sexta-feira, 4 de abril de 2014

EINSTEIN, NÓS E O TEMPO



Recentemente li reportagem sobre foco. Como mote para a história toda estava o lançamento do livro do psicólogo americano Daniel Goleman. Conhecido pelo best seller  Inteligência  Emocional, o autor, Ph.D. pela Universidade de Harvard, no livro intulado Foco, postula que estamos diante de uma geração sem foco. Pensar em foco me remete imediatamente à questão tempo.

Falta de tempo deve ser a reclamação que mais ouço, tanto pessoal quanto profissionalmente.  Há alguns anos abandonei esta queixa desde que fui apresentada à frase atribuída a Albert Einstein: “falta de tempo é desculpa daqueles que perdem tempo por falta de método”. E de forma intuitiva sempre percebi uma simbiose entre o citado método e o foco, de forma que tê-los ambos possibilita ter o tão sonhado tempo. Talvez o reflexo disto esteja labuta de tentar ser ora multiinteressada e ora multitarefa, em geral um misto das duas. A verdade é que muitas vezes nos perdemos na correria do cotidiano, e encontrar o foco, manter um método e conquistar tempo parece impossível. Ainda mais nos dias atuais, em que tudo é tão urgente, em que tantas coisas nos dispersam. O mundo vai girando numa velocidade tal que os interesses e as áreas a que supostamente temos que dar atenção se multiplicam em progressão geométrica. A tecnologia e o excesso de informações são grandes vilões nesta história, sobretudo por não sabermos fazer um uso racional deles. Por que responder uma mensagem de celular é tão urgente que preciso teclar enquanto dirijo? Por que ficar de olho pregado no celular é mais importante do que interagir com quem está do meu lado em carne e osso? Se libertar destas amarras com certeza é um exercício muitas vezes penoso, contudo é um caminho que precisamos trilhar cedo ou tarde, sob pena de emburrecer interna e externamente.

Para as novas gerações esta falta de foco é ainda mais evidente. Todos os textos são muito longos, todas as palavras podem ser abreviadas e estar com todos estando com ninguém é um hábito. É óbvio que o contrário também danoso. A atenção extrema, estar todo o tempo ligado gera tensão e ansiedade, além de restringir a visão do mundo. Imaginar que se pode multiplicar as horas do dia é uma fonte de esgotamento mental e físico.  Fundamental aqui, como em tudo, é a busca pelo equilíbrio, e esse é o nosso verdadeiro desafio. Fatalmente recaio sobre a nossa responsabilidade como pais e educadores para restabelecer-lhes um senso de prioridades. Desde pequenas coisas como parar um tempo e ouvir uma boa música ou ler um bom livro, até concentrar-se nos estudos, planejar uma carreira, passando por dar valor a estar com as pessoas ao vivo e a cores. É uma espécie de treinamento em que se elenca as coisas por prioridade para conseguir alcança-las todas a seu tempo.


Manter o foco, segundo o autor, depende de manter momentos de reflexão, concentrar-se nos diversos aprendizados de forma a sedimentá-los.  Foco é uma habilidade muito mais ampla do que à primeira vista parece; engloba a esfera interna de cada um, a capacidade de concentração apesar do que nos rodeia; a esfera externa que é a capacidade de ler o ambiente e perceber o terreno onde estamos; e a esfera empática, aquela voltada para o outro, a forma como nos relacionamos com nossos pares. Conseguir sustentar estes pilares é tarefa para se construir todos os dias, exercitar. E é o que nos possibilita  seguir motivados, cumprir metas pessoais e obter bons resultados em tudo que nos envolva.


sábado, 8 de março de 2014

RECOLHENDO AS CINZAS





Nestes dias de cinzas vejo meu amigo homossexual. Na folia de Momo ele se realizou. Sentiu-se livre bailando sua cabeleira importada, seus cílios postiços e sua mais nova boca carmim. Estava feliz em mostrar sem pudores seu feminino, afinal nesta festa tudo é meio que permitido. Não se pode dizer  que passou por aí tão docemente incólume; há sempre os olhares que o fazem lembrar algum nível de inadequação, por mais que ele próprio já tenha em si muitas destas questões resolvidas.  Apesar e acima de tudo segue em frente, aproveitando o anonimato. A festa se vai  e ele se despe daquela exuberância projetada e volta ao seu cotidiano de batalhar cada centímetro de ser quem é.

