de muita para não cair naquela fofoca. Era domingo de carnaval e morrera um tal Vadinho, rebelde, irreverente e impulsivo, conhecida figura da boemia de Salvador. Dizia-se a boca pequena que sua esposa, Dona Flor, cozinheira de mão cheia, dividiria o velório do defunto com mais um sem número de amantes. A viúva oficial guardou longo luto e aos poucos voltou a se abrir para o mundo. Aí que entra Teodoro, o farmacêutico, exata antítese de Vadinho. Ainda assim contraíram matrimônio, Teodoro e Flor, pouco tempo depois de um casto  noivado. Não há como saber ao certo, mas fato é que Dona Flor passou a ver seu falecido marido e tê-lo no seu leito com Teodoro. No princípio tentou negar e reprimir, mas a coisa tornou-se tão real e irresistível que passaram a manter um casamento a três em perfeito equilíbrio (com a ressalva de que Teodoro nada sabia). Esse sim é um grande exemplo de como as diferenças podem conviver em harmonia, equilibradas por uma mulher.

Aliás, mulher é um bicho esquisito mesmo. De passagem pelo Vesúvio, ouvi por aquelas bandas a história de uma chamada Gabriela. Conta o povo que ela moça simplória e com dotes culinários invejáveis agarrou pelo coração e pelo estômago o sírio (e não turco) Nacib. O problema é que parece que não arrebatou apenas ele, e sim encheu de desejos vários senhores da cidade. O rebuliço que se seguiu na cidade de Ilhéus ressoa até hoje. Ainda mais numa terra em que a honra era lavada com sangue, como se pôde ver nas mortes dos amantes Osmundo e Sinhazinha pelas mãos do Coronel Jesuíno. Terra de mulheres fortes como a impetuosa Malvina ou a voluptuosa Maria Machadão. Terra também de disputas políticas acirradas como as que rivalizavam Ramiro Bastos e Mundinho Falcão. Tudo isso para dizer que mulher é um bicho esquisito mesmo, ou por outra, Gabriela não era mulher de se adaptar a uma vida regrada de mulher casada daquela época. Mesmo cortejada e desposada por Nacib, sucumbiu a sua natureza nos braços de Tonico Bastos. Prova de que não é de hoje que a mulher não toma cabresto.

E outra mulher avessa aos cabrestos apareceu diante de mim. Seu nome era Tieta. Vivera aventuras amorosas na juventude que escandalizaram a pequena Santana do Agreste. Acabou expulsa da cidade por seu pai, Zé Esteves, depois de ser denunciada pela irmã mais velha, a rancorosa Perpétua. Agora voltava para as areias do seu passado, rica e poderosa, causando mais uma vez rebuliço em sua cidade natal. A rotina da cidade foi transformada pela presença de sua ilustre filha, que se tornou benfeitora por sua grande generosidade. Por outro lado voltou a chocar com sua tórrida paixão por Cardo, o sobrinho seminarista. A força do feminino se revela mais uma vez, pois apesar de ser obrigada a deixar a cidade mais uma vez inesperadamente após o segredo de sua vida ser revelado, Santana do agreste jamais seria a mesma.

Eram tantas pessoas de personalidade surpreendente, criaturas com a alma tão rica e tantas histórias para contar; Quincas Berro d’água, Tereza Batista, Pedro Arcanjo, Corró, Paulo Rigger, Pedro Ticiano e tantos tipos que retratam com fidelidade, ainda nos dias de hoje, as várias faces desse nosso Brasil, da miscigenação, do cincretismo religioso, das injustiças sociais e lutas políticas. Então não era um sonho, era na verdade uma viagem na imaginação; estava lendo Jorge Amado, sempre atual, mesmo 100 anos depois de seu nascimento.

domingo, 5 de agosto de 2012

CHÁ DE SOSSEGA LEÃO COM QUIETA O FACHO



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As crianças parecem ter uma energia sem fim. Isto até que é tranquilizador, pois enquanto permanecem em ação imagina-se quer estão bem, afinal qual se não este o motivo para os pediatras sempre perguntarem – ele está ativo? Para acompanhar o ritmo delas é preciso certo esforço físico e invariavelmente se chega ao pico antes mesmo que o pequeno esboce a mínima intenção de parar.  E sempre há aquele dia em que você está a fim de dar uma relaxada, beber um vinhozinho e assistir um bom filme. Quando esse dia começa você, cônscio de seu papel, dedica um tempo às crianças, engendra toda sorte de brincadeiras, corre feito louco, até que aquele dia se transforma numa noite e a galerinha não dá nem um bocejo. E o seu vinho lá te olhando, os queijinhos exalando um delicioso aroma e o tal do filme já na metade. Não! Os “embalos de sábado à noite” não podem se acabar assim!

