domingo, 3 de julho de 2011

É UMA DELÍCIA!

 Tempo friozinho nos trópicos, ainda que na maior parte do país não se perceba temperaturas tão baixas, já é possível experimentar a preferência por lugares fechados, figurino mais pesado e comidas que aquecem mais. Uma iguaria de origem européia que combina bem com este clima é a delicada fondue.



A fondue surgiu na Suíça, pelo que se tem notícia, por volta do século XVII, por contingências do inverno rigoroso. À época sua preparação era considerada “coisa de homem”, certamente sem imaginar o quanto se sofisticaria e ganharia fama internacional. Significa fundido por sua receita autêntica ser uma mistura de queijos (em geral Ementhal e Gruyère) derretidos e mantidos aquecidos numa panela especial de richaud (variam os tipos; metálicas, esmaltadas ou de barro). Hoje já expandiu-se em variações de carnes e chocolates, até receitas totalmente inusitadas - os utensílios empregados são bem específicos, como os garfinhos e as cumbuquinhas, mas se não tiver tudo pode ir improvisando.


Existem milhares de receitas; vale testar a sua. A tradicional de queijo poderá ser preparado com a fusão de queijos (o importante é possam ser derretidos e adquiram uma consistência cremosa) ou adquirir uma mistura pronta, atualmente disponível em grande parte dos supermercados. Para ajudar na consistência e sabor utiliza-se um pouco de kirsh ou vinho branco seco e noz moscada, além de passar alho na panela por conta da aderência. Os acompanhamentos em geral são os pães, mas se pode usar outras coisas como legumes e hortaliças. Para a fondue de carne mais comumente servida deve-se temperar cubos de filé mignon que serão fritos individualmente espetados nos garfinhos (coloca-se óleo para aquecer na panelinha) e saboreados com diversos molhos (tártaro, quatro queijos, chutney de manga e o que mais vier na imaginação). A fondue de chocolate é a preferida da ala feminina, leva chocolate ao leite com meio amargo, creme de leite e para os que gostam, um pouco de conhaque (o truque é derreter num recipiente à parte em banho-maria ou no microondas), acompanhado de frutas de preferência, bolos e até marshmallows.


A idéia é aproveitar o clima e se deliciar com este prato tão saboroso, seja com seu amor, com amigos ou numa farra em família, acompanhado de um vinhozinho. Ter um momento relaxante que além de uma orgia alimentar, pode ser muito divertido - reza a tradição que quem deixar cair o pedaço de pão na panela de fondue vai oferecer a próxima (ou outra prenda que se queira inventar). A experiência é praticamente um ritual, que guarda muito charme e remete a uma maravilhosa sensação de aconchego.

sábado, 25 de junho de 2011

QUASE QUARENTA

Sentar para bater um papo com as amigas é uma delícia, com as da época de faculdade então, pode ser uma grande armadilha do tempo. É inevitável que surjam conversas sobre tudo que se viveu, crie-se o hábito de rememorar as baladas antigas, contar histórias vividas pelos colegas, lembrar das viagens e de antigos amores. Mesmo parecendo se repetir, essas conversas sempre ajudam a entender um pouco do que somos, e daí a sensação de que tudo foi ontem. Não sentimos que o relógio desandou a correr e quando uma das amigas diz que estamos com quase quarenta a revolta é geral. Quarenta, não! Trinta e poucos.

A conversa corre solta e da faculdade já se passa a falar dos primeiros empregos, do trabalho atual, enfim de como anda o mercado de trabalho. Cada qual seguiu um rumo distinto e trocar experiências também é importante. Alguns anos de formados também fazem as expectativas se modificarem e forma como cada um lida com os desafios profissionais serve de parâmetro para o outro. Consequentemente o assunto agora já será o que cada uma anda fazendo nas horas vagas; é aula de canto, curso de pintura, dança de salão, pelo menos até alguém dizer que não está fazendo nada, afinal as crianças não deixam. Ah, as crianças! Este é um capítulo à parte onde a história dá um salto de muitos casamentos e algumas separações, de um momento que as famílias começaram a crescer, foram muitos chás de cozinha, visitas à casa nova sentadas em almofadas, encontros nas maternidades, até chegar ao ponto em que praticamente só se encontram nos aniversários dos filhos. Ufa! Com um roteiro desses como é que nega os quase quarenta?