Nestes dias de cinzas vejo outro amigo homossexual. Não se monta no carnaval, pelo contrário sempre se traja como um homem comum. Passou as festas numa praia, isolado com seu companheiro. No dia-a-dia não se revelam um casal. Preferem se preservar, não se mostrar é uma espécie de escudo. Temem ser julgados e segregados.  Não recrimino; é mesmo difícil encarar o tom de reprovação, ser agredido por atitudes e repreensões subliminares. Também segue no anonimato. E volta ao seu cotidiano, se protegendo do jeito que entende ser o melhor, o que não deixa de ser uma batalha.

Falar em homofobia não é retórica. Ao lado de outros tipos de segregações que tanto presenciamos, ela aprisiona de uma forma muito cruel. Vai de um extremo a outro, desde a simples falta de aceitação até assassinatos em nome de uma pseudomoral. Estes dias carnavalescos são bem libertários para alguns;  abertamente ou por trás de máscaras e fantasias. Pena que ainda sofrem demais com sua condição, seja qual for a forma que escolham se relacionar com a sociedade. Para o mundo heterossexual são desde um modo de vida diverso até anomalia genética; sua condição é explicada desde como fruto do ambiente até como psicopatologia. Difícil encontrar seu lugar, mesmo nas coisas mais sutis, mesmo nos que em princípio aceitam. Ou você nunca ouviu “que seja homossexual, mas não me paquere”, “tudo bem desde que não seja um filho meu”, “beije, mas não na minha frente”. Nessa seara não se trata de gostar ou não. Trata-se de aceitar o outro. E cada vez mais este assunto vai ter que frequentar nosso almoço de domingo, com uma explicação coerente para nossas crianças, que certamente vai muito além do binômio normal/anormal.

Queria apenas falar de coisas alegres.  Fico a me perguntar se isso é possível. O mundo é cheio de imperfeições e nós seguimos sobrevivendo muitas vezes em meio a uma realidade absolutamente caótica. E a crua realidade se apresenta a quem quiser ver. O primeiro amigo apanhou de uns garotos “muito machos” na volta para casa, ofendidos que estavam pela simples presença do outro. O segundo amigo voltou para casa sem ser agredido fisicamente, mas sufocou seus gestos de carinho para o companheiro e evitou os vizinhos na garagem do prédio. Ambos violentados, cada um à sua maneira.

Lamento. Isso não é suficiente. Levanto minha escrita mais uma vez como arma. Ainda que uma gota nesse imenso oceano. Espero realmente não me permitir intolerâncias. E que isso contagie quem me rodeia. Quem sabe assim não precise abrir o jornal e ler a notícia de um pai que mata o filho a pauladas porque ele tinha um “jeitinho”. E não precise ver esse ou aquele amigo homossexual recolhendo as cinzas.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

BODAS - VOTUM - PROMESSA



Estava lendo sobre o significado das representações que se criou para as bodas de casamento. A palavra boda vem do latim votum e significa promessa. A promessa da união matrimonial, do “até que a morte nos separe”. Primeiramente é bom se saber que há imensa controvérsia em se designar autoria a essa inventividade. A lista de nomes varia um pouco, e as mais conhecidas são a de prata, que representa 25 anos de união e a de ouro que representa 50 anos. Parece haver uma lógica em que se denomina os anos iniciais com materiais mais frágeis ou menos nobres, e isso vá aumentando conforme o passar da idade do casamento. Fato é que criaram nome para tudo, desde  um ano (bodas de palpel) , até chegar cem anos, nas “bodas de jequitibá”.

As comemorações também vão mudando com o tempo. Os casais dos primeiros anos o fazem a dois, de forma íntima e romanceada até que com as bodas de “mais peso” as festividades se voltam para toda a família e a sociedade. Não estranhamente isso vem ao encontro das transformações que a própria relação inevitavelmente sofre, sinais do tempo e da maturidade. E não precisa passar muito tempo para as transformações ocorrerem, as pessoas vão mesmo mudando o foco de suas vidas, para muitos chegam as crianças e o significado do casamento ganha outro tom, sendo elas extensão do mesmo.