Começa o cerco. Primeiro a sutileza – pergunta se não quer tirar um soninho, dá um jeito de vestir o pijama e oferece aquele leitinho quente. Nada! É preciso mais ênfase. Amanhã todo mundo que ir à praia? Para tanto vão ter que acordar cedo o que equivale a dizer que terão que dormir cedo, mais precisamente agora! Que hora mais imprópria para o noticiário apresentar a previsão do tempo – fortes pancadas de chuva. E criança se apega a cada detalhe! Hora de mudar a estratégia. Chega, já está na hora de dormir, para o banheiro escovar os dentes e cama!

Depois dessa canseira quem aguenta vinho, queijo ou filminho? A noite relaxante transformou-se numa noite de sono. Pena que ainda não se pode dormir. As crianças foram para a cama, mas não dormiram – é um tal de quero fazer xixi, mais um pouquinho de leite, vamos ler uma história.  Está na hora de ser rígido, não antes daquela vozinha pedir: “dorme comigo?” Ah, pedindo assim, quem aguenta? Deita na mini-cama, se espreme bem, encolhe bastante as pernas e decide que ficar imóvel é a melhor maneira delas finalmente se entregarem aos braços de Morfeu. Apenas não contava com o rolar na cama sem conciliar o sono. Criança sofre de insônia? Who knows?

Agora só restava a arma secreta - inventei um remedinho poderoso - o chá de sossega leão com quieta o facho. Se existisse seria bastante útil, mas a simples menção desse nome tão estranho e tão sugestivo apavorou a pequena audiência. Diante da mínima possibilidade de ter que beber tal iguaria o corre-corre foi grande. Dormir tornou-se excelente refúgio. Também, a aquela altura da madrugada!



quinta-feira, 26 de julho de 2012

A DITADURA DA FELICIDADE



Vinha pensando neste assunto esta semana e fiquei ainda mais interessada quando Pedro Bial anunciou o tema do seu programa (sempre o tive na conta de repórter inteligente, ainda que tenha visto como desvio seu enveredar pelos caminhos do Big Brother). A tal ditadura da felicidade parece de fato existir (um pequena olhada nas redes sociais, por exemplo, cria a ilusão de um mundo perfeito, de pessoas que têm apenas coisas boas a dizer) e me pergunto se ela não é necessária. A angustia, às vezes patológica, que as pessoas desenvolvem ao se verem obrigados a encarar suas tristezas me parece natural. A única questão é que momentos ruins fazem parte da vida e não dá para simplesmente fingir que não existem; muitas vezes representam um rito de passagem e precisam ser vividos em sua plenitude como se numa catarse.

Ditadura significa poder absoluto, despotismo. Qualquer coisa que passe pela tirania já tem motivo para ser rechaçada, portanto levar as pessoas a sufocarem suas tristezas para não as trazerem a público é inaceitável. É preciso ficar o tempo inteiro mostrando uma felicidade como se numa eterna propaganda de margarina? As emoções tidas como negativas também impulsionam o homem - sentir raiva e rebelar-se diante de injustiças já fez grandes revoluõçes.Tem que haver espaço sim para a vida de verdade, para as pessoas de carne e osso. Não bastasse a necessidade visceral de expor algumas feridas, o ser humano ainda é capaz de ter momentos profundamente inspirados quando estão entregues a suas melancolias.

E tem mais – é possível definir o que é felicidade? Como se pode ditar regra sobre algo tão impalpável e relativo? Cada um tem sua própria noção de felicidade e constrói a sua história a seu modo. Aqui não cabem fórmulas ou receitas prontas; é totalmente sem script. Ser feliz pode ser ebulição ou calmaria, euforia ou sossego, agitação ou ócio. Pode estar em realizações pessoais ou profissionais. Pode vir suavemente ou ser fruto de grandes batalhas. Eis o seu elo com a tristeza, como face de uma mesma moeda. Afinal quem poderá dizer reconhecer o paraíso se não faz idéia do que seja o contrário.

