sexta-feira, 29 de abril de 2011

ERA UMA VEZ...



Nestes tempos de tanta violência e notícias catastróficas, acaba surgindo um sentimento de angústia meio que coletiva. Mães jogando recém-nascidos no lixo, adolescentes entrando armados nas escolas, violência contra a mulher (fiquei chocada com uma reportagem sobre um homem que arrancou a bochecha da ex-namorada), homofobia (leiam excelente texto de Leandro Fortes http://brasiliaeuvi.wordpress.com/2011/04/19/a-trincheira-de-jean-wyllys/ ) e toda a sorte de agressão interpessoal e intolerância. As pessoas se perguntam o que o destino reserva para esse mundo louco, para seus filhos, enfim, para a humanidade em geral. É nesta hora que se respira fundo e se encontra motivos para seguir em frente.   

Ver o mundo através dos olhos de uma criança é a melhor forma de enxergar o que a vida tem de mais maravilhoso. Um destes momentos estou vivenciando agora ao lado da pequena Catarina, encantada que está por ver príncipes e princesas de carne e osso. Nesta ocasião o mundo faz uma pausa para o conto de fadas – Príncipe William e Kate Middleton se casam. Naturalmente é uma pausa para o sonho; para se pensar que é possível ser feliz para sempre, que existe sim magia nesta existência e que vale a pena manter um sorriso no rosto.

Talvez toda a tradição revivida hoje na Abadia de Westminster deva servir como estímulo para lembrarmos que existem valores que jamais devem ser abandonados, fundamentais para que caminhemos com respeito e retidão. Que a pontualidade britânica também seja bem vinda, em tudo; nos compromissos e nas promessas.  Que a euforia do povo britânico seja um exemplo de como se pode renovar as esperanças em qualquer situação.

Não deixa de ser um momento em sintonia com nosso tempo, em que as mulheres não são mais “amélias”, mas ainda lutam por direitos a conquistar, revelado na subtração do juramento de obediência ao marido pela noiva real. Representa a mulher de hoje, antenada, independente e segura de si e apesar de não receber o título, aos olhos do mundo é uma princesa, e como tal faz parte de uma elite e influencia milhares de garotas por onde quer que vá. Sintonia também por ser um destaque da diversidade, em que uma plebéia entra para a nobreza e os discursos giram em torno do amor e da tolerância (diferente do tempo em que se preocupavam em conclamar a perpetuação das nobres castas).

Os contos de fadas podem até se modernizar, a exemplo dos novos filmes “A Princesa e o Sapo” e “Enrolados”, porém a essência do sonho infantil, que lá no fundo todos nós preservamos (e é bom que seja assim), permanece dando forças para batalharmos pelos nossos objetivos. Este sentimento precisa ser cultivado não apenas no campo pessoal, mas em nosso convívio social para que ele seja mais harmônico e possamos dar destaque a outro tipo de manchetes nos jornais. 

domingo, 24 de abril de 2011

AS VERSÕES DA HISTÓRIA



Desenvolver o senso crítico é importante em todas as áreas do conhecimento. Em nosso cotidiano não é diferente, possuir uma visão ampla das coisas faz melhorar a convivência entre as pessoas, traz confiança e nos mantém conectados ao mundo. Entender que toda questão tem pelo menos dois lados, não engolir apenas as idéias mais palatáveis, enfim dar espaço para discutir idéias. Pensamentos como este nortearam o provocativo texto de Leandro Narloch em Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, “só erros das vítimas e dos heróis da bondade, só virtudes dos considerados vilões ... uma pequena coletânea de pesquisas históricas sérias, irritantes e desagradáveis, escolhidas com o objetivo de enfurecer um bom número de cidadãos”. A seguir pequeno trecho engraçado para aguçar a curiosidade.

O frango de Graciliano Ramos
Bons colunistas de jornal costumam comentar tendências, avaliar episódios e fornecer aos leitores previsões coerentes sobre o futuro do país. O alagoano Graciliano Ramos não era hábil nessas tarefas. Numa crônica de 1921 o autor de Vidas Secas defendeu que o futebol era uma moda passageira que jamais pegaria no Brasil. 

Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. Ediora Leya. 2011.

domingo, 17 de abril de 2011

Memórias de um Marinheiro Atrapalhado*



Muitas histórias para contar. Aventuras vividas ao longo de anos de atuação na Marinha Mercante. O velho marinheiro cruzou os sete mares colecionando conquistas e tropeços, com uma visão de mundo totalmente amplificada. Experimentou variados tipos de culinária, e com isso aguçou seu paladar. Aprendeu um pouquinho de outros idiomas pela força das circunstancias – sua necessidade de se comunicar era maior do que as barreiras da fala. Inglês de cais de porto, como costuma dizer. Muito interessante esta figura que fazia parte dos “Dez mais”, o ícone da vaidade masculina da época. Boêmio que sempre foi, jamais recusou uma chance de conhecer a noite local, bares e boates da moda, restaurantes  badalados e espetáculos concorridos.

O outro lado desta equação, as ausências freqüentes, não era sombrio como se poderia supor. Pelo contrário, conseguia ser presente e parte importante da memória afetiva dos filhos. E como ser sombrio, se quando voltava para casa tudo era festa? Afinal estava de folga! Cada chegada era sempre uma novidade, com muitos mimos dos lugares por onde passou, e suas partidas persistiam deixando saudades.

Nosso marinheiro não aprontou pouco. Muitos foram os episódios divertidos que testemunhamos a ponto de lhe atribuirmos a alcunha de “atrapalhado”, uma doce maneira de adjetivar a mais pura essência do “curtindo a vida adoidado”. É que olhando tudo da distancia dos anos, realizamos o quanto viveu o hoje sem pensar no amanhã, para o bem e para o mal. Então a vida se encarrega de escrever mais um capítulo das “Memórias de um Marinheiro atrapalhado”, e as gargalhadas deram lugar a um pouco de lágrimas que foram secas ao  longo do tempo, mas insistem em deixar marcas.

Fico imaginando como é ver a vida como se o mundo estivesse de cabeça para baixo. De repente nada mais faz o sentido que fazia – emocionalmente talvez, mas há a realidade física do seu corpo não mais responder integralmente aos comandos. As seqüelas de diversas doenças podem ser súbitas ou cronicamente evolutivas; em ambos os casos as limitações impostas muitas vezes são difíceis de lidar. É reaprender a tocar antigos instrumentos, olhar a vida de uma ótica forçosamente alterada. É complicado, quase deixar de ser o mesmo. Numa situação como esta os sentimentos se confundem e é preciso ter serenidade para manter a lucidez, num esforço coletivo.

E você, marinheiro, não permita que signifique o fim da história. Tome as rédeas, reescreva alguns capítulos e multiplique os novos. De um jeito ou de outro a vida segue em frente e as suas memórias servem de bússola para saber sempre quem você é.

*Título emprestado de texto original de Nonato Costa

sábado, 9 de abril de 2011

"Meu menino, minha menina. Eternamente os dois serão meus."




Assim Toninho Cerezo descreve, em entrevista para a revista Lola Magazine, como se sente em relação a seu filho Leandro, agora o transexual Lea T. Pelas inúmeras recentes matérias, falar deste assunto nem sempre foi confortável, o que não é nada estranho e está longe de ser condenável. Quem de nós, pais, desejaria que seu filho trilhasse um caminho de tantos obstáculos, nesse caso até pelo nosso próprio preconceito? Os pais obviamente exercem influencia sobre os filhos, mas até onde se consegue chegar? Parece que à medida que eles crescem esta corda vai se esticando, e o segredo talvez resida em manter-se próximo, ainda que persistam as chances de se sentir fracassado com as pretensas escolhas erradas dos filhos.

