sábado, 4 de setembro de 2010

DIÁRIO DA MULTIMULHER - PARTE 2 (3, 4, 5...)







Meu marido costuma repetir uma frase que ouviu não sei onde – mulher não é para entender, é para decorar (e eu complemento com minha contribuição de estímulo à monogamia; decore a sua, ponto!). Será que as mulheres de fato são tão difíceis de entender? O imaginário coletivo reverbera esta crença, o tempo todo ouvimos dizer o quanto homens e mulheres são diferentes (confesso que repito isso com um certo ar de superioridade; mulher é multi, e dá realmente conta de várias coisas ao mesmo tempo), que toda mulher é meio maluca, e por aí vai.


Nos moldes de investigadores que me antecederam, fui a campo em busca de respostas. Defini por não revelar aos “meus entrevistados” a existência da minha enquete, mantendo apenas conversas informais (por isso não serão reveladas as identidades dos queridinhos).  Comecei por um veterinário com quem tenho muita intimidade e que soltou mais uma pérola; “mulher é bicho brabo, sangra todo mês e não morre, ah! ah!, brincadeirinha, mas é tudo esquisita!” Conversando com um Administrador, descobri que é mais prudente dizer que elas têm razão do que seguir em frente num bate-boca (elas não desistem nunca e ainda guardam pequenos erros para futuras referências). Num certo plantão os colegas deixaram escapar que não dá para entender as mulheres – o solteiro pensava que as mulheres faziam tipo até casar, mas depois se revelavam espécies de tiranas, e o casado teve que ser mais comedido dizendo que o problema era a TPM (termo consagrado, muitas vezes utilizado erroneamente, principalmente quando eles não querem dar crédito às nossas queixas). Um amigo, muito chegado, reclamava que a mulher exigia que ele não só realizasse as tarefas domésticas, como também quisesse fazê-las – “querer fazer já é demais”!  


Minha percepção é de que a opinião é meio que unânime (não vai dar para usar aquela história de que toda unanimidade é burra). A verdade é que saímos do sério porque ele só faz as coisas quando solicitado, vivemos à beira de um ataque de nervos, dizemos um não que quer dizer sim, exigimos que ele leia as entrelinhas, tudo que mais queremos é que a vida dele tenha começado depois de nos conhecer, mas não resistimos à curiosidade pelos relacionamentos antigos. E as músicas? Complicada e perfeitinha; mulher é bicho esquisito; toda mulher se faz de doida; dizem que a mulher é sexo frágil, mas que mentira absurda. Há de existir um nexo causal.


Como o assunto tem tudo haver com Psicanálise, consultei o que dizem os especialistas. Lacan dizia que as mulheres não existem, no sentido de que não há uma definição padrão do que é ser mulher.  O psicanalista e psiquiatra paulista Jorge Forbes escreveu que as mulheres são basicamente insatisfeitas. Heloneida Neri, em sua dissertação de mestrado, constata que na maioria dos atos transgressivos das mulheres, a paixão e o amor aparecem como causas. O italiano Contardo Caligaris da sua receita para lhe dar com as mulheres: amar o outro não apesar de sua diferença, mas por ele ser diferente. Fui obrigada a tomar tudo isso como verdade depois que li a seguinte frase de Freud: “a grande pergunta que nunca foi contestada e à qual nunca pude responder, apesar de meus 30 anos de investigação da alma feminina, é: o que quer uma mulher?” Se nem Freud explica...

sábado, 28 de agosto de 2010

Agosto mês de desgosto?




Ninguém sabe explicar o porquê, mas o fato é que o mês de Agosto é mundialmente apontado como um período agourento. Agora que chegamos ao final do mês posso dizer que é um mês até simpático, representado pelo oito, número do infinito . Não posso concordar porque afinal é meu mês de aniversário e de mais tantos outros (em sua maioria leoninos, e por falar em signo mês passado foi o níver de uma das minhas cunhadas leoninas, Carol Mendes) amigos que conhecemos. Dia 12 faz aniversário minha grande amiga, cunhada, comadre e tudo de bom Lalá. Dia 28 tem o adorável língua afiada também sogro Herbert Steiger. E entre um e outro, vários amigos dos tempos da faculdade (Marcos Araújo, Fabrício Primitivo, Larissa Rocha, Francine ...se lembrar de mais alguém me corrijam), amigos ainda mais antigos (Tárcia, Hosana, Lara...) e personalidades como Jorge Amado, Louis Armstrong e Caetano Veloso.