Se é para ditar ordens, vamos exercitar a tolerância. Se é para seguir um roteiro, vamos ser mais verdadeiros. No final vale a máxima “viva e deixe viver”... e seja feliz! 

quinta-feira, 19 de julho de 2012


Vinte e cinco anos de idade, mas olhar sincero e o sorriso ingênuo revelam uma criança. De longe fita com cuidado, se a empatia for verdadeira se aproxima, caso contrário repele com fervor desconcertante. Estaria aqui ou em um lugar distante, como que sonhando acordada? Será que enxerga mais do que os simples mortais? Definitivamente há algo de enigmático por trás daquela face por vezes inexpressiva, contudo a poucos é dada a possibilidade de desvendá-lo.


De repente o passado se insinua como se fosse um filme. É possível ver aquela pessoa ao nascer, sua mãe talvez não estivesse preparada, afinal com seu bebê ia ser tudo diferente. Muniu-se da única arma possível; o amor. E juntos percorreram um caminho de muitos obstáculos e desafios, mas também de um aprendizado incomparável. O mundo lhe dizia todo o tempo que aquela pessoa pela qual se desdobrava era diferente. Diferente de quem? Quem é a perfeição de referência? Em princípio até que comprou esta história, mas com o passar dos dias percebeu que sua criança tudo podia dependendo do estímulo que lhe era dado. Tinha seu próprio ritmo, é verdade, mas alcançava seus objetivos a seu modo. Daí em diante nada segurou a dupla. É óbvio que a trajetória vai muito além da dedicação financeira para bancar terapias específicas, muitas vezes tratamentos médicos, exige um comprometimento verdadeiro, mas pensando bem, qual o pai ou mãe não precisa desta intensidade? E foi encarando a situação com naturalidade que toda a família se envolveu na criação daquele membro tão valoroso quanto os outros. Aos que insistem em rotulá-los de diferentes, esta é mais uma família que comprova: pensando bem são diferentes mesmo – diferentes na capacidade de amar sem pedir nada em troca, diferentes na sinceridade em tudo que fazem, diferentes no impacto positivo que geram em seus lares.


Alguns se referem a esta condição como o cromossomo do amor, tamanho o sentimento que aflora de seus portadores e pessoas ao seu redor. A trissomia do cromossomo 21, também conhecida como Síndrome de Down, não escolhe credo, raça ou classe social. Com ela nascem vários níveis de comprometimento físico e mental, os quais com frequência requerem tratamentos específicos. O dia-a-dia da criança portadora é certamente trabalhoso, não muito distinto das outras. Não é fácil de ser encarada, porém é um desafio recompensado diuturnamente. E eles estão por aí crescendo, adolescentes e adultos que vivem como os demais, com dilemas e incertezas. Passados vinte e cinco anos, vê-se o quanto a sociedade mudou, o quanto as questões relacionadas à inclusão são discutidas e de fato se consegue ter uma vida plena nos dias de hoje. Por outro lado vê-se que ainda há muito o que melhorar e o principal está numa mudança genuína de comportamento. Aqueles que têm filhos não portadores da síndrome tem importância enorme nesta questão à medida que ensinam o respeito às diferenças e apoiam estas iniciativas. Ganha todo mundo, pois a convivência com estas crianças abre um mundo de possibilidades. As políticas públicas para o enfrentamento da questão também precisam ser exigidas. Quando de fato abrirem-se os corações e o acolhimento for natural o enigma estará desvendado.

domingo, 8 de julho de 2012

ENQUANTO VOCÊ CRESCIA



Sabe aquilo que todo mundo repete quando se tem filhos pequenos? “Pena que crescem tão rápido!” Ouço muito isto.  Para dizer a verdade o tempo inteiro, e de tanto ouvir, introspectei desde cedo que ia aproveitar cada minutinho com as minhas crias. Esta vem sendo a prioridade número 1; na corrida do trabalho, da vida cotidiana, das incursões artísticas, dos estudos ou do lazer, o foco é nelas. Ainda assim, numa pestanejada rápida abri os olhos e me dei conta do quanto elas cresceram.