Educar é preparar o filho para fazer suas próprias escolhas. Naturalmente isto exige uma generosa dose de desprendimento – permitir sua autonomia é de certa forma deixá-lo ir; aceitar suas próprias escolhas, ainda que se oponha às nossas, é talvez dissociar caminhos. A palavra-chave aqui é preparar. Todos os valores que se consegue passar, não apenas no que se fala, acima de tudo no que serve de exemplo, contribuem para torná-los preparados para fazer as escolhas. Estar atento e presente é a única forma de se tentar atingir esse objetivo, mesmo que no futuro surja a desconcertante pergunta: “onde foi que eu errei?” A isto estamos todos sujeitos, e na maioria das vezes é um sentimento de culpa injusto, até porque, em determinada etapa temos que compreender que já não somos responsáveis – ele se tornaram adultos, e ponto.  

Não se trata apenas de questões extremas, como a orientação sexual. No decorrer da vida exercemos influencia fundamental, desde as roupas a vestir, esportes para praticar, escolas onde estudar, até profissão a seguir. Sobre tudo isso com o tempo se percebe não ter absoluto controle. E a grande armadilha é justamente se supor onipotência. É preciso manter em mente a individualidade daquele ser que um dia dependeu tanto de nós e respeitá-lo como tal. Pensar o filho como extensão de nós mesmos é quase sempre inevitável, e até prazeroso, contudo não se pode perder a percepção daquilo que nos distingue. Fatalmente os filhos tomam as rédeas do próprio destino e o que é dito pelos pais já não tem tanto peso. É o caminho natural da vida. Resta-nos ter feito bem nosso papel (e continuar fazendo, é verdade!) e por tanto esperar que eles façam as melhores escolhas.   

Voltando um pouco à história de Toninho Cerezo, trata-se de um exemplo, do quanto é importante suplantar nossos próprios medos e preconceitos nesse processo de educar (imagine o que não passou pela cabeça de um craque de futebol, vivendo num mundo especialmente machista, quando realizou que seu filho se identificava com o universo feminino). A decisão de um filho da qual você discorda, não necessariamente é errada, inclusive porque os limites entre certo e errado nem sempre são bem definidos e muitas vezes dependem do ponto de vista – Lea T é uma das modelos mais badaladas do momento. E afinal, como disse Cerezo, um filho é para sempre.

sábado, 2 de abril de 2011

GUEST POST: A VIDA E SUAS OSCILAÇÕES

Há um tempo atrás li este texto no blog mais do que palavras. Reproduzo-o agora para lembrar que é sempre tempo de "levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima";

Não é novidade para mais ninguém a certeza de que a vida é um constante processo de oscilação. Picos de extrema felicidade que, após, repentina tristeza de, às vezes, motivos desconhecidos alteram aleatóriamente nosso humor. Convicções e dúvidas brincam sarcasticamente com nossa mente nos levando a um estado de frustrante irritação emocional, mas logo escavamos uma saída e somos preenchidos por um compensador alívio. Um verdadeiro baile que a vida e seus dilemas nos propõe, digo, impõe a dançar, nem que seja fora do compasso. Nada é constante, nem mesmo um amor. Tudo oscila como uma corrente instável de energia elétrica. Um amor incondicional e aparentemente inabalável pode, de uma hora para outra, adormecer provisóriamente dentro de uma casca de gelo ou até mesmo sucumbir – você acredita em um amor verdadeiro? Que bom, eu também! Mas não acredito que ele seja sempre estável e, no fundo, você também não. Fato! Como eu disse, a vida é um constante processo de oscilação.

Por trás das bases de uma felicidade que é sustentada por fortes e sólidas pilastras, sempre haverá uma que não será tão resistente quanto pensávamos, digo, iludíamos-nos ser e que, com qualquer pequeno toque – uma simples palavra proferida que contradiza o motivo de sua extrema felicidade, por exemplo – poderá por tudo a baixo e lá estará ela novamente, a foice que poda a convicta certeza; ceifa a felicidade do momento; corta as cristas da nossa renovada esperança. Oscilações!