O tempo realmente passa e reconhecer as mudanças que isto trás nem sempre é tranquilo, porém a determinada altura da vida se encara com um olhar até afetuoso. Sim é possível se orgulhar da idade que se tem, da ruga marcando a trajetória (algum colega dermatologista ou cirurgião plástico pode dar um jeito nisto) e dos anos que se viveu. E aquela amiga está lá para declarar que não troca o hoje pelo ontem de jeito nenhum, pois tudo que é agora, o que conquistou e a sensação de estar plena não têm preço. E o bom é poder dizer estas coisas umas às outras sempre.

domingo, 12 de junho de 2011

AS IDADES DO AMOR



De tudo ao meu amor serei  atento. Na poesia de Vinícius encontro esteio para falar de amor, que é um conjunto de coisas; afeição, paixão, desejo, bem estar e satisfação, enfim algo sem fórmulas. O amor que une duas pessoas que se escolheram nesse mar de possibilidades que é a vida. É falar de encontros, já que muitas vezes parece que a vida escolheu por nós de tão inusitada que é aliança.  

O amor jovem, dado mais aos arrobos, é cheio de incertezas, permeado pelas descobertas mútuas. Tem muito de inocente, atraindo para si decisões que àquela hora parecem definitivas. Não sabe ele que o tempo é capaz de mudar tudo veloz e radicalmente, transformando o que era imenso em quase nada. Dizer eu te amo parece grande demais, mas não é nada desprezível. É nele que começamos a passar por experiências fundamentais para o resto de nossas vidas e adquirir a capacidade de reconhecer o amor que virá adiante. Há possibilidades de esse amor que começou em idade tenra prossiga com o mesmo par, porém inevitavelmente sofrerá transformações (boas e ruins) para chegar ao amadurecimento.

Amadurecer não significa que perdeu o encanto, pelo contrário poderá ser ainda mais avassalador uma vez que agora já se tem mais certezas. Os próprios personagens a esta altura já cresceram. Se juntos desde o amor jovem, é uma vitória, contudo encontrar um novo amor nesta etapa pode se revelar uma grande descoberta. Ter independência para ser pleno numa relação a dois, ser agora influenciado pelas questões profissionais, poder ampliar seus conflitos para outras esferas tornam possível dizer eu te amo com todas as letras. O sentimento tem menos de inocência, porém não perdeu sua capacidade de surpreender e aquele friozinho na barriga sempre vai surgir. Tem muito mais de sexual do que antes, até por ter mais liberdade. Aqui muito provavelmente a batalha deixará de ser a dois e sofrerá o impacto da chegada dos filhos. É um momento importante para não se deixar distanciar e manter-se sintonizado com o outro, mas o amor adulto resiste por saber que essas mudanças fazem parte do caminho natural a percorrer.

Amor maduro deve ser aquele que passou por tanta coisa, junto ou separado, que torna os laços entre duas pessoas quase que indissolúveis. Não há como se dizer ainda inocente, mas guarda uma capacidade de entender o outro, conhecer seus limites e saber o que esperar que é singela. Muito da paixão já terá sido substituído por uma calmaria confortável, o que não equivale a dizer que perdeu a graça.  Novos desafios aguardam quem chega a esse ponto, e a redescoberta de si e do outro pode ser tão prazerosa quanto antes. Poder ser enfim inconseqüente, já que muito já se vivieu e se sabe até onde pode ir. Prescinde daquela insegurança de outrora e já não é atingido pela corrida cotidiana. É bem verdade que o corpo quase nunca acompanha o pensamento, porém se isto vale para os dois, uma harmonia sempre se estabelece. Ainda que haja um descompasso entre as idades dos parceiros o mais novo poderá se beneficiar da experiência do mais velho, e este da energia do primeiro. Dizer eu te amo pode finalmente ser pura verdade.

Enfim, citando mais uma vez Vinícius de Moraes, que não seja imortal posto que é chama, mas que consigamos viver o amor em todas as idades da melhor forma e possamos sentir que verdadeiramente valeu à pena. 