Naquela fração de segundo pensei em algo para lhe falar. Precisava desesperadamente lhe contar o que andei fazendo enquanto você crescia. Durante esses anos tentei com afinco lhe mostrar o valor da verdadeira amizade. Esforcei-me para lhe fazer discernir entre o certo e o errado. Trouxe para você a companhia dos livros pensando em lhe abrir os horizontes, e com eles a importância dos estudos para conseguir de fato ser livre. Exercitamos o poder do afago e da gentileza. Constantemente borbulha no meu peito aquelas angústias –“será que estou fazendo certo?”, “será que o resultado vai ser bom?” Na verdade o que queria mesmo era ficar grudada em você o tempo inteiro, mas a razão me impele a lhe dar as ferramentas para um caminho de autonomia e autoconfiança. Queria lhe dizer que em todos os momentos, desde aquele primeiro instante em que trocamos um olhar, desejei sempre, como toda mãe, que você fosse muito feliz. Imaginei formas de fazer isso acontecer, como se estivesse em minhas mãos. Talvez hoje já me sinta bem insegura quanto a possibilidade de tomar as rédeas do seu futuro, mas nunca descerei desse vôo cego de ave-mãe semeando flores em seu caminho. Como se a felicidade fosse um destino de viagem, pus-me a arrumar suas malas. Coloquei nela vários nãos que lhe disse ao longo do tempo para que aprendesse a ter limites; muito sim também porque a vida tem que lhe sorrir; um tanto de fé em Deus para você ter certeza de que nada lhe faltará; retidão de caráter para seguir em frente com integridade; bons exemplos para ter sempre uma referência; respeito ao próximo para buscar viver em harmonia; e claro, enchi todos os cantinhos com o mais genuíno amor que lhe declaro todos os dias. Com isso, apesar de não garantir uma viagem sem turbulências, sei que vai ser capaz de enfrentar qualquer desafio, principalmente o de construir o que você queira chamar felicidade.


E por falar em felicidade, para a minha própria, constato que vi bem o tempo passar, acompanhando de perto cada progresso na vida destas que me são tão caras, fitando com toda força o reloginho da vida na vã esperança de fazê-lo andar mais devagar. Luta inglória, esta! Já que você tem que crescer, quero assistir, não de camarote, pois mãe que é mãe cai na pista.

terça-feira, 26 de junho de 2012

HABILIDADES MANUAIS



Já pensou em fazer algo você mesmo? Colocar as mãos na massa como se diz por aí? Pois é, muita gente diz não possuir habilidades manuais, mas tenho pensado que tudo depende do estímulo.

A psicomotricidade é estudada há muito tempo. Sabe-se que durante o desenvolvimento da criança as habilidades vão sendo adquiridas aos poucos e que a qualidade e velocidade deste aprendizado estão diretamente relacionados aos estímulos externos. No contexto da educação infantil isto está atrelado a oferecer diversidade de experimentações, sejam elas sonoras, táteis ou visuais. Já na escolha do quarto do bebê se pode promover um ambiente enriquecedor, seguindo-se para a escolha dos brinquedos e utensílios. É através da motricidade que a criança descobre o mundo. Alguns autores postulam que a educação psicomotora condiciona o processo de alfabetização pois leva a criança a tomar consciência do seu corpo, da lateralidade, a situar-se no espaço, dominar seu tempo e adquirir coordenação dos seus gestos e movimentos. Para a alfabetização a educação psicomotora é muito importante uma vez que ajuda na concentração e na distinção entre letras e sílabas (Molinari e Sens, 2002).

Ao chegar na vida adulta a maioria de nós desenvolveu o básico, ficando aqueles premiados criativos com uma habilidade manual incrível, capazes de transformar coisas às vezes simples e sem graça em pequenas obras de arte. Estes aí estão no topo da pirâmide, têm o que se costuma chamar de jeito para as coisas. Aos demais não resta apenas o desespero – é possível, com estímulo certo, fazer coisas bacanas. A necessidade também costuma ser um incentivo forte. As mulheres, em especial conseguem adquirir estas habilidades mesmo quando não lhe são inatas, talvez por um pouco mais de paciência e detalhismo do que a maioria dos homens. Outro dia uma amiga disse: "deixa eu ter um filho que vocês vão ver se eu não fao um monte de coisinhas!" Engraçado é que a maternidade é mesmo muito estimulante. São quartinhos decorados com primor, roupinhas originais e toda sorte de badulaques. se for mãe de menina, aí a imaginação corre solta.  Daí a sair inventando convites de aniversário, decorando mesas de guloseimas e criando as mais criativas lembrancinhas é um pulo.