Mas, se tudo que sobe e atinge o seu topo tende, em algum momento, a descer, por outro lado, tudo que atinge o fundo de seu abismo próprio não verá outra alternativa a não ser a de arrancar forças seja de onde for e começar – mesmo que com ritmo bem mais lento do que foi a velocidade com que desceu – a subir. Picos e depressões, altos e baixos… Será que não existe um meio termo? Sim, existe! Mas quem está preocupado em saber como foi a vida do boi quando a picanha está posta, suculenta e dourada, em seu prato? Quando estamos preocupados em atingir o ideal maior, a felicidade suprema, esquecemo-nos de viver intensa e gratamente o pico de felicidade do momento e, quando estamos prestes a atingir o fundo do abismo, deixamos de perceber que ainda não estamos lá e que podemos evitar a queda bruta ou, ao menos, amenizar o impacto que está por vir, ou seja, por mais que exista um meio-termo nós o ignoramos deixando de o viver, digo, deixando de viver.

Em meio à essa vida oscilosa acabamos por oscilar até mesmo as palavras. Um inquestionável te amo é produzido abstratamente em nosso coração, sendo depois firmado em nosso consciente; preenchemos os pulmões de ar; fechamos os olhos em um último inspiro profundo; puxamos o ar que sobe maciamente até chegar à garganta carregando aquele indestrutível te amo, mas algo sai fora do planejado; ao encontrar as cordas vocais, pronta para tomar força e sair cambaleando por nossa boca, aquelas duas palavrinhas acabam sendo barradas por alguma coisa em nosso consciente, um medo; um receio; uma dúvida; um etc., e acaba dando lugar a uma outra sonoridade, talvez um não é nada demais, ou, quem sabe, um deixa pra lá, ou, o que é pior, sucumbe e nada sai de nossa boca a não ser gas carbônico. A vida é engraçada? Talvez, mas nós somos muito, mas muito mais engraçados, só não vemos graças nas nossas, às vezes, inaceitáveis contrariedades que, de fato, é uma grande palhaçada da nossa parte.

Quer um conselho, uma preciosa dica sobre mim? Não me faças uma pergunta esperando por uma resposta 100% sincera - eu poderei perdoavelmente oscilar, mais uma vez – peças-me uma opinião ou até mesmo uma crítica. Garanto que serei mais, bem mais, confiável e plausível. Ah, antes que eu me esqueça, não fiquem, por favor, com a falsa impressão de que sou falso com as pessoas em minhas respostas, ou em parte delas; que minto para alimentar seus insaciáveis egos carentes de palavras de estímulo. Não é nada disso, pelo contrário, estou sendo mais sincero do que muitas pessoas conseguem ser; estou dizendo que NINGUÉM consegue responder determinadas perguntas de forma que as demais pessoas devam dar TOTAL credibilidade às palavras que foram pronunciadas, pois certamente algumas foram ditas por gentileza, ou pior, por dó, ou quem sabe para passar uma boa impressão e, assim, ser persuasivo. Confesso que esta última é uma boa tática e dá certo. Culpado disso? As nossas temperamentais oscilações de humor, sentimentos, pensamentos, conclusões, dúvidas, nossas oscilações de etc., que nos fazem tomar rumos distintos dos que realmente queríamos. Oscilações que nos faz andar escondidos quando, na verdade, queríamos nos expor correndo todos os riscos possíveis. Oscilações, benditas e traiçoeiras oscilações.

Talvez não tenha mesmo nenhuma maneira de se esquivar por completo das oscilações que nos atingem quando menos esperamos, sejam elas béneficas ou prejudiciais, mas que tempero teria a vida se não existissem esses momentos de mudanças radicas de forma repentina? Será a vida um jogo? Então é melhor organizar as cartas e formar a melhor estratégia. Esta que talvez seja a de simplesmente viver e dançar conforme as oscilações procurando jamais perder o compasso.

Michel Carvalho.

domingo, 20 de março de 2011

SOBRE AS PEQUENAS COISAS...