ANIVERSARIANTES DE JUNHO


UMA PÁGINA MUSICAL RELÍQUIA DE PARABÉNS PARA:
DANIEL BURGOS
ISADORA BURGOS
DANIELA REQUIÃO
VIVIANE BOAVENTURA
PEDRINHO OLIVEIRA
JOÃO PEDRO BOA MORTE
SIFREDO SAMPAIO
SEU CACÁ MENDES
ANTONIO PERNA
DIOGUINHO
E TODOS OS ANIVERSARIANTES DO MÊS (SE LEMBRAR MAIS, CITAREI)

domingo, 5 de junho de 2011

MUDANÇA DE COMPORTAMENTO



Estima-se que este ano serão sete bilhões de habitantes no planeta, trazendo ainda mais preocupação sobre como conseguir uma harmonia com a natureza e reduzir o impacto  dessa ocupação sobre o meio ambiente. Há muitas coisas que vão mudando aos poucos, às vezes somos surpreendidos por mudanças bruscas, porém mudanças conscientes de comportamento são muito difíceis. Exige obviamente força de vontade, mas sobretudo uma compreensão clara de que aquilo é absolutamente necessário. Neste ponto já se apresentam inúmeros sinais de que urge uma postura mais proativa, sendo a modificação do estilo de vida um dos principais pilares dessa nova ordem com o consumo sustentável no centro de tudo.

O termo consumo sustentável tem origem no que se conhece como desenvolvimento sustentável, divulgado inicialmente na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Trata-se de reorientar os padrões de consumo e fazer um uso mais consciente do que a modernização proporciona nos dias de hoje. É aqui que cada indivíduo, com pequenas ações no cotidiano pode atuar – será que todo mundo pensa na quantidade de água que utiliza para escovar os dentes, tomar banho ou lavar o carro? Preocupa-se em apagar a luz ao sair de um cômodo? Recicla papel, ou joga diretamente no lixo? Nas compras leva só o que precisa, ou dá vazão a compulsão e ao apelo da publicidade por produtos supérfluos? Prefere as frutas locais e da época para diminuir o consumo de  agrotóxicos e o impacto  do transporte intercontinental? Prepara comida suficiente para o próprio consumo, ou faz excesso e joga fora? Conversa muito, chata? Não! Apenas exemplos de que ações corriqueiras e inocentes se potencializam e trazem repercussões indesejadas.

Não se trata de discurso vazio, e sim da constatação de que determinadas atitudes são essencialmente nocivas para a natureza, e porque não dizer, para o bolso. Pode parecer complicado ou mesmo excessivo, mas é importante lembrar que a natureza não é uma fonte inesgotável de recursos. Basta pensar no planeta como pensamos em nosso lar, com aquela responsabilidade de cuidar e proteger. Comece de algum  ponto, mínimo que seja; reveja sua rotina e institua hoje algum novo hábito. De repente é uma sacola retornável na bolsa, é usar madeira de origem adequada, preferir produtos de empresas alinhadas com a sustentabilidade, ou ir a pé para a padaria. É uma reação em cadeia, à medida em que vai passando entre as pessoas, principalmente trazendo esses conceitos para a rotina das das crianças. Aproveite este Dia Mundial do Meio Ambiente e as diversas ações que muitas entidades farão hoje e dê um passo.

              http://mercadoetico.terra.com.br
              http://www.terrazul.m2014.net

segunda-feira, 30 de maio de 2011

ANIVERSÁRIO


Hoje completo 1 ano de blog, um instrumento que começou de forma despretensiosa na intenção de contar histórias, dividir impressões, enfim partilhar. A grata surpresa é que tem sido um canal de comunicação  maravilhoso, muita gente dando retorno e até mesmo se identificando com os diversos papéis que hora ou outra surgem nos textos. Foram milhares de acessos, aos quais agradeço, esperando poder continuar conversando com cada vez mais gente.

