domingo, 30 de outubro de 2011

UMA PERGUNTA, UMA RESPOSTA?


Existe maneira de se preparar para um adeus? Me refiro àquela despedida para muitos definitiva, mas que dependendo da crença religiosa que se pratique poderá significar um até breve. Me é um tema recorrente, inclusive já esboçado em textos anteriores. Será que é possível entender as questões envolvidas com este momento, manter-se sereno e inevitavelmente aceitar? A psiquiatria costuma introduzir cinco estágios até que se consiga alcançar a aceitação, os quais se iniciam justo pela negação. Então, se há possibilidade de preparação, é natural que ela parta de um certo engasgo pela impotência, até por isso, temo não haver resposta a esta pergunta.

“A morte é para quem fica”, diz o ditado popular. Significa dizer que diante da morte do outro teremos que lidar com os sentimentos muitas vezes conflituosos e com as reflexões que acabam por nos levar a pensar nossa própria morte. A certeza da finitude humana poderá ser mais ou menos dura em virtude do nível de autoconhecimento de cada pessoa, do modo como nos inserimos em nossa sociedade (este ponto fica bastante claro quando se observa o modo com que os orientais entendem a morte e o morrer) e obviamente o tipo de relação que se estabeleceu com a materialidade. Elaborar este momento requer tempo, é um processo gradativo e diferenciado a cada estágio da vida, além de ser influenciado pelas circunstâncias da morte. A Medicina Paliativa é um ramo da medicina que ajuda muito a internalizar questões relativas a esta partida. Embora se dedique fundamentalmente ao paciente tido como terminal, com os quais se pode vivenciar um período de morte eminente, seus patamares se adequam a uma tentativa de preparação pois esta última envolve enormemente os momentos que se viveu com o ente querido, o quanto de energia se investiu naquela relação e até que ponto se pode dizer que nada deixou de ser dito. 

Findo sem resposta, intimamente reconheço-a como negativa, contudo penso que cada um tem suas verdades e vivencia a mesma questão de forma distinta. O que parece ser consenso (se algum senso for possível) é que no final o que resta são as lembranças. As boas lembranças são capazes de apaziguar as dores e são construídas numa convivência plena de afeto, em que se vive cada dia dando o melhor de si, principalmente para aquelas pessoas queridas cuja partida lhe será cara.  Manoel Bandeira escreveu sobre a preparação para a morte; “a vida é um milagre ... e a morte o fim de todos os milagres” – quero crer ser possível reiventar o fim do poema.

domingo, 23 de outubro de 2011

NOSSO DIA ROSA




Em meio às várias atribuições do seu dia-a-dia de multimulher dê uma pausa para propagar o Outubro Rosa. Trata-se de um movimento mundial que começou em 1997 nos Estados Unidos motivado pela necessidade de chamar a atenção da sociedade e dos poderes públicos para o diagnóstico precoce do câncer de mama. Há uma ênfase na questão da disponibilidade da mamografia e o nome remete ao laço rosa, símbolo da campanha, que tem como marca principal a iluminação de monumentos com esta cor – como a Torre de Pisa na Itália, a Opera House na Austrália e o Arco do Triunfo na França. O Brasil passou a fazer parte desta mobilização em 2002, e várias cidades já “vestiram” seus monumentos de rosa, a exemplo do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, Farol da Barra em Salvador e Monumento aos Bandeirantes em São Paulo.

O câncer de mama é o segundo mais frequente no mundo, de acordo com informações do INCA (Instituto do Câncer – RJ), o mais comum entre as mulheres e se diagnosticado precocemente apresenta um prognóstico  relativamente bom. Ainda segundo a entidade, no Brasil a mortalidade pelo câncer de mama permanece alta muito provavelmente pelo diagnóstico em estágios mais avançados. A prevenção primária não é possível dada a variação genética que se dá como fenômeno nas neoplasias, mas como é frequente, cabe o rastreamento, portanto o foco no diagnóstico precoce é vital.