Tudo isso para dizer que não existe ninguém incapaz de realizar. E produzir algo fruto de sua capacidade de criar é uma sensação maravilhosa. Então, mãos à obra! 

domingo, 17 de junho de 2012

SUSTENTABILIDADE – O QUE VOCÊ TEM COM ISSO?


Nesta semana em que ocorre a Rio+20, conferência mundial sobre o meio ambiente, que leva esse nome por seguir o racional da conferência intitulada Eco92 (ocorrida também no Rio de Janeiro há 20 anos), borbulham discussões sobre as questões ambientais e temas correlacionados. Dentre estes, o tema sustentabilidade é sempre recorrente, às vezes parecendo algo bem distante, conversa de ecochato ou ecoxiita, ou até mesmo palavrório governamental sem conteúdo. Deste ponto a questionar o que de fato cada indivíduo tem com isso é um pulo. Talvez esse seja o ponto crucial para toda e qualquer mudança: conhecimento. E o questionamento é de onde se origina todo conhecimento.

O termo sustentabilidade foi alcunhado pela primeira vez em 1987 pela norueguesa Gro Brundtland, e é descrito como “suprir as necessidades do presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprirem as próprias necessidades.” Equivale a dizer que o uso dos recursos naturais para a satisfação de necessidades do presente não pode comprometer as gerações futuras, por isso, mais do que nunca, pensar em sustentabilidade é pensar nos filhos e netos, pois o aumento da população mundial e com ela o consumo exagerado, faz com que efeitos deste mal uso de recursos naturais chega cada vez mais precocemente. E não há como apostar que se trata de falácia. Aos olhos de todos está a escassez de água, os racionamentos de energia elétrica e as mudanças climáticas. A sustentabilidade se faz com três pilares; o social, o ambiental e o econômico, e portanto não adianta pender radicalmente para um deles; é preciso que os três convivam em harmonia e lucrem com as ações para que estas sejam consideradas sustentáveis. Conclui-se então que não se trata de uma guerra entre os setores citados, querer barrar o desenvolvimento das economias mundiais, e sim planejar-se para fazê-lo de maneira a manter o equilíbrio entre as partes.

Vinte anos se passaram e muita coisa não saiu do papel, muito ficou apenas no campo das idéias, mas a mentalidade das pessoas com certeza mudou, e hoje mais e mais cidadãos comuns se preocupam com as questões do meio ambiente em sua vida cotidiana. Ações concretas podem não ter acontecido no volume e velocidade desejados, contudo percebe-se um movimento francamente positivo, a exemplo do Código Florestal brasileiro, que a parte as controvérsias e polêmicas, além do jogo de interesses, revela uma mudança genuína de pensamento. Houve recente campanha que ficou conhecida como “Veta , Dilma!”, para tentar sensibilizar o poder público a vetar questões que foram modificadas na câmara, o que para os militantes ambientalistas viria a favorecer enormemente os latifundiários. Depois de passar pelo gabinete da Presidência da República algumas coisas foram de fato vetadas, não se alcançou a satisfação de todos os segmentos, mas enfim é um documento. Firma compromisso com um tema urgente. O site g1.com.br publicou recentemente diagrama a seguir, bastante esclarecedor do que representa este código florestal e do que foi vetado pela Presidência da República.







Quando se fala no uso dos recursos naturais com responsabilidade refere-se a preservar a biodiversidade e os ecossistemas naturais. Segundo o engenheiro escocês Michael Shaw, “o pico do uso do petróleo está nos levando a uma cultura de sustentabilidade, na energia, na produção de comida, nos transportes e na forma com lidamos com nossos resíduos”. Esta cultura, se introspectada, fará cada indivíduo mudar seu modo de agir, desde dentro dos lares até o consumo consciente, passando por exigir de seus legisladores e governantes tal tipo de compromisso. Atitudes como fechar as torneiras enquanto escova os dentes ou se ensaboa, apagar as luzes dos cômodos que não estão sendo usados, trocar lâmpadas incandescentes por fluorescentes (são um pouco mais caras, mas têm maior durabilidade e economizam até 60 % de energia), verificar o consumo o baixo de energia dos eletrodomésticos, dá destino correto ao lixo, pilhas e baterias de celulares, verificar a procedência daquilo que compra (usar papel reciclado e objetos de madeira de reflorestamento são formas de diminuir a necessidade de extração de recursos naturais) e racionalizar o seu transporte são formas de dar uma contribuição individual ao processo.