Obrigada!

domingo, 29 de maio de 2011

INFÂNCIA SEM RACISMO




Esta é uma campanha do Unicef lançada em novembro do ano passado com a finalidade de alertar a sociedade sobre os impactos do racismo na infância e adolescência e sobre a necessidade de uma mobilização social que assegure o respeito e a igualdade étnico-racial desde a infância. É nesta época da vida que tais impactos parecem ser mais catastróficos, tanto para quem é vítima quanto para quem pratica, ambos permanecendo marcados. A criança que é descriminada poderá, a depender de como a família lide com isso, ter o futuro completamente modificado, até por conta da baixa auto-estima. Além da questão psicológica existe a limitação de oportunidades numa sociedade racista. A criança que descrimina o faz por ter aprendido estes valores em seu meio e perpetua a situação até a vida adulta. Cabe a nós pais um importante papel na quebra deste ciclo, ensinando a nossos filhos o valor da diversidade e o quanto devemos respeitá-la, não apenas no discurso, mas principalmente no exemplo.

Segundo dados do IBGE e do Unicef, dos 57 milhões de crianças e adolescentes no Brasil, 31 milhões são crianças negras e cerca de 100 mil crianças indígenas; entre  as crianças pobres 65% são negras; a taxa de mortalidade infantil (até um ano de vida) entre crianças indígenas é de 41,9 óbitos para cada mil nascidos vivos (a taxa nacional de mortalidade infantil é de 19 óbitos para cada mil nascidos vivos); 62% das crianças fora da escola, na faixa de 7 a 14 anos, são negras; os adolescentes negros têm 2,6 vezes mais chances de serem assassinados em comparação aos adolescentes brancos, nas cidades com população acima de 100 mil habitantes. Estes números refletem o quanto as questões de raça ainda norteiam grande parte dos problemas do nosso país. As chances de mudança deste panorama estão em nossas mãos, de várias formas, desde um engajamento institucional neste tipo de campanha até simples atos do nosso cotidiano. Neste intuito o site da campanha (http://www.infanciasemracismo.org.br) divulga, dentre outras ações, dez maneiras de contribuir:

1. Eduque as crianças para o respeito à diferença. Ela está nos tipos de brinquedos, nas línguas faladas, nos vários costumes entre os amigos e pessoas de diferentes culturas, raças e etnias. As diferenças enriquecem nosso conhecimento.
2. Textos, histórias, olhares, piadas e expressões podem ser estigmatizantes com outras crianças, culturas e tradições. Indigne-se e esteja alerta se isso acontecer.
3. Não classifique o outro pela cor da pele; o essencial você ainda não viu. Lembre-se: racismo é crime.
4. Se seu filho ou filha foi discriminado, abrace-o, apoie-o. Mostre-lhe que a diferença entre as pessoas é legal e que cada um pode usufruir de seus direitos igualmente.Toda criança tem o direito de crescer sem ser discriminada.
5. Não deixe de denunciar. Em todos os casos de discriminação, você deve buscar defesa no conselho tutelar, nas ouvidorias dos serviços públicos, na OAB e nas delegacias de proteção à infância e adolescência. A discriminação é uma violação de direitos.

6. Proporcione e estimule a convivência de crianças de diferentes raças e etnias nas brincadeiras, nas salas de aula, em casa ou em qualquer outro lugar.
7. Valorize e incentive o comportamento respeitoso e sem preconceito em relação à diversidade étnico-racial.
8. Muitas empresas estão revendo sua política de seleção e de pessoal com base na multiculturalidade e na igualdade racial. Procure saber se o local onde você trabalha participa também dessa agenda. Se não, fale disso com seus colegas e supervisores.
9. Órgãos públicos de saúde e de assistência social estão trabalhando com rotinas de atendimento sem discriminação para famílias indígenas e negras. Você pode cobrar essa postura dos serviços de saúde e sociais da sua cidade. Valorize as iniciativas nesse sentido.
10. As escolas são grandes espaços de aprendizagem. Em muitas, as crianças e os adolescentes estão aprendendo sobre a história e a cultura dos povos indígenas e da população negra; e como enfrentar o racismo. Ajude a escola de seus filhos a também adotar essa postura.
Então, como prega a campanha; apóie, divulgue, denuncie, crie, aprenda, ensine, mobilize e proteja. Mãos à obra!

domingo, 22 de maio de 2011

CONTO Nº 2



POR SOBRE AS NUVENS

Mãe e filha estavam deitadas na grama olhando as nuvens no céu. Era uma brincadeira que a pequena adorava – adivinhar as formas no alto daquele fundo azul. “Aquela parece um leão, mamãe!” Não havia outro jeito senão concordar, tamanha a criatividade da menina; era tanta que a própria mãe passou a ver as formas se materializarem. A imaginação faz viajar, vai tão longe quanto as vistas alcançam, trazendo a lembrança de quando ela era uma criança e lhe disseram: “vovô foi pro céu”. Será que ele está me vendo daquele imenso azul? A sensação é tão forte que ela mesma repetira a frase para a filha: “vovô foi pro céu!”