É por conta desta fama de agourento que o período dá vazão a todo tipo de superstição – imaginem o que não foi este ano na sexta-feira 13 de Agosto. Comemora-se nele o Folclore (por sinal, exatamente no meu níver). As lendas brasileiras carregam nas tintas a paisagem de Agosto – é caipora, Saci-Pererê, bôto e muito mais. Esta área também é divertida já que alimenta a imaginação de adultos e crianças, dando uma forte contribuição ao ensino da nossa cultura. Você sabia que cada dia do mês de Agosto é dedicado a um santo diferente? Não pode ser um mês tão ruim assim.

Tenho que reconhecer que a metereologia depõe contra o mês de Agosto aqui nos trópicos, sempre com previsões de chuvas e fortes ventos. Isto não é de todo mal, afinal mesmo morando no litoral podemos descobrir coisas legais para fazer, porém o tempo dito ruim serve como pano de fundo para diversas fantasias sobre coisas macabras.

Muita coisa importante aconteceu em Agosto (inclusive coisas negativas, mas é a vida) – Nelson Mandela foi para a prisão, morreram Elvis Presley e Marilyn Monroe, além de ter sido num mês de Agosto que a bomba atômica atingiu Hiroshima. A cena política brasileira também é marcada, dando origem até a título de minissérie global. Getúlio Vargas “deixou a vida para entrar na história”. Foi também quando o primeiro time brasileiro ganhou a Libertadores da América (Santos) e Popó ganhou o primeiro Campeonato Mundial de Boxe.

À luz do que andei pesquisando, não tem nada de excepcionalmente terrível acontecendo este mês que não acontecesse em qualquer outro momento, portanto, com perdão dos supersticiosos, por tudo isso Agosto decididamente não é mês de desgosto. (Mas se por acaso cruzar com gato preto esses dias, não faz mal passar  para o outro lado da calçada – eu não creio em bruxas, mas...). 

sábado, 21 de agosto de 2010

Salvador para os soteropolitanos

Uma amiga comentou que estava vindo para Salvador curtir um final de semana cultural. Delícia! Ainda mais que sempre se inclui neste passeio um tour gastronômico. O que fiquei me perguntando foi qual seria esse roteiro (o mais comum é ouvir os comentários sobre saídas de Salvador para tal). Resolvi saber detalhes do passeio e fui alegremente surpreendida por coisas muito legais.

Sexta-feira à noite foi escolhida para o teatro com a peça “O sapato do meu tio” em que este passa lições sobre o ofício de palhaço com muito humor e poesia, no Teatro Vila Velha. Esta visita proporcionou uma grata surpresa de ver a conservação do Passeio Público, as instalações do Teatro, e ainda como as artes se integram naquele lugar (no foyer é possível apreciar a exposição Reciclarte com reciclagem de lixo hospitalar).

O sábado amanhece radiante na praia do Porto da Barra e suas águas calmas, com direito a água de côco  geladinha e um mergulho revigorante. Daí para o outro lado da cidade, no Cabula, almoço no restaurante Paraíso Tropical do prestigiado chef Beto Pimentel, conhecido por sua filosofia de cozinhar apenas com alimentos naturais. Uma mistura de mariscos, frutas e ervas exóticas cultivadas em sua própria horta orgânica, no mínimo inusitada. Para o fim de tarde foi escolhido ver o sol se pôr no Museu de Arte Moderna (MAM - Solar do Unhão), onde acontece o projeto Jam no MAM, jam sessions da melhor qualidade com músicos de jazz de várias partes (Nonato adora!).

Na manhã seguinte  foi a vez do Palacete das Artes, na Vitória, onde estão expostas obras originais de Auguste Rodin cedidas pelo Museu Rodin Paris. Passeio gostoso e inspirador, que terminou no simpático Café Solar com seu cardápio para lá de convidativo. (Legal aproveitar a programação pedagógica voltada para as crianças). Já com saudades da Bahia, de olho no horário do vôo de volta, correram para a Península Itapagipana, mais precisamente Ponta de Humaitá, onde comeram uma mistura de cozinha baiana e espanhola. Divino! Para completar não dispensaram o famoso sorvete da Sorveteria da Ribeira. Agora podiam volar para casa.