Pequenas coisas - 14 Bis

Um amigo me mandou um poema de Mário Quintana sobre encontrar a felicidade nas pequenas coisas, de forma mais realista, ao contrário de viver numa corrida sem fim atrás às vezes do impossível. Ele nos instiga a pensar na felicidade como algo de total simplicidade e que para ser alcançada é preciso que se perceba isto. Seu pensamento me chamou muito a atenção, até por ser algo de que tento me lembrar todos os dias. É o exercício do “carpe diem”; não deixar de ser feliz agora, com tudo de bom que já temos.

O que determina a dimensão das coisas, da importância dos nossos atos e dos acontecimentos? Chamar o que se vive no dia-a-dia de pequenas coisas é apenas um modo de falar, pois apesar de acontecerem corriqueiramente encerram em si o verdadeiro sentido de viver.  Toda mãe sabe o quanto é imensa a emoção da troca de olhar com seu filho enquanto o amamenta. É algo tão simples, e por outro lado tão ímpar. E o sorriso que ele abre quando o pai chega? Faz todo o sufoco do dia de trabalho inteiro passar a significar nada, afinal ao voltar para casa se ganha esse prêmio. Como não achar maravilhoso aquele friozinho na barriga dos primeiros encontros, quando não se sabe o que dizer, como se comportar e tudo é novo? O que dizer daquele pôr do sol incrível, daquela tarde despretensiosa no parque, um passeio de bicicleta, um jantarzinho com os amigos para jogar conversa fora, um mergulho no mar num dia quente de verão ou a primeira vez que tocou na neve? Me recuso a não valorizar estas coisas. Elas são o esteio do que nos faz sentir plenos, são os tijolos dos quais construímos nossa história pessoal.

O ritmo de vida do nosso tempo nos impele ao imediatismo, à velocidade, a valorizar o que nem sempre é fundamental, é uma época de excessos em que a sensibilidade se torna crucial para sabermos separar o essencial da perfumaria. Trata-se de mudar a ótica, alterar a perspectiva, passar a ver o mundo com olhos mais atentos ao que realmente nos impulsiona e nos motiva. Estamos afeitos a olhar o todo, a pensar no macro – para o bem e para o mal – é comum num relacionamento não enxergarmos os pequenos gestos, mas quando a relação se complica apontamos qualquer pequeno deslize. A mudança desta sintonia é imprescindível para se resgatar leveza de simplesmente ser feliz.

Não estou sugerindo que nos contentemos com pouco (não tomemos simples como simplório), isto definitivamente está fora de questão; o pensamento é sobre não se deixar iludir pela possibilidade distante só porque não se foi capaz de olhar em volta. A busca pelos nossos sonhos é absolutamente lícita, desde que este caminho seja trilhado com sabedoria, aproveitando o amor que sentimos pelo outro, as amizades que cultivamos ao longo da caminhada, as alegrias que são geradas pelos pequenos atos, enfim, não focalizar o pote de ouro no fim da estrada sem perceber as moedas que já surgiram à sua frente. No fim o que de fato permanece são essas ditas pequenas coisas, marcas indeléveis de que se soube aproveitar cada minuto de nossa rápida existência.

sábado, 12 de março de 2011

IRMÃOS



Uma das coisas que mais pensei quando tive minha primeira filha foi que ela precisava (e merecia) um irmão (independente do sexo). Hoje, ainda que elas sejam pequenas, já percebo a importância de uma na vida da outra. Esta certeza vinha da minha própria vivência com meus irmãos, por ter sido ela fomentadora de uma relação única e responsável por uma infância maravilhosa, tendo chance de trocar experiências, ter cumplicidade e partilhar o nascimento de suas próprias famílias.

O mês de Março sempre foi muito festivo em nossa casa, afinal de contas meus dois irmãos fazem aniversário. Por esta ocasião tenho resgatado lembranças que me são muito caras – em tudo tem um pouco deles. Apesar das diferenças de idade, o clima fraterno sempre foi privilegiado - com o mais velho um modelo por quem se pautar e com o mais novo uma relação quase maternal.   Além das festinhas, dos aniversários recordo também pelas traquinagens, já que o aniversariante aprontava o dia todo, talvez percebendo a passagem do tempo. Trazendo esse passado que está logo ali, sinto a força destes laços que dificilmente se encontra fora do ambiente familiar.