O ponto alto das manifestações é no dia 28 de Outubro, quando, em sinal de conscientização, vamos todas vestir rosa. A campanha une instituições do terceiro setor e poder público, visando não só a citada conscientização, bem como angariar fundos para pesquisa. Há um grande número de eventos nas diversas cidades do país, cuja participação popular é fundamental para produzir o eco necessário para  se aumente a divulgação dos cuidados preventivos, a disponibilidade da mamografia para um maior número de mulheres e dos tratamentos, além de apoio aos portadores. É uma questão de se cuidar - começa no auto-exame, que faz parte das ações educativas, mas que de forma imprescindível  se extende para o atendimento por profissionais de saúde e realização de exames de rotina. É também um convite às mulheres para que separem este dia para si próprias; nosso Dia Rosa.
  

sábado, 15 de outubro de 2011

PROFESSOR, TRANSFORMEI O MUNDO!

Conto n° 3


O primeiro dia do Professor naquela escola foi agitado. Tudo novo para ele e para os alunos. Ele, recém-formado, havia escolhido lecionar contra tudo e contra todos; pensava que a educação era a área mais importante do conhecimento e que nela poderia fazer a diferença. Os alunos desbravavam a entrada no ensino fundamental, onde tudo agora precisava ser levado a sério, distante dos tempos da educação infantil.

Nosso Professor queria mesmo conquistar a turma, e isso não foi fácil. Cada cabecinha daquela vinha de uma história, a maioria de gente pobre, sem muitas possibilidades. Naquele ano letivo aprenderiam a importância do estudo na vida deles. Foi tão intensa sua dedicação àquelas crianças, procurando passar não apenas o que havia na grade curricular, mas principalmente como viver em sociedade e a tornar-se um ser humano íntegro. Era comum vê-los em atividades fora da sala de aula, com grande foco no incentivo às artes, sobretudo a leitura. 

Para um aluno em especial aquilo tudo gerou transformações importantes. Aprendeu com aquele mestre que o mundo era muito maior do que as estreitas ruas de sua cidade natal; descobriu que os livros lhe podiam proporcionar viagens bem ao longe e que era possível tornar sonhos realidade. Ver o crescimento daquela menino foi realmente gratificante, desde o seu interesse pelas disciplinas, passando pela liderança que exercia com seu carisma, até vê-lo ingressar no movimento estudantil. Em um salto o ativismo político surgiu à sua frente e frequentemente se referia em seus discursos às conversas que tivera no passado com aquele Professor. Foi talentoso e atuante como parlamentar até galgar cargos no executivo. Do alto de seu prestígio encampou lutas sociais importantes e passou a ser referência quando se tratava de direitos civis. Tornou-se um cidadão   a quem todos admiravam, um formador de opiniões responsável e cônscio de seu papel na sociedade.

Hoje foram as eleições presidenciais. aquele garoto foi eleito, o que equivale a dizer que se trata de um dos homens mais influentes do mundo. De origem humilde, procedente de um reduto onde a violência imperava e cujo destino parecia estar traçado, encontrou em sua vida instrumentos um indivíduo de raros conhecimento e retidão. Pôde então reescrever um caminho vitorioso e deslanchar todo o seu potencial. 

No final foi a mão daquele professor lá atrás que plantou tão preciosa semente, e aquele garoto poderia tranquilamente dizer: "Professor, transformei o mundo!"



*Inspirado em todos os mestre que "matam um leão por dia" para tocar seu ofício, em especial minha Dinda Julieta que sempre exerceu a profissão de professora com dedicação.

domingo, 9 de outubro de 2011

FELICIDADE ÀS NOSSAS CRIANÇAS

                                          Toda Criança Quer - Palavra Cantada

Datas comemorativas, em que pese o apelo comercial embutido na sua grande parte, são momentos de reflexão. O Dia das Crianças, dia de Nossa Senhora Aparecida, considerada padroeira do Brasil, excelente oportunidade para pensar na construção da  felicidade que se deseja a elas.