Além desse manejo do uso direto dos recursos naturais através da racionalização dos mesmos, há um ponto delicado nos dias de hoje, de consumo desenfreado; o consumo consciente. O Instituto Arayara, que mantém um portal com sugestões para se pensar a sustentabilidade (http://www.sustentabilidade.org.br), destaca importante trecho sobre este tópico -  “a sustentabilidade está relacionada aos modelos dos sistemas de produção e de mercado, que respondem livremente às demandas da sociedade. Havendo procura, haverá oferta. Portanto, as escolhas do consumidor podem definir um caminho na direção de um modelo que devasta o meio ambiente e gera desigualdade social ou de um modelo mais harmônico com as leis da vida. Poucos se dão conta desta relação sistêmica e de sua responsabilidade individual na hora de escolher um produto qualquer”. 

Está respondido o que você tem com isso? 


segunda-feira, 11 de junho de 2012

E AGORA, O QUE DIZER?


Todo mundo repete que criar não é fácil. No dia-a-dia você até que percebe o quão delicada é a missão, mas existem aquelas situações emblemáticas em que você tem que se posicionar e tal posição vai servir de referência crucial para seu filho. Exemplo disso é quando outra criança bate em seu filho. Não tem como não ficar chateado. Primeiro impulso depois de acalentar o seu é saber o que os pais do outro fizeram para coibir. Depois de saber as versões dos fatos, visto que o seu estava inocente na história, você se pergunta se está criando alguém demasiado pacato e que poderá virar um “saco de pancadas”. E agora, o que dizer?

Há muito tempo, mas talvez ainda mais nos dias atuais, a violência é uma preocupação para pais e educadores. A cultura da não-violência figura como importante pilar nas estratégias contra a criminalidade por entender que fomentar uma relação interpessoal pacífica é fator fundamental nesta busca. Tal cenário torna no mínimo delicada a tarefa de ensinar os filhos a se defenderem das agressões físicas que possam vir a sofrer.

Ensinar uma criança a se defender passa por aspectos diversos relacionados à sua postura diante dos seus pares, e inclui as situações de agressão física. Esta questão remete aos casos denominados atualmente como bullying, e levanta a dúvida sobre sua ocorrência caso as vítimas estivessem mais preparadas. Trata-se de autoconfiança e autoestima elevados, coisas que podem e devem ser estimuladas em casa. Muito antes de focar na situação concreta de defender-se de uma agressão, deve-se focar na aceitação das diferenças, nas possibilidades de convivência harmoniosa com as outras crianças, de não ser o agente da violência. Ainda vale a máxima de que violência gera violência, portanto deve-se deixar bastante claro que é melhor privilegiar o diálogo em detrimento de sair para o ataque. Por outro lado é importante ensinar a criança que ninguém tem o direito de agredí-la física ou moralmente, e consequentemente ensiná-la como se comportar se isso acontecer. Se defender não quer dizer tornar-se um valentão ou espancador, e sim evitar ser agredido, saber se colocar. Esse diálogo entre pais e filhos exige cautela porque corre-se o risco de apenas incitar mais violência. Para as crianças menores, que por todo tempo estarão sob supervisão de um adulto pronto a intervir, poderá ser mais fácil aprender a se impor verbalmente, deixando claro que não aceita dada agressão. A resposta do outro é uma forma de colocar limite, e o adulto precisa mostrar que existem consequências para tais atos. A forma como o adulto lida com situações semelhantes vai falar muito mais alto do que qualquer discurso vazio. 


No dilema em questão a resposta depende de cada situação particular, nível de agressão, frequencia com que ela acontece e idade das crianças. É preciso ficar atento a comportamentos repetidos e ciclos viciosos. Muitas atitudes podem ser tomadas: orientar a o"oferecr a outra face", orientar a não revidar e deixar claro que a situação o incomoda e é inaceitável (apenas o discurso funciona ou o coleguinha só será reprimido sabendo que ali não vai achar moleza?)Quem sabe o caminho do meio – se coloque contrário à agressão, não resolva seus problemas na base da violência, mas se te atacarem revide? (tipo “dou um boi para não entrar numa briga, mas uma boiada para não sair dela”). Resta trazer a pergunta de volta: e agora, o que dizer?