Eu, que estava planejando sonhadas viagens para fora da cidade, já estou com data marcada para conhecê-la melhor. Salvador para os soteropolitanos!

sábado, 14 de agosto de 2010

CASAMENTO À PROVA DE BEBÊS



De Stacie Cockrell, Cathy O’Neill e Julia Stone.  Editora Sextante.



Não agüentei! Tenho que voltar ao diário da multimulher (não adianta, é assunto recorretnte). É que descobri este livro maravilhoso que conta as agruras de três mulheres loucas por seus filhos, maridos e  carreira (dá para ter equilíbrio?). É importante frisar que seus amores são absolutamente correspondidos. Com essa vida digamos comum a todas nós, sentindo-se até plenas, por que então passaram a brigar tanto depois que os bebês nasceram? Por que ficam tão irritadas quando eles não conseguem encontrar as chupetas? Por que eles ficam tão chateados com o fato de o entusiasmo delas por sexo ser igual ao entusiasmo por passar roupa? No livro elas dividem soluções que encontraram não só na busca por manter um casamento feliz depois dos filhos – mas também em conversas com centenas de pessoas. Leiam! Além de concluir que todos passam por isso, ainda vão dar boas risadas.

Alguns dos segredos das autoras para melhorar a vida a três (quatro, cinco...):

1.  Mudem de ambiente 
Saiam de casa se ela já se tornou um campo de batalha. Marquem um encontro depois do trabalho. Experimentem jantar num restaurante diferente ou dar uma caminhada na praia.

2.  Troquem de papéis
Se vocês sempre fazem as mesmas tarefas e estão cansados delas, troquem de lugar durante uma semana. Ele faz o jantar e ela corta a grama, ou vice-versa.

3.  O que posso fazer por você? 
Uma atitude proativa deste tipo é uma das melhores coisas que podemos fazer pelo nosso casamento.

4.  Não é hora de discutir a relação 
Temos uma amiga que, quando seu primeiro filho tinha cinco semanas, disse ao marido que eles precisavam fazer terapia de casal. Eles precisavam mesmo era de uma boa noite de sono.

5.  Bom humor é a primeira coisa que perdemos quando chegamos ao limite 
Temos duas opções quando o bebê vomita na nossa camiseta limpa: rir ou chorar. Como já estamos fartos de tanto choro, por que não tenta rir?

6.  Peça ajuda 
É fundamental ter ajuda nessa fase, seja ela remunerada ou não. Sem dúvida, vocês conseguem dar conta de tudo sozinhos, mas por que arriscar ficarem loucos ou se divorciarem se há outras opções?

7.  Ajudem-se 
Acordar diversas vezes durante a noite para amamentar é enlouquecedor. Levar o bebê até a mãe, colocá-lo para arrotar e depois levá-lo de volta ao berço são tarefas simples que o pai pode fazer, e é um grande alívio às suas esposas.

8.  Fim de semana de treinamento 
O que deve fazer uma mulher que está no limite? Simplesmente dê o fora! Viaje e deixe seu marido sozinho com o bebê durante 48 horas. Nada de babá. Nada de avós. A idéia é deixar que ele descubra sozinho como as coisas funcionam. Ele “não entende” porque nunca fez! O homem entenderá melhor as frustrações e os desafios que sua mulher enfrenta. A maioria de nós aprende a ser mãe por tentativa e erro. Aprendemos fazendo.

9.  Os dois devem descansar 
Muitas pessoas com quem conversamos disseram que, de vez em quando, gostariam de ter um tempo para simplesmente ficar em casa, sem fazer nada. Parece que se você está lá, tem que estar trabalhando. Está errado! Todos merecem um tempinho livre dentro de casa, uma folga. Durante esse tempo, um não pode dizer ao outro o que fazer. Ela quer ler uma revista. Ele, ler o jornal ou assistir à TV. Os dois podem tirar um cochilo.

10. Sejam carinhosos 
Tanto homens quanto mulheres nos disseram que sentem falta dos pequenos gestos de intimidade, como abraços e beijos, que desapareceram junto com o sexo.