No hábito de dar presentes nesta data se encerra o tal apelo comercial, despejando em todos os meios de comunicação centenas de brinquedos de todos os tipos (e não importa que se esteja no reduto dos canais por assinatura). São novidades que encantam até adultos, de forma que os pequenos tornam-se alvos fáceis. Para os adultos resta uma sensação de que são reféns, e muitas vezes com um certo prazer já que as crianças iluminam o olhar quando recebem o tão sonhado presente. Se não é possível trilhar caminhos à margem de costumes tão enraizados em nossa sociedade, pode-se usá-los em favor de um jeito diferente de criar nossas crianças, priorizando o ser em detrimento do ter.

Trata-se de uma tarefa árdua nos tempos de hoje, pois, como diria Saramago, “a humanidade esqueceu-se de ser porque ser dá trabalho, demanda pensamento, dúvida”. Tudo é tão acelerado, com a informação correndo nas ondas da internet e o consumo crescendo de maneira tão voraz. Parar um pouco para estimular habilidades pessoais de caráter cognitivo é como nadar na contra-corrente; ensinar que todos somos iguais, que a beleza vai além do exterior que se vê, que é importante se colocar no lugar do outro, a importância da cooperação e viver a vida com paixão. Não se trata de pregar o eremitismo de total desprendimento, até porque as crianças precisam estar preparadas para o futuro, com conhecimentos e vivências para alcançar seus objetivos. É importante dar acesso às coisas instigantes e interessantes, falar outras línguas, conhecer lugares e refinar o gosto. A questão é manter em primeiro plano valores como amor, respeito, lealdade e amizade. Este tipo de educação, que forja o ser humano íntegro, precisa estar acima da corrida (lícita, diga-se de passagem) para torná-los competitivos na vida.  

Pequenas atitudes já modificam a forma de viver esta época, seja estimulando a doar brinquedos que já não usam, seja ensinando a não ser perdulário, mostrando o valor do dinheiro e orientando a escolha consciente do que consumir. Requer tempo e persistência, requer exemplo, o que atinge cada pai e cada mãe que comunga de desejos de felicidades para suas crianças.  Então, que em mais esse Doze de Outubro se consiga mais que dar os presentes, estar presente. Que estar presente signifique caminhar junto e construir alicerces sólidos para adultos plenos.

domingo, 2 de outubro de 2011

DE VOLTA AO DIÁRIO DA MULTIMULHER



Querido diário,


Estou tentando tirar as fraldas de minha filha. Como convém a uma multimulher, misturo os vários interesses e trago influencias de uma área da vida para a outra, atuando agora como a “mãe baseada em evidências”. 


Primeiro os livros – especialistas dizem que há um melhor momento para se fazer esta mudança. Por volta dos dois anos (é agora!), a criança já adquire autonomia do ponto de vista físico; já anda e poderá ir ao banheiro quando der vontade, já fala e saberá sinalizar quando esta chegar. É nessa faixa etária que, dizem os urologistas, a maturidade fisiológica possibilita que a criança de fato possa segurar um pouco, sinalizar e (tudo na sequencia!) ir ao banheiro. A psicologia infantil diz que essa época é variável entre uma criança e outra (já sei que uma não é igual à outra, não mesmo!), mas que para nós pais uma das manifestações é que a criança se mostra incomodada com a fralda suja (ih, estou achando que ela não está nem aí!). Todas as publicações concordam que a retirada das fraldas é um marco na história da criança, e que a retirada muito precoce ou muito tardia poderá trazer danos psicológicos e orgânicos. Interessante que os estudiosos americanos, acompanhando as tendências daquela sociedade, orientam a retirada das fraldas por volta de um ano de idade (justificativas passam pela competitividade, pela ida a creche, dentre outros), é uma questão de condicionamento. Neste aspecto os livros também versam sobre a ida para a escola, que quando mais cedo ajuda a sair das fraldas mais facilmente. Um ponto a se pensar; alguns autores citam que muitas vezes é a mãe que não está pronta para retirar a fralda, pois esta passagem significa mais uma ruptura dos pequenos rumo à autonomia. Independente disto a saída das fraldas vai acontecer mais cedo ou mais tarde, mas é preciso trabalhar esta questão, de forma individualizada, para que a criança se insira bem no grupo etário, seja na escola ou entre os amigos. De acordo com um estudo publicado no Jornal de Urologia Pediátrica (o americano JPU) o momento ideal para começar o treinamento é entre 24 e 32 meses de idade, e este é mais importante do que a estratégia adotada (desfraldar muito cedo só aumentará o trabalho, já que a criança vai demorar mesmo e fazê-lo muito tarde pode trazer os prejuízos já mencionados). 