Isso faz pensar em quais são as coisas que mantém os casais juntos. Há uma lista de atitudes tidas como positivas para a longevidade do relacionamento a dois, com certeza sem unanimidade, mas os laços de amor ainda são o fiel dessa balança. Estar atento ao outro, se doar, sempre serão armas poderosas nesta batalha diária que é preservar o casamento. Os psicólogos costumam quebrar um pouco do romance nessa hora e dizem que o pilar maior que sustenta os casamentos longevos é a amizade. O que não significa o sepultamento do amor, muito pelo contrário; nesta amizade conjugal o amor poderá manter-se pleno. Trata-se de conhecer o outro, saber o que se quer apenas num olhar, cultivar a admiração mútua, ser um porto seguro para seu par. Tudo uma construção diária que requer boas doses de afeto, vontade e paciência. E como diria o poetinha, "de tudo ao meu amor serei atento...quero vivê-lo em cada vão momento...que seja eterno enquanto dure"! Quem sabe assim o casamento cresce com a força da prata, a resistência do ouro e a longevidade do jequitibá. 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

SHAKESPEARE NA CABECEIRA



A leitura é um prazer imenso e é em si um hábito, como tal podendo ser cultivado. Para crianças pequenas isso é especialmente verdade. Dependendo do que lhe seja apresentado, e como, desde muito cedo, os livros podem se tornar companheiros de toda vida. Já são conhecidos os benefícios pedagógicos da leitura; pessoas que costumam ler melhoram seu raciocínio, seu senso crítico, escrevem melhor, enriquecem culturalmente, aumentam o vocabulário, além da leitura ajudar a fixar a grafia das palavras, aproximando da escrita e trazendo melhor desempenho escolar. São atributos fundamentais e fazem a diferença na fase de alfabetização. Há ainda os benefícios lúdicos; crianças que tem esse contato íntimo e livre com os livros viajam na imaginação e desenvolvem a criatividade. A importância da literatura na educação infantil é tão grande que já foi alvo de diversos estudos que trouxeram os citados benefícios, além de benefícios ao desempenho profissional na vida adulta. Um estudo da americana National Children´s Reading Foundation afirma que para crianças de 0 a 5 anos, cada ano ouvindo histórias e folheando livros equivale a 50 mil dólares a mais em sua futura renda.

Existe uma variedade enorme de temas na literatura infantil, muitas formas de abordagem podem vir da nossa vivência com as crianças. Não é tarefa fácil, é importante compreender o universo da criança, sua maturidade, o que sua faixa etária permite compreender. Pode parecer complicado competir com tantos brinquedos cheios de recursos e cada vez mais lúdicos, mas o incentivo é eficaz, mostrando que cada livro é um mundo de possibilidades. E como tudo em educação, nada mais eficiente nessa tarefa que o exemplo. Pais que costumam ler e mostram uma relação gostosa com os livros passam para as crianças naturalmente. Mas se você não tem a literatura como hábito (sempre é tempo de corrigir), dando livre acesso aos livros já estará fazendo um grande trabalho. A autora Simone Tinti listou algumas dicas para estimular a leitura em casa; o primeiro – e principal – passo é dar o exemplo. Tenha livros em casa e, o mais importante: leia com (e para) a criança. Vá com as crianças a espaços culturais,  onde sempre há eventos relacionados ao universo literário, como contações ou peças de teatro adaptadas de livros. Em bibliotecas e livrarias, ao invés de deixar a meninada sozinha explorando as prateleiras, ajude a escolher as obras mais adequadas e leia as histórias. Aproveite a ocasião para ensinar que é preciso cuidar do livro – ou seja, que não vale rasgar, amassar ou rabiscar as páginas. Em casa, deixe os livros em locais de fácil acesso para o seu filho. Vale ter exemplares na caixa de brinquedos, na banheira e no berço (e não só na estante). Não basta apenas deixar os livros à vista das crianças. Os pais precisam fazer a ponte, criar o interesse, ser o mediador nessa relação.