11. Uma noite só para vocês 
Quantas vezes já ouviram esse conselho? E quantas vezes o seguiram? Se não der para arcar com uma babá, combine com um casal de amigos para que, de vez em quando, uns cuidem dos filhos dos outros. Os “encontros” podem até acontecer na sua própria casa. Duas velas, uma toalha de mesa, uma garrafa de vinho, todos os aparelhos eletrônicos desligados e nenhuma criança acordada: isso já é um encontro romântico (a comida pode ser encomendada). Encontro de madrugada em casa mesmo, depois que as crianças dormiram (e antes que uma delas pule em sua cama).

12. Uma escapada, sempre que possível 
Quanto maior a distância (física e mental) entre vocês e seus filhos, melhor é o sexo. Viajar nem sempre é fácil, mas vale a pena. Viajem juntos no fim de semana, só vocês dois, umas duas vezes por ano.

13. Marquem na agenda 
É preciso admitir: a época do sexo espontâneo, do tipo “agora mesmo, na mesa da cozinha”, acabou. Se vocês querem uma relação sexual de qualidade é preciso planejar.

domingo, 8 de agosto de 2010

Querido papai,

Obs: aos que não apareceram, só tinha estas fotos.

Assim iniciava as cartinhas ao papai quando era criança, principalmente com ele viajando pelos mares. Era uma época bem diferente, mas sempre com um gostinho bom de ter um pai, de longe ou de pertinho, sempre dava um jeito de se fazer presente. 

Foi-se o tempo em que os pais ficavam meio à margem da criação dos filhos, o trabalho delegado às mães; talvez por isso o segundo domingo de maio pareça tão mais festejado. Isto mudou, hoje cada vez mais se vê homens participativos, personagens importantes desde o período pré natal – não se considera mais a mulher grávida, e sim o casal grávido. Durante os meses de gestação, o feto ouve a voz paterna e é influenciado por ela, embora por conta da própria fisiologia o pai fique um tanto em segundo plano, mas com o tempo assume a função que lhe é de direito e o vínculo fica cada vez mais forte.

Lembrei de tudo isso e tantas outras coisas agora, retornando da festa do dia dos pais da escola de Catarina. A turminha cantou... ”eu te quero só pra mim, você mora em meu coração”... Foi lindo de ver, e acompanhar Daniel nesta especial primeira vez foi emocionante (primeiro com a filha na escolinha), trazendo à mente que estamos vivenciando grandes momentos pela primeira vez.  É o  primeiro Dia dos Pais depois que meu pai quase se foi (vitória de quem crê que a fé move montanhas), o  primeiro sem ir jantar com Magno Burgos no Baby Beef (não que ele gostasse tanto de comer, mas se tinha algo que o deixava feliz era reunir os filhos em torno daquela mesa), o primeiro dos meninos de Tia Coli sem o papai Joel, o primeiro depois que Leo soube ser tão pai no momento em que mais precisava de colo (só ele e Lary sabem o que passaram para chegar até aqui), o primeiro em que Pedrão joga o “baba” dos pais com João pensando que carinha Maria Vitória terá, o primeiro de Denilson no papel (já disse que na barriga também conta). Enfim, emoções de todos os tipos, mas sempre emoções, pois é delas que se constrói a paternidade.

E a paternidade poderá ser vivenciada de várias formas, festejada hoje e sempre, com cada gesto cotidiano. É este o motivo de estar escrevendo agora, lembrando histórias de pais e filhos (certamente cada um se lembra de muitas outras; lembremos delas também!) para felicitar cada pai – o meu, os dos meus amigos e os meus amigos pais. Sintam-se acarinhados, aproveitem cada momento, não deixem de dizer o quanto amam, se derretam com os abraços e beijos (acho que foi daí que Pepeu tirou que ser um homem feminino não fere seu lado masculino – mas isso é assunto para um outro post).

sábado, 31 de julho de 2010

Sedução Japonesa




Nunca esqueço meu amigo Marcos Mello dizendo: “comida japonesa é in, mas deixa eu ser out”.  Muito provavelmente isso já tenha mudado. Até ele já deve ter se rendido aos sabores da culinária japonesa.

Nos últimos anos a proliferação de restaurantes japoneses no Brasil foi significativa, e é apreciada por crianças, jovens e adultos, é Temakeria para todos os lados. Pessoalmente me agrada muito, é de fato uma sedução.