Está tudo muito bom, mas mesmo com todas essas informações ainda falta aquele passo a passo, afinal na hora de por tudo em prática é que vemos como é. Então fui atrás das revistas do ramo (tudo bem são em geral superficiais, mas o assunto também não é tão profundo assim). Os títulos das reportagens são sempre surpreendentemente animadores – “como retirar as fraldas em três passos”, “descomplicando a hora de tirar a fralda”, “dez conselhos para a hora de tirar as fraldas” – tudo fácil. Os periódicos também relatam que se deve perceber se o filho está pronto, ou seja, já tem motricidade e pode falar, sempre referem que a melhor época para retirar as fraldas é no verão, pois a criança faz menos xixi e estará usando menos roupas na hora dos inevitáveis acidentes. Outra orientação é de apresentar o banheiro, o papel higiênico, dar descarga, enfim, ensinar tudo, com a possibilidade da criança escolher se quer um vaso (com redutor) ou troninho. Aconselham ainda que o treinamento vai exigir paciência (obviamente a fralda não vai sair no primeiro dia) e todos que cuidam da criança devem ser envolvidos no processo. A criança deverá ter acesso ao vaso na hora que tiver vontade e permanecer sentada o quanto quiser. Todas são taxativas: não brigue se não der certo, não obrigue, não tenha pressa. Estas atitudes podem fazer a criança prender cocô e xixi para não ter que passar pelo estresse. Vale usar técnicas como abrir torneira, massagear a barriga e sentar ao lado da criança. O melhor caminho é retirar inicialmente a fralda do dia (começando pela manhã) e depois começar o treino para a noite (provavelmente será necessário acordá-la em algum momento da noite). No final sempre dizem que se o uso das fraldas perdurar muito além dos quatro anos, consulte um especialista. Nesta garimpagem achei também blogs bem interessantes, como o da Terapeuta Ocupacional Ariela Goldstein, que faz um trabalho muito bonito na área pediátrica (http://topediatrica.blogspot.com) e o Equilibrium, um Centro de Psicologia (http://equilibri1.blogspot.com/) – vale a pena dar uma olhada. 

Tanta informação prática, contudo nada se compara ao seu corpo a corpo – criança, vaso e você! O que a multimulher mais tem é dilema de mãe. Minha filha mais velha aos quatro anos já não usa fralda, o que me dá grande esperança. Ainda assim, como previamente comentado, uma criança é diferente da outra, de forma que de saída a situação foi outra; a pequena demorou mais para se incomodar com o que fazia na fralda, então dei uma esperada. Comecei explicando todo o ritual no banheiro, não me deu grande importância. Segui em frente deixando só de calcinha pela manhã; depois de várias molhações, a encrenca foi no vaso; o redutor herdado foi deixado de canto – a pequenininha tem pavor a ele (e olhe que é pink). Dei mais uma esperada. Agora decidi usar minha experiência pessoal, ser intuitiva, chega de teorias! Comprei um troninho colorido musical (desta vez vai!). Ela amou o novo “brinquedinho”, tanto que toda vez que a levo ao banheiro ela corre feliz na minha frente, liga a musiquinha e começa a dançar em volta! Socooooooooorro!

sábado, 1 de outubro de 2011

ANIVERSARIANTES DO MÊS DE OUTUBRO

Aproveitando a balada Rock in Rio deste instante..



Kisses!!!!!