Um investimento lucrativo em todos os sentidos, o incentivo a leitura está enormemente a cargo dos pais. Desde fomentá-la até a guiá-la em termos de qualidade. É uma preocupação que deve estar na pauta do dia-a-dia com nossos filhos, de maneira suave, confortável, natural e prazerosa. Vários são os relatos dos grandes escritores, de como os livros entraram em sua vida, de como lidavam com eles na infância. Não posso saber se minha filha vai se embrenhar pelo mundo das artes, ou se um dia vai contar a história de como Shakespeare veio parar em sua cabeceira, mas posso relatar agora eu mesma, par ficar registrado e para servir de estímulo aos outros pais. Sempre valorizamos os benefícios amplos da leitura e tentamos estimulá-la. Sempre ouvi o quanto nosso papel de pais era o fiel dessa balança. Sempre acreditei na importância de gastar um tempo produtivo com seu filho; não interessando que seja um tempo curto, mas que estejamos lá inteiros. Recentemente vivemos, minha filha e eu, um processo sutil, tateado, que resultou num entusiasmo enorme por parte dela que está sendo muito gratificante.  Assistíamos um programa infantil em que se falava da história de Romeu e Julieta. Notei o interesse da pequena (nessa idade elas já estão românticas), e contei de onde a história havia surgido, quem era Shakespeare e que inclusive tíamos em casa livros desse autor. Fiquei até altas horas lendo para ela e um já foi pra cabeceira. Amei demais! Que bom que estávamos juntas naquele momento, que bom que deixei minha série favorita no outro aparelho, que bom que exercitei essa nossa capacidade de estar atento aos filhos. Ser mãe/pai é isso!

domingo, 5 de janeiro de 2014

A AGENDA



Primeira semana do ano. Um hábito que se repete há anos mais uma vez foi posto em prática. Ela acariciou a capa onde se lia 2014, pensando que um novo ciclo estava se iniciando, que seria uma nova chance de consertar velhos erros, um momento para iniciar novos projetos. Riu de si mesma por se deixar tomar por esta sensação irresistível todos os anos; a de que o mundo para no 31 de dezembro à espera do ano seguinte, como se de fato fragmentasse todas as coisas. Abriu a agenda na página dos calendários, deu uma checada nos feriados, já fez uns planos por alto de pequenas viagens que daria pra fazer, viu em que dia da semana cairiam as festas do fim de ano e lá estava ela escrevendo os planos para os próximos doze meses. 

Agora escrever os planos de janeiro; ainda dá tempo de desejar “Feliz Ano Novo” para alguns amigos, é preciso refazer a planilha de gastos e começar com as contas em dia, alguns impostos, refazer o contrato do aluguel, material da escola das crianças e dar as férias da babá. Era tanta coisa, que  decidiu ir vivendo mais aos poucos, sem esquecer dos planos a longo prazo, os quais saiu pontuando na agenda. Precisava anotar mais momentos para estar com a família, um tempo para si, pôr a leitura em dia. O ócio pode ser produtivo e curativo; então mais lazer na sua agenda, sem se importar com o calendário. Foi marcando as datas de aniversário da família e amigos; pensar nas pessoas e com uma simples ligação lhes dizer o quanto são importantes vale muito. Lembrou-se de mudar a forma de lidar com certos problemas, tentaria ser mais condescendente com os erros alheios. Marcou um almoço com colegas de escola que não via há anos. Muito importante cultivar as velhas amizades e manter os laços com quem se gosta. Colocou que em fevereiro, um mês tão curto, daria umas pinceladas domésticas como arrumar o armário de roupas da família, o de brinquedos e outras coisa que se vai acumulando meio compulsivamente, e no final doar o que ainda puder ser usado. Foi deixando papel e caneta de lado; existem aquelas coisas que saltam ao coração e não dão tempo a planejar. Desde pequenas coisas, como correr para o jardim a tempo de tomar um banho de mangueira com as crianças. Hora certa para recordar-se de que a felicidade é um estado imaginário e que nós mesmos o construímos, escrevendo dia após dia.