Inicialmente os brasileiros encaravam o sushi e seus derivados como uma comida exótica, e demoraram a gostar. Esta resistência inicial explica o fato da apresentação de um cardápio variado, fugindo da tradicional especialização. Atualmente, existem mais restaurantes nipônicos em São Paulo do que churrascarias (são cerca de 600 casas que oferecem pratos japoneses contra 500 casas especializadas em rodízio de carnes segundo a Abresi - Associação Brasileira de Gastronomia, Hospedagem e Turismo). Alguns motivos desta explosão estão nos pratos diferentes e extravagantes, sendo saudáveis, frescos e sem muita gordura, sem falar na técnica e na sutileza, típicas da culinária japonesa.

Há mil anos, a culinária japonesa era apenas uma cópia do que se fazia na China e na Coréia. Até o século X, praticamente tudo o que se comia no país, como o arroz e o macarrão, era preparado de acordo com os costumes dos vizinhos. Foi nos séculos seguintes que as influências estrangeiras passaram a ser transformadas e adaptadas às condições e preferências locais. Nascia, finalmente, a autêntica gastronomia japonesa.

Quando os primeiros imigrantes japoneses chegaram ao Brasil, em 1908, trouxeram vários hábitos como comer com hashi (aquelas duas varetas usadas para levar o alimento à boca), inicialmente se instalaram no interior do estado de São Paulo, onde surgiram os restaurantes mais formais, no bairro da Liberdade. 
Um século depois, algumas das tais esquisitices orientais se integraram ao cotidiano dos brasileiros. Comer com pauzinhos virou moda até em lanchonetes e palavras como sushi e sashimi já fazem parte do nosso vocabulário.

Daí para o sushi passar de alimento preservado a fast food foi um pulo. É verdade que o sushi/sashimi contemporâneo é bem diferente do original. O namasu, citado em textos do século VIII, eram fatias de peixe cru servidas num molho feito de vinagre e missô (pasta de soja). O peixe já vinha misturado ao molho e ninguém reparava se tinha sido bem ou mal cortado. Só no século XV o japonês passou a preparar o sashimi como faz hoje: peixe cru fatiado com maestria, para que o chef possa exibir toda sua habilidade de cortar e arrumar o peixe. Hoje a maioria dos restaurantes japoneses serve tanto sushi quanto comidas quentes, tentam lidar com o cardápio limitado pela pouca variedade de peixes e mariscos no oceano atlântico. Nos grandes restaurantes, longe dos citados fast-food, muitos produtos precisam ser importados. A boa culinária japonesa é cara, pois não se pode dissociar da apresentação, como uma boa cerâmica e utensílios diferenciados. 

Além da questão de se popularizar ou não a comida japonesa, existe mais recentemente a tendência chamada “fusion”, que como o nome diz, consiste na mistura das culinárias, a exemplo da caipirinha com saquê. Os amantes da culinária japonesa tradicional torcem o nariz, mas os novos chefs se esbaldam em inovações. Para fazer o fusion é preciso saber o que se está misturando, o que nem sempre dá certo, inclusive porque  a própria culinária japonesa já é uma fusão. Estão fazendo até pizza de sushi, para desespero de italianos e japoneses.

Tradições e polêmicas à parte, é muito bom ter contato a tudo isso, e o bom é fazer deste momento a porta de entrada para a rica cultura oriental que, nem é preciso dizer, vai muito além da culinária. 

sábado, 24 de julho de 2010

CONTRA O AMOR

Calma! Este é apenas o titulo de um livro que acabei de ler. Para comprá-lo passei por cima de algumas angustias internas, pois minha referencia era de um conhecido que concluiu com a leitura que amor e casamento não combinam. Pensei estar totalmente fora daquilo que acredito. Será que é tão convincente a ponto de desestruturar minhas crenças nesta área? Meu casamento é suficientemente firme para tolerar esta leitura? Vou expor feridas escondidas? Dei uma balançada. 

Por outro lado, se as coisas são realmente sólidas, vou ter que suportar a simples opinião da autora. Aqui cabe nota sobre a mesma, Laura Kipnis, PhD em psicologia, conhecida por instigar o leitor a refletir sobre dogmas, polêmicas e tabus.  Para os que apreciam assuntos complexos e polêmicos é sempre uma grande oportunidade.  