É impressionante como a leitura de uma mesma relação é distinta para cada irmão; são filhos dos mesmos pais, em tese criados do mesmo modo, porém são todos diferentes. Li recentemente um artigo de uma pedagoga que falava o quanto esta troca entre irmãos contribui para o desenvolvimento psicossocial. Cita um termo chamado outridade, que indica a força psicológica que o outro causa, daí a razão pela qual os irmãos acabam por moldar o comportamento entre si. A presença de um irmão proporciona a oportunidade de exercitar a resolução de conflitos e descobrir-se como indivíduo, além de auxiliar na inserção em determinados grupos sociais; com freqüência o irmão mais velho é cicerone do mais novo. O cuidar também é experimentado nesta relação, devendo ser uma via de mão dupla. É um vínculo extremamente duradouro mesmo que a distância se interponha, o qual valorizamos, tanto que o extrapolamos  do âmbito familiar buscando-o também na sociedade com os nossos amigos. Aqui cabe dizer que a relação com o irmão precisa ser bem cuidada e nisso os pais têm papel fundamental; como pontuou a psicóloga Lunalva Fiuza Chagas, muitas vezes mantemos uma intimidade e cumplicidade bem maior com um amigo do que com o próprio consangüíneo porque a ela é dispensado maior cuidado (pela possibilidade de rompimento). Com os próprios irmãos sentimos ser o laço indissolúvel podendo ser o tempo todo ameaçado sem risco de ruptura, contudo esta atitude pode criar um fosso que segue por toda a vida.

A convivência não é livre de tensão, briga-se pelo espaço, pelos brinquedos, pela TV e pelo computador, enfim tudo pode ser motivo de desacordo. Dizem os estudiosos do assunto que a convivência é mais amena com sexos opostos por não terem objetivos que se cruzam e sim caminham em paralelo, caso contrário é comum sobressair a competição. A sorte é que vamos todos crescendo e a forma de nos relacionarmos também se modifica; aquelas brigas aparentemente intermináveis se transformam no nosso formato de família, fortes e cooperativos, dando suporte nos momentos mais complicados e dividindo as alegrias. Faz parte de tudo isso seguir comemorando os aniversários e desejar felicidades em alto e bom tom.                                                  

sábado, 5 de março de 2011

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


O dia 8 de Março foi escolhido como Dia Internacional da Mulher; e adotado pela ONU para lembrar as suas conquistas sociais e econômicas, bem como a discriminação ainda hoje presente nas várias sociedades. Teve origem na Rússia, numa época em que se estava contratando a mão de obra feminina em massa e as mulheres lutavam por “Pão e Paz” – contra as péssimas condições de vida e contra a entrada de seu país na Primeira Guerra Mundial. A data é o dia que, em 1857, operárias de uma fábrica americana fizeram uma greve por melhores condições de trabalho, redução da jornada de trabalho e equiparação com os salários dos homens (chegavam a receber um terço deste).   A manifestação foi reprimida com tal violência, que as tecelãs foram trancadas e a fábrica incendiada, provocando a morte de mais de uma centena de mulheres.

Este dia precisa ser lembrado, mais que isso comemorado, dada a sua importância. Muito foi feito pelas gerações de mulheres que nos antecederam; foram às ruas, deram “a cara à tapa”, queimaram soutiens em praça pública e hoje é possível experimentar a mudança. É por conta deste passado que se conseguiu uma inserção expressiva das mulheres no mercado de trabalho, mulheres ocupam uma posição familiar de maior poder de decisão (até porque com as mudanças no âmbito do trabalho houve ascensão no seu poder aquisitivo e muitas famílias passaram a ser chefiadas por elas). É também fruto deste passado o voto feminino, a possibilidade de ter mais e mais mulheres nos três níveis de poder e aqui no Brasil a inédita eleição de uma mulher para a Presidência da República.