Artur Celso
Clarissa
Vania
Ali
Cristiane
Leitinho
Léo
Camila
Luiz
Dinda Rosa

domingo, 25 de setembro de 2011

I have a dream




Estou na aula das crianças. Mergulho nos meus pensamentos e de repente parece que tudo parou à minha volta. Consigo enxergar as pessoas e realizo, talvez ainda espantada, quem está lá – um grupo de crianças acompanhadas de seus pais e suas babás, estas últimas todas negras. Inclusive a das minhas filhas. Por que o espanto? Será que andei vivendo numa bolha onde a discriminação não chegava? Ou comprei a história de que somos uma terra sem racismo de tanto passar por cima daquele olhar vacilante que perguntava “quem é a médica?” Minha cabeça rodou tanto que senti uma vertigem; as diferenças sociais brasileiras ali estampadas, apenas mais uma comprovação de que para a igualdade racial ainda temos muito o que caminhar.

No Brasil há um racismo historicamente construído que é responsável por uma profunda desigualdade sócio-racial, à parte as condições de pobreza geral. É de se reconhecer que a forma como fomos colonizados e como se forjou nossa sociedade resultou na exclusão de negros e indígenas, levando a um frágil exercício da cidadania. Nitidamente este cenário vem mudando em virtude da ampliação dos debates sobre as desigualdades e da globalização de um modo amplo, que vem proporcionando mais acesso das minorias e por consequência maior grau de exigência. Do ponto de vista institucional a participação do Brasil na III Conferência Mundial de combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata (promovida pela ONU) desencadeou uma série de ações, dentre elas a criação da Secretária Nacional de Promoção da Igualdade Racial que tem status de ministério. Ainda assim, mesmo com uma melhora generalizada nos indicadores de saúde e educação, a distância entre brancos, negros e índios é muito grande.

Alguns pregam que dicotomizar a sociedade assim seria uma forma de discriminação, dividindo a população pela raça, uma questão já superada. Infelizmente ainda não superamos, tanto que nem o maior nível de escolaridade atingido por negros e pardos, segundo últimas pesquisas do IBGE, foi capaz de reduzir as diferenças salariais em relação aos tidos como brancos. O cruzamento dos indicadores de classe e raça torna evidente a concentração de pobreza no grupo de mulheres negras.  Reafirma-se, portanto, a necessidade de se intensificar políticas públicas que recuperem e assegurem a dignidade de grande parte da população brasileira. As iniciativas privadas também têm seu papel no estabelecimento do que se pode chamar reparação de um débito histórico. A implementação destas políticas engloba diversos aspectos como o apoio às comunidades remanescentes quilombolas, desenvolvimento e inclusão social, produção do conhecimento e ações afirmativas.

É importante pontuar o que são as ações afirmativas cunhadas localmente pelo Estado, que são medidas especiais e temporárias com o objetivo de eliminar desigualdades historicamente acumuladas e compensar perdas provocadas pela discriminação e marginalização, decorrentes de motivos étnicos, raciais, religiosos ou de gênero. A expressão teve origem nos Estados Unidos na década de 1960, momento em que os norte-americanos viviam um movimento pelos direitos civis cuja bandeira central era a extensão da igualdade de oportunidades a todos, quando começam a ser eliminadas leis segregacionistas até aquele momento vigentes. O movimento negro surgiu como uma das principais forças atuantes, com apoio de liberais e progressistas brancos, unidos por uma ampla defesa de direitos. As Ações Afirmativas sintetizam a necessidade de o Estado não apenas garantir leis, mas também assumir uma postura ativa para a melhoria das condições do grupo em questão (sim, pois hoje há Políticas Afirmativas ao redor do mundo, e o grupo alvo varia  de acordo com a sociedade local). As Ações Afirmativas além de serem ações de suporte e incentivo (como criação de cursos para afro-descendentes ou pessoas oriundas do ensino público), parecem inserir a chamada discriminação positiva; esta normatiza o tratamento desigual dos formalmente iguais (como a reserva de vagas em cargos públicos para deficientes), considerado como uma implementação da igualdade material. A política de cotas para afro-descendentes nas universidades públicas é apenas um dos fatores desta equação, aparentemente o mais polêmico.