Depois de muito papo cabeça, a autora escreve neste livro sobre as barreiras impostas pela sociedade que sonegam ao ser-humano o livre direito de amar em sua total plenitude. Versa sobre uma suposta contradição entre o amor e o casamento, constatando que o primeiro por essência é livre e o casamento, nos moldes concebidos por nós ocidentais, exige fidelidade. Partindo desse pressuposto, o casamento seria um terreno fértil para o adultério.

Eu, aqui com meus botões, respirei aliviada por não me sentir abalada. Até concordo que o amor é um sentimento que liberta, e que de várias formas o casamento prende, mas não deve ser visto como uma prisão de fato, portanto quando o livre amor bate asas, é hora de partir para outra. E se o amor se foi, não quer dizer que não deu certo, pois citando mais uma vez o inesquecível Vinicius de Moraes, “que não seja imortal posto que é chama, mas que seja eterno enquanto dure”.

No fundo o livro representa a indignação com os desestimuladores índices de divórcios e separações de casais, antes apaixonados e felizes, mas frustrados após o casório. Enaltece o amor adolescente, a paixão juvenil e todo o frescor que deve ser cultivado na rotina de um casal.  O respeito à individualidade de cada um e o amor-próprio também devem ser mantidos, e não a perda de identidade da mulher ou do homem, como geralmente acontece. ( Pelo visto volto ao Diário da Multimulher, de forma recorrente acabo voltando por ser tema também recorrente nas conversas entre todas as mulheres)Encontro mais respostas positivas ao meu questionamento anterior – há vida após o casamento? Termino minha leitura em paz.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

DIÁRIO DA MULTIMULHER



Lamentei não mais sentir aquele friozinho na barriga. Como era excitante esperar ele chegar, a troca de olhares, toda a paixão que se insinuava. O simples toque das mãos já provocava furor. Me preocupou  pensar ... bons tempos aqueles ... Será que não há vida após o casamento?
A verdade é que fui levando a vida de esposa, gerenciando a casa, batalhando por  objetivos profissionais e  fui ser mãe (muito mãe!). Não esqueci o casamento, nem do amor que me uniu ao meu par para sempre, mas vamos combinar que tudo isso ocupa tanto espaço que quando você se dá conta a vida do casal está em segundo plano.
Então de novo me encontro no ponto de interrogação e me pergunto onde vou mexer para mais uma vez poder experimentar o tal friozinho na barriga. Acredito sim que o casamento pode ser melhor do que a fase de namoro, até porque formar uma família ainda é nosso mais importante projeto.
São conhecidas as estatísticas sobre casamentos - grande parte deles acaba no primeiro ano do primeiro filho por este ser o momento em que se cruza a fronteira entre mulher-amante e mulher-mãe; para os casais sem filhos também apontam a “burocratização” do sexo como fator preponderante para o desgaste das relações; existem ainda dados sobre a famosa crise dos sete anos, para a qual alguns psicólogos afirmam haver grande culpa da rotina em que caímos.  As pesquisadoras Maria Lúcia Garcia e Eda Tassara trabalharam no projeto “Da Utopia do Amor Romântico ao Cotidiano do Casamento”–evidenciou-se que falar, pensar, viver ou planejar manter uma relação afetivo-sexual faz parte da biografia de uma boa parte da população e que adotamos diversos estratagemas para tal. Para muitos autores e justamente quando chegamos ao cotidiano do casamento que precisamos manter a atenção redobrada, ao contrario do que normalmente fazemos – muito investimento pessoal durante a conquista e depois liga o piloto automático.
Estas reflexões me acompanham sempre, e é assim mesmo; quando a coisa vai se acomodando a gente tem que dar uma sacudida. É meio como se precisássemos re-enamorar a nova pessoa que surge á nossa frente, afinal todos nós vamos mudando ao longo da vida e se não estivermos atentos um dia olharemos para o outro e nos depararemos com um estranho.
Sem querer ser pretensiosa vou arriscar uma solução: voltar a namorar. Valorizar o olhar mais para o outro, o tocar mais o outro.  Que tal aquele programinha que adorávamos fazer, cineminha, namorar no escurinho, dividir o sorvete, e porque não?, lembrar de elogiar o cheirinho delicioso de seu perfume. É preciso reinventar o casamento todos os dias, o que exige também jogo de cintura e maturidade. 