Infelizmente o dia não merece lembrança apenas pelas conquistas, que apesar de não terem sido poucas, de forma alguma encerram a questão. Ainda hoje se luta pela equiparação salarial – por que motivo mulheres e homens em cargos semelhantes recebem uma média salarial diferente? Com o mundo globalizado se expõe cada vez mais as mazelas um dia ocultas, não sendo mais possível olhar apenas as questões mais próximas – mulheres ao redor do mundo ainda são inferiorizadas, mutiladas e castigadas por não terem o devido respeito aos seus “senhores”. O problema não é só criar leis, sem tirar sua importância (a exemplo da brasileira Lei Maria da Penha), mas mudar a mentalidade, e isto sim têm sido uma luta árdua.

Entre conquistas e lutas, no século XXI as mulheres se encontram numa verdadeira encruzilhada emocional – se por um lado é muito bom ter vez e voz, tomar as rédeas do seu destino também significou correria, jornada de trabalho tripla, múltiplos interesses, tudo em oposição àquela vidinha boa de ficar tricotando, decorando a casa, ensinando novas receitas para as amigas, cuidando das flores, estando presente na rotina das crianças, e pra falar a verdade, com domínio completo sobre a vida dos homens. Sem falar que os homens, revoltados, além de confusos (com tanta revolução feminina), resistem em mandar flores e abrir a porta do carro. E agora? Pedir as contas? Parar o trem, pois a gente quer saltar?

Longe de ter a resposta, seguimos tentando acertar, com apenas uma certeza: não vamos encampar uma guerra dos sexos; não é disso que se trata. Precisamos nos manter unidos por uma sociedade mais bacana, com mais oportunidades para todos, e para isso somos todos aliados.  Mulheres querem brigar pelo seu espaço, mas também ser cuidadas; deixar os homens fazendo o papel de “macho” da relação, mas sem querer “domar” o sexo oposto. Enfim, queremos poder ser e ter tudo. E porque não?

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A sua pele de ébano



Por longo tempo o trabalho de Lázaro Ramos vem sendo aplaudido por todo mundo, merecedor  de mais uma justa homenagem, ainda mais por saber que por trás do artista tem um garoto que sonhou, acreditou firmemente no sonho e batalhou por ele, sendo um motivo de orgulho. Cada filme que entra em cartaz traz mais satisfação por ver a arte de representar desempenhada com tanta competência. O acesso imediato permitido pelas telenovelas também comprova a versatilidade deste baiano. Bairrismo? Sim, valorizar o que está próximo é obrigação. Falar de Lázaro já estava nos planos, até por não ter falado ainda pessoalmente. A capa da revista Época desta semana acabou criando a oportunidade.

A publicação se propõe a mostrar o que o sucesso  do ator Lázaro Ramos no papel de um playboy rico e sedutor revela sobre a ascensão dos negros no Brasil. Alçado ao posto de galã por um clichê já visto outras vezes, Lázaro Ramos vem sendo alvo de mais uma polêmica sem sentido – alguns se manifestam como se o personagem fosse sim uma bandeira, outros discutem se o tipo físico casa com o sedutor. Difícil de entender, já que o personagem em momento algum se posiciona como representante de um grupo, nem se está querendo vender a imagem do ator como o homem mais bonito do mundo. Verdade seja dita, se está gerando polêmica é porque não passa  despercebido. Ser ou não talhado fisicamente para o título com certeza não está tirando seu sono, mas a ocasião é boa para pontuar algumas questões.

Um ator deve ser dotado de múltiplos talentos, o principal deles, aquilo que torna possível viajarmos nas maravilhosas histórias do cinema, teatro e televisão, é a  capacidade de tornar o personagem crível. Fazer o público acreditar que aquele jovem designer é rico, pedante e pegador é a grande  missão deste profissional. Qualidade para isto Lázaro já mostrou ter de sobra. Outro aspecto a ser lembrado é a questão do estereótipo impresso há muito no imaginário coletivo – galã é um homem lindo (descordo totalmente, até em nome dos vários homens charmosos que já estiveram na posição) com traços finos mais nórdicos do que se vê no missigenado Brasil. Há ainda o hábito de verem sempre este artista em papéis mais ligados a produções de humor.   