E a vida segue assim, como uma agenda a ser preparada. Alguns compromissos anteriores precisam ser mantidos, acordos a serem honrados, contas a pagar, trabalho e obrigações, mas há muito espaço para mudanças na trajetória. Tudo depende da forma como se encara o que nos chega. Um olhar otimista e corajoso muda completamente a percepção do que é problema e do que é solução. Ganhar esse novo fôlego é algo positivo, alavanca novas empreitadas e enche de ânimo. É uma espécie de psicoterapia coletiva, com resultados visíveis. Resta aprender como prorrogar essa energia e transformá-la em conquistas reais.

domingo, 22 de dezembro de 2013

A ORDEM NATURAL DAS COISAS

Atendi uma senhorinha, passada alguns anos dos oitenta. Nem parecia ter tal idade. O semblante era tranquilo, mas o olhar denunciava uma tristeza profunda. Apesar disso estava animada com a chegada do Natal e sentenciou de saída que a vida é ir tocando em frente – como diz a canção; “penso que seguir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente”.

A tal senhorinha chegou dizendo que precisava ver o coração, se estava forte ainda, depois de tanto tempo. Comecei a fazer o exame e enquanto isso procedia minha anamnese para ajudar num possível diagnóstico. Enquanto via imagens de um paciente saudável, até surpreendentemente normal para aquela idade, e transmitia a boa notícia ela seguia contando sua história.

Já foi logo dizendo que o coração só parecia normal. Que o visto por fora nem de longe exprimia o que ia lá por dentro. Dizia carregar no peito um sofrimento tão imenso que por vezes sentia estar para explodir. Existem coisas na vida que marcam tão profundamente que mesmo com o passar dos anos não é possível apagar. Pode ser que a cicatriz vá ficando menos profunda, mas desaparecer é um luxo inatingível. E foi assim que a senhorinha me contou que existe uma ordem natural das coisas e que subvertê-la é ruim e em geral injusto. Há um fluxo natural que se perturba facilmente, é verdade, mas há também uma incapacidade humana de controlá-lo, ainda que na maior parte da nossa existência ostentemos a ilusão de fazê-lo. Ao longo de suas mais de oito décadas havia experimentado aquela sensação de ter o chão desaparecendo sob seus pés diversas vezes. O estranho (ou maravilhoso) é que nem por isso estava imune a novas tormentas, não tinha blindagem contra o sofrimento e vivia sempre os acontecimentos de uma forma diferente, com um olhar pueril. É bem verdade que a longa experiência de vida lhe facultava uma forte dose de resiliência, mas ainda assim sentia o impacto. Foi dessa forma quando o filho mais novo morreu em seus braços, de uma doença, segundo ela, de velho. Como é que podia aquilo? Os pais verem o filho partir. Definitivamente não é natural. E não importa quantos outros filhos se tenha, quantos anos se passe, para ela é como se tivesse sido ontem, na mente e na pele.

Eu, tão pequenininha naquela hora, reduzida diante da maturidade daquela senhorinha, daquela narrativa que tanto apertava meu coração de mãe, o que tinha a dizer? Desapareceu a cardiologista, ficou ali simplesmente a mulher, me agarrando nos meus mantras íntimos pessoais para alento nas horas difíceis “andar com fé pois a fé não costuma falhar”; “o senhor é meu pastor e nada me falta”. Não posso e nem me atrevo a imaginar que dor é essa de perder um filho, e permanecer de pé, a despeito de amargá-la (sem  contudo  se tornar amarga) todos os dias. É um dos encantos da minha profissão de lidar com gente e se deixar tocar por elas e por seus relatos de vida. E que força desse ser que passei a admirar em poucos minutos, se alegrando com o Natal, ressaltando que é o momento em que mais sente alívio de suas próprias dores por saber que tantos já passaram por dores piores e renasceram de alguma forma, que no fundo tudo tem um propósito.

Pensei tanta coisa para confortá-la, porém no final quem me confortou foi ela – “sabe aquela canção, minha filha, ela continua; ‘cada um de nós compõe a sua história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz’”. 

domingo, 8 de dezembro de 2013

MULHERES EM ALERTA




Um grupo de humoristas de Mumbai, o “All India Bakchod”, lançou este vídeo após um estupro coletivo na Índia ano passado. Na época as velhas proposições de culpabilidade da vítima foram ditas por pessoas importantes no país, o que suscitou muitos protestos. O vídeo usa a ironia para refutar estas opiniões conservadoras, as quais mostram que estupro não é apenas uma violência interpessoal, mais que isso, um tipo de crime com cunho social. Parece coisa lá da distante e populosa Índia, com uma cultura que escancaradamente coloca a mulher em segundo plano, mas é um problema em todo o mundo.