Polêmicas à parte, claramente há uma necessidade de crescermos na questão racial no Brasil. Por vezes soa deslocado erguer estas bandeiras num país tão miscigenado quanto o nosso, mas focando um pouco o olhar é possível ver exemplos de exclusão a todo momento. Continuar na sombra da discriminação velada é a maneira mais lenta de se atingir o objetivo maior que é eliminar estas desigualdades. Passo importante é falar abertamente com nossos pares e encontrar juntos uma forma de conviver mais igualitária, em todos os sentidos. Então me desvencilho do meu transe, quase uma catarse, e me coloco como mais uma voz nesta luta. 

sábado, 17 de setembro de 2011

PRECONCEITO



É muito comum assistirmos cenas de discriminação explícita ou velada. Nossa sociedade costuma ser reacionária e padronizar comportamentos. Aqueles que estão de alguma forma fora do padrão são segregados, mesmo nos dias de hoje, tempos de globalização e de avanços científicos impressionantes. Diversas situações com que nos deparamos estão impregnadas por atitudes hostis baseadas em juízos preconcebidos e generalizações que não levam em conta as pessoas individualmente. Atitudes assim definem o que é preconceito, traço milenar da humanidade.

Quando se fala em preconceito surge uma sensação desagradável e desconcertante. Estranhamente algo tão incômodo persiste através das gerações. O psicólogo de Harvard Gordon Allport, famoso por seus estudos sobre a natureza do preconceito, mencionava a influencia de traços de personalidade na gênese do mesmo, mas estudos recentes dão conta de que o preconceito é algo histórica e socialmente construído; não resulta de processos biológicos, e sim de crenças específicas nascidas na sociedade para equacionar as diferenças. Aliás, a diferença talvez possa ser o símbolo maior nesta questão, já que é justamente na tentativa de lidar com o diferente que surgem os preconceitos. A Psicologia Social aponta estas condutas como adaptativas do ser humano, o qual tenta simplificar sua visão de mundo categorizando as pessoas, criando estereótipos.  A palavra estereótipo vem do grego stereos, que significa rígido e túpos, que significa traço. Há alguns séculos se referia a um processo de impressão e passou a ser utilizada na década de 1920, pelo jornalista americano Walter Lippman, para referir-se ao modo como as pessoas aplicam o mesmo caráter à impressão que têm de determinados grupos de indivíduos. Criar estereótipos pode ser um atalho necessário, porém pode ser uma armadilha quando generalizações incorretas rotulam fortemente as pessoas e não permitem que as mesmas sejam enxergadas através de suas características próprias.

O preconceito pode manifestar-se de diversas formas, desde as mais agressivas que são vistas “à olho nu” até àquela coisa velada, rasteira, que contamina sem mesmo percebermos. O que os psicólogos costumam dizer é que a atitude preconceituosa engloba, além dos componentes comportamentais e cognitivos, o afeto, e que o tipo dominante deste não é o ódio, como poderia se supor, mas o desconforto e a ambivalência que gera o afastamento. Trata-se da estranheza que o diferente provoca, resultando em comportamento de repulsa, ainda que subliminarmente. Da maneira que é colocado pela literatura, a sensação é de que comportamentos assim são inexoráveis ao ser humano, portanto deles não se pode fugir. Um rasgo de esperança neste contexto vem das teorias da psicóloga D.G. Devine que criou os termos ativação automática e ativação controlada dos estereótipos. Segundo a autora, já que grande parte dos estereótipos são disseminados em nossa cultura, eles vêm à mente de forma instantânea, o que seria a ativação automática. Nesta hora entra o bom senso e o livre arbítrio para que, refletindo conscientemente sobre a imagem automaticamente gerada, reavaliemos a impressão inicial e não prossigamos com a discriminação (ativação controlada).  