sábado, 10 de julho de 2010

Solidão

Há muito tempo li uma reportagem de uma jornalista americana cobrindo a Guerra do Golfo. Ela a certa altura dizia “ a solidão é intrínseca ao ser humano”. Fiquei com aquilo na cabeça rememorando o que ela relatava; tentava em suas ligações para o marido passar o que sentia em meio a todo aquele cenário de guerra, do quanto se sentia angustiada, mas no fundo sabia que era difícil fazê-lo sentir o mesmo que ela.  

O filósofo alemão Martin Heidegger afirmava que estar só é a condição original de todo ser humano. Não significa algo negativo, é experimentar sensações que o outro não pode vivenciar por você. Ouvimos com frequência coisas do tipo “só vivendo para saber”, e é de fato impossível imaginar que cada um de nós tem respostas idênticas a todas as coisas. É o espectro da individualidade. No decorrer da vida passamos pela angústia de diversas situações que pertencem apenas a nos, pelo menos a maneira como lidamos com elas, principalmente a forma como sofremos nossas dores. As alegrias também têm um gostinho especial para quem as vive. Todos que nos cercam ate podem estar contentes por nós, mas só ali dentro, no escurinho do seu próprio eu, explode o gostinho da felicidade.

Viver isto positivamente é  enriquecer-se com suas próprias experiências e tornar-se mais interessante para o outro. Esta dita solidão do ser humano pode gerar um sentimento de abandono, mas uma criatura de fé valoriza a liberdade advinda dela. Liberdade sim, pois a individualidade é o que permite que tomemos nossas próprias decisões, responsáveis por erros e acertos.

Depois de muitos anos concluo que o que aquela repórter me despertou sobre a solidão não é uma catástrofe, e sim uma condição da existência humana, com a qual podemos lidar bem, e seguir em frente. Não quero com isso fazer apologia ao viver sozinho, pelo contrario; me parece que é estarmos juntos e trocando mutuamente que nos torna plenos. 

sábado, 3 de julho de 2010

ANDAR COM FÉ EU VOU...


       Estava cantarolando a música de Gilberto Gil... andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá! Nestes dias difíceis não me sai da cabeça. E é muito verdadeira... certo ou errado, a fé vai onde quer que eu vá...mesmo a quem não tem fé, a fé costuma acompanhar...

       É inerente ao ser humano, mesmo aos que se dizem céticos ou agnósticos, apegar-se a algo que não se vê, mas que se espera. E diante de verdades cientificas tão amplamente comprovadas, vale a fé? Penso que fé e ciência não são excludentes. Como disse Edward Mitchell, um dos primeiros homens a pisar na Lua: “O Universo é a verdadeira revelação da divindade, uma prova da ordem universal da existência de uma inteligência acima de tudo o que podemos compreender”.  Diversos cientistas importantes, ganhadores de prêmios Nobel, estudiosos de várias áreas reconhecem a existência de Deus. Mesmo o conhecido racionalista e inimigo da fé católica Voltaire, certa feita declarou: “O mundo me perturba e não posso imaginar que este relógio funcione e não tenha tido relojoeiro”. 

      Posto que como mulher das ciências estou autorizada a confortavelmente transitar no campo da fé, me ponho a desejar tê-la sempre, não só quando o chão sob os meus pés parece fugir.  Confronto minhas crenças e percebo que é fácil continuar seguindo em frente se você acredita que nada lhe faltará, que segurando nesta mão que lhe está sempre estendida não há o que temer, que estamos aqui para finais felizes. É esta mesma fé que nos faz aceitar tranqüilos o conceito de crescer na dor, e acreditar que a solução para todas as coisas sempre chega.

     Não se trata de um discurso conformista conformado com o determinismo das coisas. Pelo contrário, é um testemunho de que a fé é a mola propulsora para lutarmos nossos combates sem  esmorecer, não se dar por vencido e usar os revezes para sermos mais fortes. É a absoluta certeza de que fé e ciência se complementam – a ciência livra a fé de uma possível ingenuidade e com a fé a ciência se exime de afirmar que o mundo é apenas matéria.