Há cerca de dois anos, após o estupro seguido de morte de uma garota canadense, houve uma declaração cretina de um policial: “parem de se vestir como vadias”. Este episódio deu origem à chamada “Marcha das vadias” que saiu de Toronto para o mundo. O manifesto tocava justamente num ponto que talvez ande por aí no inconsciente coletivo; o de que a mulher talvez tivesse provocado o criminoso, com o uso de determinadas roupas e determinadas atitudes, negando-se todos eles. Nada justifica a violência sexual.

Aqui no Brasil também pudemos testemunhar nossas “pérolas”, como em outubro passado quando do estupro de uma jovem catarinense. Um dos policiais no caso, diga-se de passagem uma mulher, deu dicas de como evitar um estupro;  se mora sozinha, evitar chegar sempre no mesmo horário, fazer caminhos diferentes todos os dias, enfim tentar driblar o marginal.  Apesar de bem intencionadas, estas dicas dão força à idéia de que o crime possa ser evitado pela vítima. Corroboram uma noção de que a potencial vítima poderia ter evitado a violência sexual, motivo pelo qual muitas mulheres deixam de denunciar as agressões. Posicionamentos assim são antigos; desde muito pequenas as mulheres são orientadas a não se expor para não dar espaço a abusos e assédios. De qualquer modo são baseadas na análise da vitimologia e fazem parte das estratégias para prevenção e alerta da população.  Nesse cenário entram diversas questões, muitas reverberadas por autoridades policiais, como culpabilizar a vítima, focar prevenção nela própria, a forma como a mulher ainda é vitimada pelo domínio do homem, aceitar que existam em nosso convívio criaturas capazes de tamanha atrocidade. Retratam o despreparo das autoridades em tratar um tipo de crime tão delicado, muitas vezes praticados por pessoas da família ou muito próximas.

Recentemente estatísticas do 7º Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que em todo o País foram registrados 50,6 mil casos, o correspondente a 26,1 estupros por grupo de 100 mil habitantes. Em 2011, a taxa era de 22,1. O número de estupros é maior que o de homicídios dolosos no período. Reflete, é claro, o maior número de denúncias, em virtude da conscientização popular e das políticas públicas (hoje, com status de ministério, existe a Secretaria de Políticas para as Mulheres), a mudança no código penal que abrange o que deva-se chamar estupro (depois da Lei Maria da Penha qualquer ato libidinoso, mesmo sem conjunção carnal, é considerado estupro), mas ainda são números altíssimos.

Um crime com consequências tão devastadoras nos põe em alerta. Mais uma forma de violência contra a mulher, numa sociedade que padece de tantos tipos de violência. Estranhamente vai na contra-mão da história da humanidade em que mulheres se destacam cada vez mais em diversos papéis, ou por outra, é fruto da guerra dos sexos. Sejam quais forem as motivações, é difícil apontar soluções, mas certamente começam do reconhecimento do problema e perpassam pelo acolhimento das vítimas, lhes afastando a culpa e com isso estimulando as denúncias. Apenas a partir daí os criminosos poderão ser julgados, sendo impedidos de cometer novos crimes, além de coibir potenciais criminosos que muito se influenciam pela crença na impunidade.

domingo, 24 de novembro de 2013

PEDOCRACIA????



Recentemente a psicanalista Márcia Neder, professora e pesquisadora da USP e autora de livros como “Mãe desnecessária”, alcunhou a expressão pedocracia para dar nome ao que ela chamou de reinado mirim, a ditadura das crianças. A autora descorreu sobre o assunto em seu mais novo livro; “Déspotas mirins”, e usa o termo para descrever a mudança de mãos do poder nas famílias atuais, que está frequentemente depositado nas mãos das crianças.