Polêmicas à parte, como levantado pela reportagem de Época, a posição ocupada por Lázaro Ramos na trama novelesca é sintomática; sinaliza uma mudança real na inserção social e econômica dos negros. Isto se dá tanto na sensação geral de que um negro se destacar não é mais algo fora do comum quanto nos números que mostram maior percentual de negros nas faculdades, ascenção dos mesmos a grupos de maior poder aquisitivo e maior olhar dos diversos segmentos da indústria para este público. Muita coisa ainda precisa ser conquistada, contudo o maior acesso a educação tem permitido que as novas gerações sejam mais despidas de preconceitos (de todos os tipos), além de se observar cada vez mais mistura racial na população. A verdade é que, como diz a música Olhos Coloridos, todo brasileiro tem sangue crioulo. Esta simples constatação é suficiente para ampliar o campo de visão da nossa sociedade e fazer com que se revertam as situações de preconceito. Ser protagonisa desta, porque não dizer, re- evolução, ainda que sem pretensão, cabe bem a Lázaro que sempre se colocou de maneira reta diante destas questões. Mais uma salva de palmas para ele!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O PARADIGMA DA MULTIMULHER


O alterego Multimulher carrega consigo a força de muitas lutas ao longo da história pelo reconhecimento dos direitos femininos e da busca pelo equilíbrio entre os diversos papéis da mulher na sociedade. Ser multimulher está antenado com o mundo e dá a sensação de que se multiplica as chances de felicidade, ainda que com freqüência seja trabalhoso (mais mentalmente do que fisicamente).

Não é difícil encontrar multimulheres, mas se pensa imediatamente na mulher multitarefa, aquela capaz de preparar a reunião de trabalho, correr para deixar as crianças na escola, ir ao supermercado, ao cabeleleiro e ainda preparar aquele jantarzinho. Esta exaustiva rotina gera um nível de estresse que muitas vezes faz com que as coisas conquistadas com tanto trabalho sequer sejam aproveitadas.

A mulher multitarefa pode invadir o cotidiano da mulher comum sem ser notada, tamanha a cobrança que ela faz a si mesma; quando percebe está no olho do furacão, à beira de um ataque de nervos. Talvez seja um caminho natural da correria do dia-a-dia, ir abraçando de forma mecânica todas as tarefas para ser mulher, mãe e profissional. A intenção é a melhor possível; o desejo de todas é fazer o seu melhor e dar conta de tudo ao mesmo tempo; a questão é que a trama tecida por ela própria a aprisiona num ciclo vicioso que só é quebrado quando a corda estica ao ponto de exaustão.

É preciso entender que o enredo não tem que ser necessariamente esse. A verdadeira multimulher livra-se desta cilada e, como bem decodificou a jornalista Tatiana Bonumá em artigo recente, coloca-se como a multi-interessada. O termo trazido por ela consegue redimensionar o posicionamento feminino com o que ela batizou de “a nova revolução feminina”. Equivale a dizer que há interesse constante por tudo ao seu redor, porém priorizando os aspectos que lhe são mais caros, sabendo otimizar o tempo e mantendo a vida pessoal em ordem. Fazer essa revolução não é fácil nem óbvio, pelo contrário,  requer sair da linha de montagem e ser agente na própria vida. Com certeza toda essa transformação só é possível porque hoje se pode ter liberdade nas escolhas, principalmente de estar bem consigo mesma e se blindar contra todo tipo de cobrança. A multiplicidade de papéis ainda existe, contudo não há a culpa insana em não ser perfeita.

P.S.: este texto foi inspirado nas maravilhosas mulheres com quem convivo, em especial as aniversariantes da semana, Camila Lopes por estar mais uma vez operando transformações radicais em sua trajetória e Maria Lúcia pelo seu exemplo de mulher.