Encarar a morte com o olhar lúdico faz criar fantasias interessantes. Tratando-se de uma criança isto pode ganhar contornos de inocente felicidade que até nos faz aceitar a perda com mais serenidade. Foi engraçado quando a garota perguntou se o avô estava indo encontrar a avó e concluiu docemente que eles deviam estar rindo à toa. Com esta visão é possível pensar que morrer foi bom para o avô, já cansado e saudoso do grande amor de sua vida. A história deles era linda, daquele tipo de amor avassalador que te toma de assalto. Foram um exemplo maravilhoso de como partilhar a vida a dois. Naturalmente sua morte foi triste para quem ficou, compreensível pela enorme saudade. A netinha já expressava este sentimento quando lamentava não mais poder acariciar aqueles tufos de cabelos brancos, ouví-lo contar histórias sentado na sua poltrona favorita ou reclamar quando seu time perdia um jogo. Por tudo isso, embora ainda fosse muito jovem para entender que este é o caminho natural da vida, imaginava que vovô e vovó tinham muita conversa para colocar em dia.

Ali deitada na grama a mãe apertou forte a mão da filha e desejou acreditar no encontro dos pais, por alguns instantes chegando a vê-los abraçados, com a expressão de quem cumprira sua missão. Aquele casal trouxe ao mundo três filhos, se deliciou com cada conquista deles, desde os primeiros passos até a entrada na faculdade, assistiu seus casamentos e foi quem primeiro carregou cada neto no colo. Profissionalmente ambos tinham se realizado e conseguiram passar valores importantes para toda família. Resignaram-se quando seus velhos pais se foram, presenciaram com tristeza a partida de bons amigos e dividiram tudo até serem separados pelo inevitável. Era um encontro verdadeiramente mágico.

A mulher parecia perdida num sonho. Será que a pequena tem razão? A morte não passa de mais uma viagem? Vitoriosas as pessoas que podem chegar a este ponto da jornada com aquela expressão que ela vira por sobre as nuvens – missão cumprida. Começou a pensar que melhor mesmo é viver o presente e dar o seu máximo em tudo; talvez esta seja a fórmula para deixar como legado a saudade gostosa no coração daqueles com quem conviveu. Gente assim só pode deixar boas lembranças, e chega uma hora que é o que resta. E ela despertou com uma vozinha  dizendo: “aquela parece um leão,  mamãe!”

domingo, 15 de maio de 2011

A ÁRVORE

Queria falar da vida. Pensei em você, Maria como exemplo. Tanto que falo sobre a multimulher, dou-lhe sempre um tom de exclusividade e modernidade. Que nada! Somos muitas, contingências da vida, e quanto a ser moderno; você, já bisavó, prova o contrário. 

Sempre a admirei pela força (costumo dizer que daí herdaram todas as mulheres da família). Mulher de um tempo em que marido era amo e senhor, rompeu estruturas há tanto vigentes – veio menina ingênua para a capital e aprendeu a ser mulher de verdade na marra, agarrou o touro a unha, como se diz, e  descobriu que apenas você era dona do seu destino, entrou para o mercado de trabalho (àquela altura, estou falando de quase 80 anos atrás, a grande maioria das mulheres eram exclusivamente do lar), dividindo-se na criação de tantos  filhos, marido e casa. Isto para mim é um legado, naturalmente mais importante que qualquer bem material. Vejo que fez revolução, é seu um dos soutiens queimados em praça pública e continua a ser exemplo. Do alto dos seus 95 anos de idade, soube como envelhecer, representando tudo aquilo que a gente almeja – ter lucidez e tranquilidade. É bem verdade que hoje o corpo já não acompanha os vôos rasantes da mente, contudo são as marcas indeléveis que o tempo reserva a quem viveu para ver.