Com o termo pedocracia ela não se refere aos pequenos caprichos, manhas e birras das crianças. Se refere a toda uma cultura em torno da criança, a uma certa idolatria, a uma busca de reconhecimento em que os pais passaram a achar que precisam dar sempre mais bens materiais, pequenas recompensas, sentindo-se sempre em dívida, numa inversão de valores em que não se estabelece claramente quem é o adulto na relação. A autora atribui essas mudanças às novas constelações familiares em que o pai perdeu aquele papel de único provedor ( do lacaniano “declínio da função paterna”) e a mãe saiu de casa para o mercado de trabalho, gerando uma “culpa” pela ausência que acabou sendo compensada pela permissividade, pondo o poder nas mãos dos filhos. Tal explicação de forma alguma encerra a questão; existem vários outros matizes nessa cartela de cores. Paralelo às ditas famílias tradicionais, surgiram famílias monoparentais e homoafetivas, que coloca a criança numa posição em que teoricamente requer uma atenção redobrada, tornando-a o centro do tal poder.

Um outro aspecto é a questão de querer ser amigo e acessível ao filho. Parece que mudou realmente o foco na relação entre pais e filhos. Os pais hoje querem ser amados e aprovados. As famílias de antigamente não tinham isso, os pais queriam obediência, eram seres absolutamente distanciados, o que não acho bom. Por outro lado esses pais eram obedecidos apenas no levantar de uma sombrancelha, dificilmente questionado e com maior possibilidade de manter o controle sobre a educação da criança. A grande vocação das gerações seguintes, no que se refere ao comportamento familiar foi se aproximar dos filhos, desejar dar ao filho tudo que não teve, inclusive não repetir o comportamento dos próprios pais, contudo o que se nota hoje é que por vezes se perdeu o equilíbrio. E de fato é uma linha tênue. Já me peguei em conversar com minhas filhas dizendo “sou sua amiga, mas não sou sua amiguinha”. Elaborar uma explicação pertinente, e convincente, para essa assertiva não é fácil, nem mesmo para um adulto.

Há algo ainda apontado como fator neste cenário, que me toca profundamente, que é a idealização da maternidade. O ideal daquela que abre mão de tudo pelo filho, em torno do qual sua vida gira. Isto vem da nossa natureza, do dom de gerar a vida e da missão de cuidar dela. Embarcar nessa viagem parece natural, o único caminho já que os trouxemos ao mundo, contudo é também uma grande cilada na medida em que abdicamos de nossa vida pessoal. Continuo achando que filhos são prioridade, mas não são a única. Acertar a mão aqui, mais uma vez equilibrar, é imperativo. Ser sim paizão e mãezona, mas se permitir espaço, ter objetivos além da paternidade, ter objetivos em outras áreas. Para nós mulheres é dilema conhecido; não queremos abrir mão da “multimulher”, nem perder a alegria das múltiplas realizações, de conciliar nosso universo interior com família e trabalho. Para os homens talvez seja tudo muito novo, o que à sua maneira também redefine a educação das crianças. E tem nessa idealização o desejo de sempre acertar, não poder perder a cabeça de vez em quando, estar sempre se cobrando. É preciso compreender que tudo faz parte do aprendizado, é possível, mais que isso, humano, errar. A contrapartida é saber reconhecer e voltar atrás.

As cartas estão postas na mesa. Nos compete usá-las da melhor maneira possível. De maneira diferente das relações políticas numa democracia, em que a alternância de poder é bem vinda, na relação com os filhos o poder precisa estar firme em algum lugar, na mão do adulto, servindo como esteio para margear até onde eles podem ir. Eu pessoalmente sou muito do diálogo, acho que se deve dar explicações, mas tudo isso até a página dois. Se a coisa se alonga e meninada resiste, recebe um “é assim e pronto; quem manda sou eu”. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A ARTE DE DIZER NÃO





Nunca queria lhe dizer um NÃO. Até sabia, em teoria, que o NÃO é uma forma de educar e dar limites, mas na hora H, tal qual Takotsubo, meu coração se contorcia...Aff! Que estresse. Ficava imaginando o quanto te amo e não te quero ver sofrer, no quanto você é maravilhosa pra mim e merece tudo de melhor, no quanto a vida ainda vai dizer NÃO então para quê impingir sofrimento desnecessário. Afinal por você faço qualquer coisa. No fundo agradar você parecia a coisa sempre certa.