Quero crer que como seres pensantes possamos fugir destas grades culturalmente impostas e passemos a um outro patamar de convivência com o diferente. A diversidade precisa ser entendida e aceita como fonte de crescimento, e a melhor estratégia para tal é se abrir ao outro, tentando ver além das convenções. E se a distância de fato for intransponível, viva e deixe viver.


domingo, 11 de setembro de 2011

ESPELHO, ESPELHO MEU!




Aqueles que têm filhos sabem; cada dia é um novo dia em que as crianças aprendem algo. Podem ser importantes lições de vida, ou pequenas coisas do cotidiano – para eles é sempre uma descoberta. Os pais, mesmo os mais distraídos, se impressionam com a capacidade de absorver as coisas e com tamanha rapidez. Os mais desavisados poderão achar que seu filho é uma espécie diferenciada, mas criança é tudo assim – um HD vazio, uma esponjinha – todos ávidos por novos conhecimentos, ainda que muitos de fato tenham talentos especiais. Este aprendizado obviamente passa por quem educa e chega um ponto em que você se vê refletido naquela criança. Muitas vezes me peguei admirando o jeito das meninas sorrirem que é idêntico ao meu, a forma como se perdem nos próprios pensamentos como o pai. Ver-se naquela pessoinha te enche de orgulho, porém vem estampar no seu rosto o tamanho da responsabilidade. Mais tarde será a sua vez de ter o filho como exemplo, ouvir suas opiniões e seguir seus conselhos, e nesse momento você terá a sensação de dever cumprido.


A responsabilidade se apresenta porque nesta relação é comum que as crianças pequenas repitam os comportamentos dos pais e os perpetuem para a vida adulta. Basta olhar para o lado e verá aquela criança educada, cortês, que desenvolve valores fundamentais para viver em sociedade filha de pais que assim se comportam e dão importância a isto no seu dia-a-dia. Do outro lado poderá presenciar também crianças agressivas, que discriminam outras crianças e não têm noção do espaço do próximo, educadas por adultos que levam uma vida exatamente assim. Até aqui observa-se o quanto é importante manter a coerência; condutas ambivalentes enviam mensagens truncadas para as crianças gerando uma sensação de insegurança.  O mundo mudou e mudou junto com ele a forma educar, o que passar para os filhos. Antigamente para uma mulher ser considerada bem criada ela tinha que estar afeita às prendas domésticas e estar preparada para o casamento. Hoje o casamento é uma opção, preparar sua filha para o mercado de trabalho é tão importante quanto preparar seu filho e desenvolvimento sustentável é um tema que veio para a mesa do café da manhã. O acesso que uma criança tem atualmente a informação multiplicou os porquês e aumentou o grau de exigência das respostas.

Certa atenção deve ser dada para que uma troca tão saudável não se transforme em algo patológico, movimento que na psiquiatria freudiana poderiam chamar de transferência e contratransferência. Desejar que o filho seja à sua imagem e semelhança, que siga todas as suas escolhas, por mais bem intencionado que seja, cedo ou tarde será fonte de conflitos. Estes vínculos precisam ser bem trabalhados para que sirvam de base sólida para o crescimento dos filhos e não uma eterna fonte de cobrança. A boa notícia é que a própria psiquiatria, em sua vertente psicanalítica comportamental,  compreende esse fenômeno como positivo e importante para a terapia, o que pode ser extrapolado para o desenvolvimento humano. Servir de espelho para outro é uma forma eficiente de educar e é o que lhe concede o aspecto intuitivo.


Caminhar por esta estrada muitas vezes íngreme requer comprometimento. Assumir o papel tão precioso de educar não significa saber tudo, mas significa estar atento e pronto para aprender. Uma das formas é, seguindo o exemplo dos pequenos ao desbravarem o mundo a cada dia, manter o coração e a mente abertos, afinal você pode estar apenas engatinhando nesta arte de criar gente.

ANIVERSARIANTES DO MÊS DE SETEMBRO


PARABÉNS!


Karoline Flora
Thayse Vale
Cláudio Jupi
Claudinha
Luiz André
Wilson Moreira
Marcelo
Amilton
Camila Burgos
Clarissa