E você viu! Presenciou mudanças em nossa sociedade, teve que respirar fundo e se adaptar a novos comportamentos (lembro tanto de você me contando de quando usou calças ou pintou as unhas de vermelho pela primeira vez). Viu irmãos e amigos partirem com uma tristeza cumulativa que a deve ter feito questionar o sentido de tudo, principalmente quando a vida subverteu a ordem e levou-lhe um filho. Houve também muita coisa boa; partilhou tantos nascimentos, netos e bisnetos, conheceu lugares e pessoas, pode se sentir vitoriosa, matriarca de uma família a quem enche de orgulho. A grande felicidade é poder olhar para trás sem arrependimentos, com aquela sensação de que fez sempre o seu melhor. Isto ninguém tira de você.


A vida segue e como um troféu você recebe o mais novo membro a chegar – Gustavo, o oitavo bisneto. É um sinal de como a gente se entrelaça nos nossos descendentes e de alguma forma pode se ver neles; sabe aquela força que citei ser uma herança feminina? Começo a achar que já independe de gênero, tamanha a garra deste pequenininho que nos surpreende desde sua fecundação. Agora ele põe mais uma vez essa característica tão sua em evidência e realimenta o profundo amor que o une a toda a família.

No final das contas ficou na minha cabeça, ao som de Almir Sater, a imagem de uma imensa árvore genealógica; Maria lá no alto, fazendo mais esse aniversário, e Gustavo na última inscrição, representando o milagre da vida.
 

domingo, 8 de maio de 2011

ADOTA-SE UMA MÃE

                                                   Grupo de Apoio a Adoção Mudando Destinos



Há muito queria falar sobre adoção. Por ocasião do dia das mães o assunto ganhou força, principalmente após ter conhecido histórias de famílias que mudaram suas vidas ao adotar novos membros. Todos são unânimes em testemunhar o quanto aquela criança veio para completar a família. Alguns casais passaram  por esta experiência mais de uma vez, seja pela força que se revelou neste amor, seja até por uma incontrolável necessidade de unir irmãos, sendo ainda mais verossímil a tese de que adoção é doação, numa via de  mão dupla em que é difícil saber quem adota e quem  é adotado.  

Dados dos Juizados da Infância e da Juventude estimam que cerca de 4400 crianças estão disponíveis para adoção no Brasil, e quase 27 mil casais dispostos a adotar. A estranheza é o fato de uma conta como esta não fechar. A triste razão para isto está na mentalidade das pessoas - ao se candidatarem, os pretensos adotantes informam sua preferência em relação ao futuro adotado – sexo, idade, cor e etc. Das milhares de pessoas à espera de um filho adotivo, 87% querem apenas uma criança (irmãos são colocados de lado), 37% só aceitam crianças brancas e 78% só aceitam crianças até três anos de idade (a adoção tardia e sem restrições é algo raro no Brasil).

Voltando ao pensamento de adoção como doação e como uma troca mútua, me pergunto como tantas exigências prévias determinam esta relação? Estas exigências muitas vezes estão irremediavelmente contaminadas por preconceitos  de diversos tipos, pela antiga postura de se esconder a adoção (para tanto o adotado precisa ter semelhanças com a família que adota) e pelo temor de que se adotado além da primeira infância o indivíduo já trará traços indesejados na sua  personalidade. Não se pode condenar quem tem todos esses temores, contudo seria mais natural e até mesmo mais saudável uma relação que começasse com aquele mágico momento em uma troca de olhar diz tudo que se precisa saber. Tem haver com empatia e com identificação bilateral que fará com que a aproximação seja uma conseqüência. É a chamada experiência do amor incondicional. Isto acontece quando se adota por amor ao próximo e não por necessidades pessoais ou para preencher lacunas da vida pregressa.

É importante então notar que, assim como para a paternidade biológica, nem todos estão talhados para a adoção. Para alguns é plano desde a infância ou uma forma possível de contemplar seu sonho de família, mas talvez para a maioria não faça parte dos planos de vida. Ainda assim, podemos deixar corações e mentes abertos para a possibilidade de um encontro inesperado com alguém que desperte este amor de filho, também aberto a adotar uma mãe (e pai, irmãos, enfim família).