Apesar dessa sensação tão forte dentro do meu peito, seguia me agarrando ao bom senso de que você realmente precisa de limites para saber até onde pode ir, para saber onde termina seu espaço e começa o do outro, para crescer um ser humano íntegro e com valores. E repetidamente lá estava eu dizendo NÃO pensando SIM. E  mais, com certeza de que tudo era para o seu benefício. E sempre escolhia um NÃO carinhoso, sustentado por justificativas à altura de sua inteligência de criança, firme e acolhedor. Você nunca soube, mas era questão de tempo; se você resistisse um pouco mais estava frequentemente a ponto de ceder. Felizmente segui resistindo. É óbvio que devo ter derrapado algumas vezes, mas fazendo uma retrospectiva acho que foram pequenos e aceitáveis lapsos que não comprometem nosso produto final que é você um ser humano de quem possa se orgulhar e valha a pena.


É verdade que essa resistência de lhe dizer um NÃO ainda me ronda. Verdade seja dita; prefiro se puder ser um SIM.  Mas no dia em que fiquei apavorada com sua reação (mantendo a pose, é claro), trilhei mais uma vez a cartilha de explicar as razões com carinho, acolher suas possíveis recusas e lhe mostrar que estava com você acima de tudo. Esperei uma tempestade e você apenas disse “está bem, mamãe”. Foi o bastante para reconhecer nosso pacto selado muito tempo antes. E acabou sendo você a me ensinar a deixar de ter medo.  Entendi, finalmente, que no fundo você também sabia que o NÃO era necessário e até queria tê-lo para formar sua próprias referências. Concluí que dizer NÃO é uma arte.

domingo, 27 de outubro de 2013

FRANCAMENTE



Fico olhando as relações dos dias de hoje, parecendo que tudo perdeu o encanto. As novas possibilidades tecnológicas nascidas com as redes sociais são bem um retrato disso. É realmente incrível poder reatar contato com pessoas que estão do outro lado do mundo, ao mesmo tempo em que frequentemente é uma grande perda deixar o “tèt a tèt” com quem está ali a poucos passos. O resultado final desta equação muitas vezes é um distanciamento em que a franqueza acaba em segundo plano. Neste ponto vem a pergunta: relações de tamanha superficialidade toleram verdades? Já dizia o poeta Cazuza; mentiras sinceras me interessam. As pessoas em geral não querem saber da verdade, não querem respostas cruas, querem é ser agradadas, e muitas vezes ser agradado passa por ouvir verdades escamoteadas, travestidas de algum pacto subliminar defensivo.

Ser franco a respeito de determinado assunto, dependendo da situação, pode realmente ser um tipo de autosabotagem. Imagine no ambiente hostil das relações de trabalho você dizer abertamente ao seu superior o que acha de sua pretensa boa gestão. Deve ter sido de situações como esta que surgiu a expressão “sincericídio”. A franqueza pode ainda passar por grosseria. O que responder a uma noiva sobre o seu vestido, à beira do altar? Talvez tenhamos que aceitar o fato de que existem mentiras socialmente aceitas, e até bem vindas. Fora que se convive com as mentiras deslavadas e com o mau-caratismo. Aí é um cenário aterrador. De tantas meias verdades se constroem imensos castelos que desabam no primeiro sopro. Parece como se houvessem diversos universos paralelos ou se vivesse numa bola de sabão. Tudo tremendamente frágil onde se transita com total insegurança. Contra essa sensação tão angustiante vale a pena privilegiar a franqueza, poder sentir confiança no outro, cultivar as boas amizades e o amor entre as pessoas. Sob pena de soar piegas, é isto que nos alicerça, nos proteje e torna possível viver nesse mundo. Quero continuar crendo que há uma mágica em se viver e que ainda há lugar sim, para seguir francamente. Lembrei da letra do Rappa, na canção Auto-reverse; “nós estamos na linha do tiro, caçando os dias em horas vazias, vizinhos do cão, mas sempre rindo e cantando, nunca em vão”.


Vamos em frente com esperança, afinal dizer a verdade torna honesta uma relação, e ainda que eventualmente traga danos colaterais, será sempre o melhor caminho. A intenção que existe por trás das palavras pesa muito mais do que as palavras em si. E fique certo de que quando esta intenção é boa, e as palavras são ditas de maneira cuidadosa, a franqueza é absolutamente positiva, algo em que devemos sempre apostar.